Vinho do Porto com um século e meio é lançado; são apenas 200 garrafas a 10 mil euros cada

 

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Um vinho do Porto com 150 anos chega ao mercado em Portugal, após um trabalho quase arqueológico capitaneado pelo premiado enólogo Tiago Alves de Sousa. Foram cinco anos "garimpando tesouros" guardados há mais de um século e meio em adegas de produtores do Douro, no Norte de Portugal. Depois dessa seleção, foi feito o blend dos vinhos e o engarrafamento:

— Esse vinho nasce de uma tradição antiga da região. Os viticultores locais, uns maiores e outros menores, faziam vinho do Porto e depois vendiam para as casas exportadoras. Mas a família ia guardando alguns vinhos muito especiais, no sentido naturalmente de os ir valorizando. Podia ser, por exemplo, o vinho do ano de nascimento de um filho. Fizemos um trabalho então de identificação e seleção. E acabamos por nos deparar com alguns elementos realmente fantásticos — revela Tiago.

O enólogo português Tiago Alves de Sousa

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Segundo o enólogo, apesar da qualidade de alguns dos vinhos encontrados, foi necessário fazer a recuperação antes da composição do Rubens Menin – Port Very Very Old Tawny:

— Precisávamos fazer esse trabalho porque, com 150 anos, sabemos que realmente tudo fica concentrado. E fica concentrado o melhor, mas também vemos os pequenos desvios que vão surgindo inevitavelmente.

Alves de Sousa detalhou que, em seguida, foi estudada a composição do corte:

— Fizemos um pré-corte em que já começamos a procurar a forma como eles se poderiam complementar. Depois, fomos aprofundando ainda mais esse corte. Por isso, precisamos de um longo tempo de identificação, seleção e composição. Estamos a falar sobretudo de três bases de vinhos realmente velhíssimos. E existem ali mais uns cinco aproximadamente, que foram um pouco como sal e pimenta. Esses adicionais acabaram por complementar e trazer sobretudo ainda mais harmonia.

Segundo Tiago ele, um dos desafios foi a concentração também do açúcar, em um nível muito alto para ser um vinho equilibrado:

— O açúcar estava realmente concentrado num nível altíssimo, 325 gramas. Por isso, se não houvesse ali algum equilíbrio com outro elemento, poderia ser demasiado intenso, demasiado concentrado. Mas como alguns componentes tinham uma acidez bastante elevada, acabou por se conseguir equilibrar naturalmente. Também havia uma acidez volátil que tinha aumentando de uma forma mais do que natural. Buscamos dosar esses componentes para trazer complexidade e frescor, sem ficar fora de tom. Uma coisa é aquele vinagrinho bom, que lhe dá muita complexidade, outra coisa é quando ele se torna dominante. Aí já não é tão positivo. Por isso, foi um processo muito complexo de composição e de lote.

A produção artesanal da garrafa e o vinho Rubens Menin – Port Very Very Old Tawny

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Enólogo consultor da Menin, Tiago conta que a conclusão do que ele chama de "uma trabalho quase de ourivesaria" ocorreu no fim de 2025:

— Nós terminamos o lote final no final do ano, essa afinaçãozinha final com esse sal e pimenta. Foi um momento muito especial e emotivo. Trabalhar com vinhos com 150 anos é uma honra, mas também implica um cuidado e um respeito muito grandes.

O fato de serem vinhos do Porto é um dos motivos para que tenham chegado a essa idade mantendo qualidade, segundo Tiago:

— Faz toda a diferença ser um vinho do Porto. Se fosse outro tipo, não seria fácil ter 150 anos com essa qualidade. É em função do álcool da fortificação e também, naturalmente, do próprio açúcar. São dois conservantes naturais que conseguem garantir que, ao fim desse longo tempo, o vinho não só ainda esteja bom, mas na verdade esteja excepcional. Esses dois elementos fazem a diferença e, aliados à concentração natural que as uvas do Douro têm, vão lhe dar uma longevidade absolutamente extraordinária.

O enólogo Manuel Saldanha (à esquerda)

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Manuel Saldanha, enólogo residente da Menin, avalia que o consumidor vai perceber que se trata de um vinho do Porto muito especial.

— Ele tem uma grande concentração que só pode ser atingida com o tempo. Mais do que palavras e descritores, tem uma profusão de aromas, texturas, sabores. É quase opaco, com tons âmbar escuro, ouro antigo e reflexos verde-outonal. Tem a assinatura de muitas gerações. A complexidade aromática inclui mel de urze de floresta envelhecido, resina e folhas secas, além de notas iodadas marítimas e especiarias como erva-doce, cardamomo e açafrão.

Para Manuel, participar na criação de um vinho que teve origem em vinhas plantadas em meados do século XIX é uma emoção muito difícil de descrever:

— Sendo ainda jovem na profissão, sinto um enorme privilégio por poder trabalhar com vinhos que atravessaram gerações e que carregam mais de um século de história do Douro. Este Very Very Old Tawny é muito mais do que um vinho raro. É um testemunho vivo do tempo, e ter contribuído para revelar algo assim ao mundo é uma responsabilidade e um orgulho enormes.

Raridade no mercado

Tiago Alves de Sousa acrescenta que alguns vinhos muito antigos foram lançados em Portugal, mas ele não pode dizer se foram trabalhados dessa mesma forma.

— Há alguns casos em que comunicam que foi encontrada uma pipa perdida que estava enterrada ou numa parede. Há muitas narrativas assim, mas a Menin quis desde sempre ser o mais transparente possível. É uma forma de prestar a nossa homenagem aos viticultores que cuidaram e que garantiram que os vinhos chegassem até nós. Nunca iríamos roubar esse contributo tão importante. Estamos a falar de possivelmente sete gerações que estão bem presentes. Nós acabamos por revelar o trabalho incrível de todos esses vinhateiros.

Berço do vinho do Porto, o Douro é a mais antiga região vinícola demarcada do mundo: setembro de 1756

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Douro do passado

Os vinhedos que deram origem aos vinhos usados no corte pertenceram a Douro muito diferente do atual. Eles foram plantados antes de a praga filoxera dizimar os vinhedos da Europa no século XIX. No passado, a videira era plantada em pé-franco, ou seja, diretamente no solo. Atualmente, é usada da técnica de enxertia usando parte de outra planta, o que evita que esse inseto, até hoje um problema para os viticultores, destrua as plantas.

— Estamos a falar de muito, muito tempo atrás e de um momento em que nem sequer havia registros no Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. Os vinhos estavam oficiais, mas não havia propriamente a datação específica. Por isso foi mesmo difícil tentarmos nós próprios recriar aquilo que acreditamos que era efetivamente o Douro daquele momento. Seguramente eram vinhas pré-filoxéricas, possivelmente foram plantadas em meados do século XIX: 1840, 1850 é a nossa estimativa. As videiras estavam em pé-franco, sem dúvida, e com as castas que na altura estariam mais presentes — detalha Alves de Sousa.

Além disso, havia naquelas propriedades um mosaico de uvas praticamente desconhecido na atualidade. Os vinhos estagiaram em madeira de castanho e, posteriormente, em casco.

— Eram variedades bastante diferentes daquelas que estão hoje no Douro. Podemos citar o Casculho, a Malvasia Preta, o Donzelinho Tinto ou o Cornifesto. A Tinta Amarela já estava presente e é uma grande casta. Ela representa esse passado, mas também muito daquilo que o Douro necessitará no futuro — analisa o enólogo.

O produtor brasileiro Rubens Menin afirma que tem se empanhedo em honrar o patrimônio histórico do Douro e em revelar alguns dos tesouros dessa região ao Norte de Portugal. No fim de 2024, foram lançados dez vinhos do Porto: cinco no estilo Tawny, um deles com 80 anos, e cinco brancos.

— O vinho do Porto antigo é finito. E está diminuindo o estoque antigo. Então o vinho de 150 anos que lançamos é único, uma raridade. Ele celebra o que o Douro tem de melhor, um Douro ancestral. Nós produtores temos cada vez mais que priorizar o antigo. Uma coisa é tomar um Tawny de 10 anos. Outra é um de 50 anos, de 80 anos. É completamente diferente. Quando viajo, cada vez mais vejo o vinho do Porto presente nos melhores restaurantes do mundo. Só que ainda falta educação, as pessoas saberem o que é esse vinho, ainda mais o branco. É uma joia. Gosto de falar que é um diamante, que nós precisamos lapidar para virar um brilhante.

O produtor Rubens Menin

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Tiago Alves de Sousa diz que os produtores de vinho do Porto passam por momentos desafiadores, em especial pelas características desses rótulos. O processo de fortificação o deixa com mais álcool e mais açúcar:

— Ele acaba por estar dentro dos vinhos que poderão sofrer mais com as novas tendências, o que tem levado a um discurso muitas vezes algo pessimista. As vendas estão a decrescer ligeiramente em volume, embora estejam a aumentar em valor. Esse aumento em valor quase está a conseguir compensar a queda em volume, mas o discurso de muitos colegas produtores não tem sido tão positivo. Porém, mais importante do que os vinhos que foram selecionados e que permitiram também avançar mais cedo para o mercado, são todos os que estão a ser estagiados. Já produzimos 300 mil litros de vinho do Porto nos vinhedos da Menin. É um compromisso de garantirmos que o Tiago e o Manuel do futuro não terão que garimpar da mesma forma que nós. Vamos ter dentro de casa tesouros para as próximas gerações.

São apenas 200 garrafas de 500ml, com preço de 10 mil euros cada. Não há ainda previsão de data de chegada do vinho ao Brasil.

A repórter viajou a convite da Menin Douro Estates.