'Vingança': Multidões participam de exibição pública de caixão de líder supremo do Irã e família, incluindo neta de 14 meses

Fonte: Bandeira



Milhares de iranianos lotaram, neste sábado, a Grande Mosalá Imam Khomeini, em Teerã, para a primeira cerimônia pública de despedida do ex-líder supremo do Irã, Ali Khamenei.

A exposição do caixão, que integra um funeral de Estado previsto para durar seis dias, começou às 6h (horário local) sob forte esquema de segurança, quatro meses após o aiatolá ser morto em bombardeios israelenses e americanos que desencadearam, em 28 de fevereiro, a guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos.

Contexto: Com 'maior funeral da História' para Ali Khamenei, Irã busca demonstrar poder e resiliência depois da guerra

Entenda: EUA alertaram Irã por meio de países da região sobre risco de Israel tentar matar negociadores do país

Pessoas em luto reúnem-se no Grande Mosalla para prestar suas últimas homenagens ao falecido líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, no início das cerimônias fúnebres em Teerã, em 4 de julho de 2026

ATTA KENARE / AFP

O corpo de Khamenei permanece exposto na Grande Mosalá, um vasto complexo religioso da capital iraniana.

Sobre o caixão repousa seu emblemático turbante negro, símbolo da linhagem religiosa do líder que comandou o país por mais de três décadas.

Ao lado do caixão de Khamenei também estão expostos os caixões de familiares mortos nos mesmos ataques que atingiram o líder iraniano em fevereiro.

Segundo a imprensa estatal, entre eles estão sua filha mais velha, Seyyedeh Boshra Hosseini Khamenei; o genro, Mesbah-ol-Hoda Bagheri; a nora, Zahra Haddad Adel; e a neta, Zahra Mohammadi Golpaygani, de apenas 14 meses.


Enquanto o corpo do aiatolá era exibido sob uma estrutura de vidro, uma multidão marchava pelas avenidas fechadas ao tráfego no centro de Teerã.

Mulheres carregavam buquês de flores brancas, enquanto outras choravam e entoavam cânticos religiosos sob temperaturas próximas dos 36°C, segundo a rede americana CNN.

Imagens transmitidas ao vivo mostraram grupos de fiéis batendo ritmicamente no peito, um tradicional gesto de luto entre os xiitas.

Caminhões-pipa lançavam jatos de água sobre a multidão para amenizar o calor, enquanto cartazes e painéis espalhados pela cidade exibiam retratos do ex-líder iraniano.

Análise: Terceira via do Oriente Médio ganha força para evitar Irã e Israel

Vestidos majoritariamente de preto, vários milhares de participantes se reuniram no local desde o amanhecer deste sábado, antes mesmo de a televisão estatal anunciar oficialmente o início das cerimônias.

Pessoas em luto seguram retratos do falecido Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, no início das cerimônias de seu funeral na Grande Mosalla, em Teerã, em 4 de julho de 2026

AFP

Muitos carregavam bandeiras xiitas vermelhas com a inscrição "Mártir".

Segundo um jornalista da AFP, alguns participantes gritaram "Vingança!", além de "Morte aos Estados Unidos, morte a Israel!", um slogan frequente em manifestações oficiais.

Também foram vistas faixas vermelhas com o apelo "#MatarTrump", justamente quando os Estados Unidos celebram o 250º aniversário de sua independência.

Recursos extras: Preocupado com Rússia e Irã, Reino Unido aumenta orçamento em R$ 10 bilhões para novos drones militares

Segundo a agência de notícias Associated Press, parte da multidão também entoou o lema: "Nossa palavra é uma só: vingança!".

— Certamente vingaremos seu sangue.

Todos aqui vieram para vingar o sangue do líder supremo.

Como nosso líder disse, temos uma disputa de sangue com os Estados Unidos — afirmou à Reuters Arash Rahimi, de 40 anos.

Outro participante, Hamid Teimori, da província iraniana de Hamadã, comparou a morte de Khamenei à perda do próprio pai.

— Tenho um sentimento estranho.

Quando meu pai morreu, não chorei tanto quanto chorei quando o líder supremo foi martirizado — disse.

Veja: Assessor do aiatolá do Irã diz que negociações técnicas com os EUA foram canceladas em meio a disputa e novos ataques em Ormuz

— Prometemos ao líder supremo que o seguiríamos até o fim.

Todo esse povo está aqui por ele — ressaltou Reza, professor universitário de 37 anos.

As autoridades preveem que entre 15 e 20 milhões de pessoas participem das homenagens apenas na capital iraniana, em eventos anunciados pelo governo como os maiores da história do país.

A cerimônia, que se estenderá por seis dias, também é vista como uma demonstração de força política em meio às negociações diplomáticas entre Estados Unidos e Irã, após a assinatura, no mês passado, de um acordo preliminar para encerrar o conflito iniciado em fevereiro.

A presença do filho de Khamenei, Mojtaba, que assumiu a liderança suprema da República Islâmica após a morte do pai, ainda não foi confirmada.

Supostamente ferido durante os ataques que mataram o aiatolá, ele tem se manifestado apenas por meio de mensagens escritas e não aparece em público.

Explosões, fumaça e destruição: as imagens do ataque de EUA e Israel ao Irã

O funeral ocorre em meio a temores de novos ataques contra o Irã.

Na sexta-feira, a Guarda Revolucionária iraniana advertiu que qualquer tentativa de atingir o país nos próximos dias receberá uma resposta "decisiva e mais devastadora do que nunca".

O alerta foi emitido dias após o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmar que Mojtaba Khamenei estaria "marcado para morrer".

Autoridades iranianas temem que a concentração de milhões de pessoas e a presença de altos dirigentes políticos transformem as cerimônias em potenciais alvos de atentados ou tentativas de assassinato.

Por causa da homenagem, realizada meses após grandes manifestações contra o alto custo de vida e o governo, o centro de Teerã foi transformado em uma fortaleza, com numerosos postos de controle policial e forte presença das forças de segurança.

Pessoas reagem ao prestar suas últimas homenagens ao falecido Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, no início das cerimônias fúnebres na Grande Mosalla, em Teerã, em 4 de julho de 2026

ATTA KENARE / AFP

Centenas de pessoas já formavam fila diante da Mosalá desde a noite de sexta-feira, na esperança de serem as primeiras a entrar.


— Queremos nos despedir pela última vez do nosso guia, e por isso a espera não é dolorosa nem difícil para nós — disse à AFP Somayye Hamedi, professora de 44 anos vestida com um chador preto.

Alguns dos presentes choravam, enquanto outros aguardavam sentados no chão, ouvindo a recitação de poemas e cânticos religiosos.

— Estou aqui para me despedir do meu amado líder, Ali Khamenei.

Nunca imaginei viver um dia como este.

Gostaria de ter morrido antes desta tragédia — disse à AP Hananeh Mousavi, de 27 anos.

Ali Kazemi, que viajou cerca de 530 quilômetros da cidade de Tabriz para participar da cerimônia, afirmou que a presença da multidão representa apoio ao regime.

— Participamos do funeral para mostrar que todos estamos comprometidos em defender nosso país e nossa religião — declarou.

— Vir aqui é a última e a única coisa que podemos fazer (por Ali Khamenei) que sacrificou sua vida (pelo Irã) — afirmou Fatemeh Nowdehi, estudante de 25 anos oriunda do norte do país.

Homenagens

O caixão permanecerá exposto dia e noite na Mosalá até segunda-feira, antes de uma procissão pelas ruas da capital.

Depois, seguirá por várias cidades do Irã e do Iraque, antes do enterro em 9 de julho na cidade sagrada de Mashhad, no nordeste do Irã, onde Khamenei nasceu.

Inicialmente previstas para março, mas adiadas por causa da guerra, as cerimônias fúnebres incluem uma visita a dois santuários xiitas em território iraquiano.

Pessoas em luto reúnem-se no Grande Mosalla para prestar suas últimas homenagens ao falecido líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, no início das cerimônias fúnebres em Teerã, em 4 de julho de 2026

AFP

Diante do público em Teerã, vários altos funcionários iranianos e alguns dignitários estrangeiros prestaram na sexta-feira uma última homenagem ao líder supremo, que comandou o Irã por mais de três décadas até morrer aos 86 anos.

Também apareceu em público pela primeira vez desde o início da guerra Ahmad Vahidi, comandante da Guarda Revolucionária, nomeado para o cargo no início de março após a morte de seu antecessor nos ataques de fevereiro.

Para receber os iranianos vindos de todo o país, mais de 400 tendas do Crescente Vermelho iraniano foram instaladas em um grande parque da capital, constatou a AFP.

Também foram posicionados caminhões-pipa para refrescar a multidão, diante da previsão de temperaturas superiores a 35°C.

Tudo isso ocorre sob uma grande imagem do líder com o punho erguido, símbolo da resistência que ele defendia diante do Ocidente, dominando o recinto.

(Com AFP)