Violência custa R$ 285 bilhões por ano ao Brasil e reduz produtividade de mulheres e jovens, aponta estudo - QTU Questões do Universo

Violência custa R$ 285 bilhões por ano ao Brasil e reduz produtividade de mulheres e jovens, aponta estudo

Fonte: Bandeira da fonte

A desigualdade no Brasil deixou de ser tratada apenas como uma questão social para se consolidar como um dos maiores gargalos econômicos e de produtividade do país.
É essa a conclusão de um estudo conduzido pelos economistas Michael França e Daniel Duque, realizado com o Instituto Ethos e o Núcleo de Estudos Raciais do Insper (Neri), que deu origem ao livro "Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites econômicas", publicado pela editora Jandaíra.

Um dos principais números apresentados no livro é a estimativa de que a violência representa um custo equivalente a 4,38% do PIB brasileiro, ou cerca de R$ 285 bilhões por ano.
O cálculo vem do relatório Custos Econômicos da Criminalidade no Brasil, publicado em 2018 pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, com ano-base 2015.
A conta inclui gastos com segurança pública (1,35% do PIB), segurança privada (0,94%), seguros e perdas materiais (0,80%), sistema judicial (0,58%), perda de capacidade produtiva decorrente de homicídios (0,40%), sistema prisional (0,26%) e despesas médicas e terapêuticas (0,05%).
“Os R$ 285 bilhões não correspondem apenas ao que o Estado gasta combatendo o crime.
A maior ideia dessa estimativa é justamente incorporar recursos privados e produção que deixa de existir”, explica França.
Para os autores, o impacto da desigualdade vai além desses custos e afeta também o tamanho do mercado consumidor, a alocação de talentos e a arrecadação pública.
"A violência e a discriminação corroem o capital humano do país.
Quando vitimamos desproporcionalmente homens jovens negros de baixa escolaridade ou afastamos talentos por preconceito, estamos impondo um dano profundo, duradouro e mensurável ao potencial de desenvolvimento da nossa economia", afirma Michael França, economista, pesquisador do Insper, conselheiro do Instituto Ethos e coautor da obra.
Segundo França, a desigualdade prejudica as empresas por diferentes canais.
Um deles é a redução do tamanho efetivo do mercado consumidor, já que uma parcela grande da população tem poder de compra limitado e concentrado.
“Isso restringe escala, diversidade de demanda e expansão de produtos de maior valor agregado”, diz o economista.
O livro descreve esse mercado, segundo ele, “como um funil, grande em população e muito mais estreito em capacidade de compra”.
A desigualdade também prejudica a alocação de talentos e a produtividade.
Pessoas qualificadas podem deixar de adquirir formação, ficar fora de posições nas quais poderiam produzir mais ou ser excluídas por características que pouco têm a ver com sua capacidade produtiva.
A violência acrescenta a esse problema a fuga de trabalhadores e a perda precoce de capital humano.
Para as empresas, a violência também significa recursos empregados em proteção privada e maior risco para pessoas, propriedades e investimentos.
O impacto varia entre setores: negócios dependentes de uma classe média ampla tendem a sentir mais a restrição do mercado consumidor, enquanto empresas intensivas em capital humano sofrem mais com o desperdício e a fuga de talentos.
A exposição à violência, por sua vez, depende do território e da necessidade de circulação de pessoas e mercadorias.
Outro dado citado na obra é a estimativa de que cada jovem vítima de homicídio representa um prejuízo de aproximadamente R$ 550 mil em capacidade produtiva desperdiçada ao longo da vida, em valores de 2017.

O cálculo considera o valor presente da renda que a pessoa poderia gerar durante sua vida produtiva, usando o salário como aproximação da produtividade do trabalhador, além de hipóteses sobre trajetória futura de renda e taxa de desconto.
“A idade é importante.
A morte de alguém muito jovem elimina muitas décadas potenciais de atividade econômica”, diz França.
O relatório original dá atenção especial às vítimas entre 13 e 25 anos, faixa em que o prejuízo esperado é particularmente elevado.
O economista ressalta que os R$ 550 mil representam uma estimativa estatística da produção que deixa de ser gerada, e não uma renda que cada vítima necessariamente receberia.

O livro cita ainda projeções do Banco Mundial segundo as quais reduzir as taxas de homicídio em 10% poderia elevar o crescimento do PIB em aproximadamente 1 ponto percentual ao ano em países de alta criminalidade.
O aumento da violência também estaria relacionado a uma redução de 4% a 6% na renda do trabalho feminino, segundo estudos citados no documento.
A criminalidade violenta também está diretamente relacionada a uma queda na participação de mulheres no mercado de trabalho.
Uma das pesquisas mencionadas, de Andrea Velásquez, acompanha mulheres no México ao longo do tempo e relaciona mudanças na exposição local a homicídios com alterações na oferta de trabalho.
O efeito aparece sobretudo entre mulheres que trabalham por conta própria, para as quais há maior margem para reduzir horas ou deixar temporariamente a força de trabalho diante do medo e dos riscos de deslocamento.
“Há evidências de que o aumento da violência reduz de forma relevante a participação feminina no mercado de trabalho, especialmente entre mulheres por conta própria”, afirma França.
Exclusão de pessoas LGBTQIAPN+ custa R$ 94,4 bilhões
Outro estudo citado na obra, do Banco Mundial, estima em R$ 94,4 bilhões por ano o custo da exclusão de pessoas LGBTQIAPN+ no mercado de trabalho brasileiro, equivalente a cerca de 0,8% do PIB de 2024.
O cálculo considera efeitos de desemprego, inatividade, composição ocupacional, informalidade e diferenças salariais.
O estudo considera que pessoas LGBTQIAPN+ representam 9,3% da população no cenário principal.
O mesmo levantamento estima em R$ 14,6 bilhões por ano o impacto fiscal da discriminação no trabalho.
O valor soma cerca de R$ 10,6 bilhões em arrecadação que deixa de ocorrer e R$ 4 bilhões em despesas adicionais associadas a desemprego e inatividade.
O cálculo de R$ 285 bilhões tem como referência a criminalidade em 2015, enquanto a estimativa sobre exclusão LGBTQIAPN+ usa como base o PIB de 2024.
Além disso, os conceitos são diferentes: a conta da violência agrega gastos públicos e privados, perdas patrimoniais e produção futura perdida, enquanto a estimativa de exclusão considera diferenças no mercado de trabalho.
Segundo França, os R$ 94,4 bilhões monetizam principalmente diferenças observadas de inserção e remuneração no mercado de trabalho e não incorporam separadamente custos como violência física ou impactos de saúde.
O estudo do Banco Mundial também registra, segundo ele, que uma parcela expressiva das pessoas entrevistadas escondia sua identidade no trabalho e que muitas presenciaram hostilidade contra colegas LGBTQIAPN+.
O “custo invisível da desconfiança”
Além das perdas diretamente mensuráveis, o livro chama atenção para um efeito menos visível da desigualdade: a erosão da confiança.
Para Ricardo Young, empresário, professor e cofundador do Instituto Ethos, essa fragilidade estrutural pode ser conceituada como o “custo invisível da desconfiança”.
“A confiança é a infraestrutura invisível da economia.
Quando existe, reduz a necessidade de supervisão, acelera decisões e favorece investimentos de longo prazo.
Quando falta, cada transação comercial precisa carregar uma margem adicional de proteção.
E essa margem tem um preço altíssimo para o país”, destaca Young.
Dados do IBGE citados na publicação mostram que a pobreza recuou de 27,3% para 23,1% e a extrema pobreza, de 4,4% para 3,5%, entre 2023 e 2024.
Ainda assim, milhões de brasileiros seguem sobrevivendo com menos de R$ 225 por mês — equivalente a US$ 2,15 ao dia na régua de extrema pobreza do Banco Mundial.
Segundo o estudo, essa vulnerabilidade limita o mercado consumidor e reduz a qualificação da mão de obra disponível para o setor privado.
Para o Instituto Ethos, os dados reforçam a necessidade de tratar desigualdade, diversidade e inclusão também como questões econômicas e estratégicas.
“Durante muito tempo, a desigualdade foi tratada sob o prisma ético ou social.
As evidências do estudo provam que ela compromete diretamente a produtividade, restringe mercados e limita o crescimento sustentável do país.
Enfrentar esse cenário é uma decisão estratégica indispensável para lideranças e organizações que pensam no longo prazo”, destaca Ana Lucia Melo, diretora-adjunta do Instituto Ethos.