Violência contra animais vira 'moeda social' em grupos de jovens na internet
Casos recentes de maus-tratos a animais, como o do cão Orelha, torturado até a morte por adolescentes em Florianópolis, revelaram uma nova preocupação: o zoossadismo. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que os processos por violência contra animais cresceram de forma contínua nos últimos cinco anos, com média de 13 novos casos por dia no país. No entanto, para o Ministério Público do Rio Grande do Sul, porém, essa é apenas a ponta do iceberg.
Em entrevista ao Estúdio CBN, o procurador e coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema do MP-RS, Fábio Costa Pereira, explicou que esses episódios não são isolados. Pelo contrário, fazem parte de um fenômeno mais amplo, alimentado por subculturas violentas nas redes sociais. Segundo ele, após a pandemia, junto da virtualização das relações sociais entre adolescentes, criou-se também um ambiente propício para a produção de conteúdos extremos.
“A gente tem um caldo de cultura feito de isolamento, excesso de telas, exposição à violência gráfica e subculturas que transformam a dor em moeda social. Dentro disso entram os maus-tratos contra animais com requintes de barbárie”, afirmou.
Segundo ele, nesses grupos, quanto maior a crueldade, maior o prestígio. A violência, assim, deixa de ser exceção e passa a funcionar como forma de validação e pertencimento. Além da agressão a animais, são comuns práticas como automutilação, extorsão sexual, estupro virtual e até o incentivo ao suicídio.
Em alguns casos, há uma espécie de “precificação” dessas ações, com recompensas que vão desde prestígio dentro do grupo até pagamentos em criptomoedas ou moedas virtuais de jogos.
O procurador destacou ainda que a radicalização não ocorre, em regra, a partir de uma liderança centralizada, mas de forma horizontal, entre os próprios adolescentes.
“Eles se radicalizam entre si. Um estimula o outro, em um processo contínuo de dessensibilização, impulsionado pelo excesso de exposição à violência nas telas”, explicou.
Outro ponto de atenção, segundo Costa Pereira, é o distanciamento geracional entre pais e filhos. Muitos responsáveis ainda associam segurança ao ambiente físico da casa, sem perceber que celulares e computadores funcionam como portais para um mundo digital repleto de riscos.
Para ele, a prevenção passa necessariamente pelo fortalecimento dos vínculos familiares e pela supervisão do uso da internet.
“A tela não é só uma tela. Ela é um portal. É por ali que esse adolescente entra em um outro mundo, cheio de perigos e ameaças, muitas vezes sem qualquer supervisão”, explicou.
Ele afirma que a simples ideia de retirar plataformas do ar não resolve o problema, porque esses grupos migram rapidamente para outros espaços, inclusive na chamada "internet profunda". Na avaliação do MP, o enfrentamento mais eficaz começa pela família, com acompanhamento próximo, regulação do tempo de uso de telas.
Além, é claro, do trabalho de capacitação de professores, profissionais da saúde e da segurança para identificar comportamentos de risco antes que episódios graves aconteçam
