Vindima na Serra Gaúcha: um roteiro para aproveitar a época da colheita da uva no Vale dos Vinhedos

 

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Numa típica manhã de verão em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, trabalhadores rurais podavam manualmente um parreiral da Casa Valduga. Eles retiravam apenas as folhas do lado direito, para que os cachos carregados de uvas pinot noir recebessem a dose certa do sol da manhã. As do lado esquerdo permaneciam, protegendo os frutos do calor mais intenso da tarde.

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— Todo detalhe importa — comentou o enólogo Eduardo Valduga, representante da terceira geração na administração da vinícola, uma das principais do país. — A qualidade do vinho que serviremos daqui a alguns anos depende de como tratamos as uvas que estão no pé neste exato momento.

O “exato momento” ao qual ele se refere é o da vindima. A colheita da uva é o ápice de toda zona vitivinicultora, e não poderia ser diferente no Vale dos Vinhedos, região a cerca de duas horas de Porto Alegre. De janeiro a março, não apenas as parreiras ficam carregadas, como as dezenas de vinícolas espalhadas pelas cidades de Bento Gonçalves e Garibaldi (e Monte Belo do Sul, em menor escala) preparam atividades especiais, como reprodução da colheita tradicional (com direito a pisar as uvas com os pés descalços), degustações de rótulos especiais e harmonização com menus preparados especialmente para a temporada.

— O período da colheita da uva, quando se celebra um ano inteiro de trabalho e dedicação, é o momento mais apaixonante para se estar na região. É quando o turista pode ver as uvas nas videiras, viver experiências sensoriais e imersivas em meio aos vinhedo — conta Matheus Vigel, diretor de operações da Wine Locals, agência especializada em enoturismo no Brasil e na América do Sul.

Tradição na Casa Valduga

Sede da Casa Valduga, uma das vinícolas mais tradicionais do Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha

Eduardo Maia/O Globo

Uma das atrações mais populares de Bento Gonçalves é a Casa Valduga, pioneira no enoturismo na região e que hoje conta com seis pousadas, quatro restaurantes e um centro de visitantes que lembra uma villa toscana em plena Via Trento, um dos caminhos mais bonitos do vale. Há diversas opções de tours, quase sempre incluindo degustação de rótulos premiados e uma visita à maior cave da América Latina, onde são guardadas mais de seis milhões de garrafas de espumante e 400 mil de vinho tinto.

Há, claro, experiências especiais, incluindo a da vindima, que acontece apenas às quintas e sábados e vai até 26 de fevereiro (R$ 900 por pessoa). O programa começa às 10h, com um café da manhã com direito a grapa e grostolli, um doce herdado dos colonos italianos. Depois, durante um tour pela propriedade, os participantes aprendem sobre a história da região, o cultivo da uva e a produção de vinho, enquanto provam alguns rótulos da casa.

O ponto alto acontece a seguir, quando os visitantes são levados de trator a um parreiral e lá podem colher a fruta direto do pé e participar da pisa, aquele momento que deixa manchas nas roupas e memórias incríveis, ao som de canções tradicionais italianas. Para repor as energias, um farto almoço no restaurante Maria Valduga, de gastronomia típica da região.

Miolo: direto da fonte

Raphael Scarton, da vinícola Miolo, tira uma prova de vinho de um dos recipientes em forma de ovos de concreto da Cave Giuseppe

Eduardo Maia/O Globo

Outra marca de peso na indústria do vinho brasileiro vem investindo na renovação de sua oferta turística. Em dezembro passado, a vinícola Miolo ampliou sua loja e inaugurou um novo terraço ao ar livre, de frente para o Wine Garden, gramado onde acontecem os tradicionais piqueniques com vinhos. E no começo de 2026, estreou novos roteiros guiados, entre eles o Tour Giuseppe Miolo (diariamente, a R$ 150 por pessoa), batizado em homenagem ao patriarca da família, que chegou ao Brasil em 1897.

A vista começa no Vinhedo Modelo, coleção de parreiras com os mais de 40 tipos de uvas usados pelo Miolo Wine Group em suas vinícolas no Brasil e na Argentina. De lá, os visitantes seguem para a Cantina Histórica, com degustação. A etapa seguinte, no entanto, é a que merece mais atenção. Nela, os visitantes conhecem a Cave Giuseppe, onde oito recipientes de concreto, que parecem ovos gigantes, são usados na elaboração de vinhos da linha premium Miolo Giuseppe. É lá que acontece a degustação desconstruída, em que o visitante prova três amostras: uma tirada dos ovos de concreto, outra de uma barrica de carvalho, e uma terceira da garrafa, o produto final.

— É ótimo, porque aqui é possível entender, no olfato, no paladar e na visão, as diferenças da bebida em cada uma dessas etapas — explica o guia Raphael Scarton.

Outro roteiro, o Tour Torre Miolo, inclui degustação de espumante no mirante da vinícola, a 45 metros de altura, com vista para o famoso Lote 43, o primeiro pedaço de terra da família Miolo no país.

A purista Lidio Carraro

Ao lado da vizinha Miolo, a pequena vinícola Lidio Carraro pode até passar despercebida, o que seria um desperdício para quem explora o Vale dos Vinhedos atrás de alguns dos rótulos mais sofisticados da região, como é o caso da linha Amphorae, que passa por ânforas feitas com argila retirada da própria região.

A propriedade familiar vem se destacando há anos, especialmente por sua filosofia “purista”, que consiste num processo com o mínimo de intervenção possível. Os vinhos são feitos apenas com uvas colhidas manualmente em vinhedos próprios, e envelhecidos direto na garrafa, sem barricas de madeira, por exemplo. Para entender melhor do que se trata, vale a pena participar de um dos dois modelos de degustação, feitos num espaço moderno cercado por árvores. Os valores são de R$ 100 e R$ 180 por pessoa.

Toque feminino na Amitiê

Fundada em Garibaldi em 2018 por duas amigas, a sommelière Andreia Gentilini Milan e a enóloga Juciane Casagrande, a Amitiê é um exemplo do poder de renovação do Vale dos Vinhedos. Com menos de dez anos, a empresa já acumula prêmios importantes no Brasil e no mundo, especialmente com seus espumantes.

A criatividade da dupla se traduz na linha Colheitas, com vinhos elaborados a partir de colheitas em diferentes épocas do ano, em cinco terroirs brasileiros. Ou no vinho branco Below, com teor alcoólico mais baixo e menos calorias.

Um destaque da vinícola é o bistrô, que serve menus harmonizados aos fins de semana. Durante a vindima, todos os pratos foram elaborados com uva da região.

Eduardo Maia viajou a convite da Wine Locals e da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul