Violência contra animais: morte do cachorro Orelha expõe limites da brutalidade no Brasil
As agressões brutais que levaram à morte do cachorro Orelha atravessaram o Brasil como uma dor íntima, uma indignação profunda, funda e física que tocou na parte mais desarmada da gente, naquela que ainda reage quando a inocência é ferida.
Vejo por minha casa: Aurora entrou na minha vida e reorganizou tudo por dentro. Ela é minha buldoguinha, compacta, teimosa, doce, dona de um ronco que parece motor de Fórmula 1. No dia em que chegou, eu nasci de novo. Não me sinto seu dono, nem me encaixo nesse termo moderno que tenta dar contorno jurídico ao amor, tutor. Eu sou pai. Dei à luz a Aurora pela alma e ela, assim, pariu também uma pessoa melhor. Depois dela, vieram Leone e Taormina. Hoje, como se vê, somos uma família grande, barulhenta, cheia de patas, pelos. A casa gira em torno deles e, ao mesmo tempo, se aquieta por causa deles. Eles sabem quando estamos cansados, quando a tristeza pesa, quando o dia foi duro. Aproximam-se devagar, encostam a cabeça, respiram junto. Há uma sabedoria que toca o divino.
Não usam lacinho, não vestem fantasia, não têm coleira grifada. Odeiam essas palhaçadas, são chiques na alma, in natura. Querem comer, passear, dormir, roncar, mas sobretudo querem ser amados e amar com uma entrega que nós desaprendemos. Não calculam, não fingem. Talvez, por isso, a morte de Orelha tenha nos atingido de forma tão visceral. Ele não era o cachorro do sofá, da caminha, do apartamento climatizado. Era um dos cães comunitários da Praia Brava, onde existem casinhas destinadas aos animais do bairro. Convivia diariamente com moradores, com outros cães, com a rotina do lugar. Tinha 10 anos, a mesma idade da Aurora. Um velhinho. A Associação de Moradores lembrou que ele fazia parte do cotidiano da região havia muitos anos, cuidado espontaneamente por quem cruzava seu caminho. Um símbolo simples e querido da convivência entre gente, espaço e bicho.
Não chegava a viver no grau máximo de vulnerabilidade, como o cachorro de rua, mas ainda dependia da bondade eventual, da sobra, do gesto que pode ou não vir. Mesmo assim, confiava. Aproximava-se. Abanava o rabo. Quando a violência alcança um animal assim, não é só a vida dele que é esmagada. É a ilusão de que ainda existam zonas protegidas da brutalidade. Cada pessoa que se abalou viu o próprio bichinho dormindo no canto preferido da casa, esperando na porta, seguindo cada passo. Viu também o próprio medo. O receio de que a dureza do mundo chegue aonde guardamos o que temos de mais simples, perfeito e vulnerável.
Há também outro desconforto que não pode ser ignorado. A juventude dos agressores e, mais ainda, a disposição de seus responsáveis de acobertá-los, defendê-los, premiá- los com proteção cega. Esses, sim, talvez caibam na palavra tutor. Num país habituado a notícias brutais, a dor por um cachorro revelou que ainda existe um limite, um ponto vermelho piscando dentro de nós que se recusa a tratar a crueldade como banal. Enquanto houver um choro possível por um animal que nunca vimos de perto e um nó na garganta por um rabo que não voltará a abanar, ainda restará algo de essencial. Talvez sejam eles, os bichos, que nos recordem todos os dias de proteger o que é pequeno, frágil e confiante.
Ao fazer isso, protegemos também o pouco de humanidade — ou de pureza animal — que insiste em permanecer entre nós.
