Vilão em 'Os outros 3', Bruno Garcia reflete sobre 'distopia' da série e seus vídeos nas redes contra misoginia: 'Está faltando homem na discussão'

 

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Por meses, o ator Bruno Garcia deixou a barba gigante e o cabelo bem maior do que de costume, sem usar xampu para tirar o amarelado dos fios brancos. Fumante, atrasou também a rotineira limpeza no dentista para dar o ar de “cara bruto” de Manoel, um dos novos personagens da terceira temporada de “Os outros”, que estreia quinta-feira no Globoplay.

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Quando foi divulgada a primeira imagem dele em cena, um site de notícias sobre televisão publicou: “Galã vai aparecer irreconhecível...”. Aos 55 anos, o ator ri do título.

—Manchete é uma coisa impressionante. Acho divertido, uma presunção que até gostaria que fosse mais verdade. Quer ver uma coisa curiosa? Nunca fiz novela das 21h — diz ele, habitué da faixa das 19h e de minisséries, mas inédito no horário em que se costuma alocar atores com esse rótulo. — Acho que tenho características físicas que remetem a um tempo mais antigo de estética. Digo isso pelo sucesso que faço com as senhorinhas desde novo (risos).

Bruno Garcia: vilão em 'Os outros 3'

Divulgação

Mas, com Manoel em “Os outros”, o cerne da questão não é a estética— é a ética. Nos quatro primeiros episódios, que entram no ar na quinta-feira, o personagem aparece calado, de butuca em seus clientes do mercadinho do vilarejo que substitui a caótica cidade das outras temporadas, que fizeram Cibele (Adriana Esteves) e Marcinho (Antonio Haddad) fugirem em busca de um recomeço. Poderia até passar despercebido, mas, à medida que os episódios avançam (entram mais quatro no dia 16 e o quarteto restante em 23 de abril), Manoel sai de trás do balcão da birosca. E mostra para Cibele, juntamente com os novos vizinhos (interpretados por Lázaro Ramos, Mariana Lima e Docy Moreira), que todos os caminhos podem levar ao conflito quando ninguém quer parar para dialogar.

— A série traz muito claramente a distopia da convivência atual — diz Bruno. —É um mundo selvagem que te induz a ver o outro como alguém a ser superado para você chegar ao topo. O capitalismo precisa de gente fodida para funcionar. Ele não prospera se não tiver pessoas alijadas dele. E essa sacada de tirar da área urbana e levar para o campo é maravilhosa porque o problema não é o espaço, é o que está entre “os outros”.

‘Carisma e mistério’

Criador da série, Lucas Paraizo lembra que Manoel era “difícil de escalar porque precisava ter carisma e mistério”. Quando o nome de Bruno foi colocado na mesa pela produtora de elenco Marcela Bérgamo, ele e a diretora artística, Luisa Lima, adoraram.

—É um ator muito versátil — diz Lucas. — Vai da comédia do (filme de 2007) “Saneamento básico”, passa pelo drama do Décio da série “Sob pressão” (de 2017 a 2022, na Globo) e chega às maldades do Manoel.

A fala do autor é um passeio ultrarrápido pela carreira de Bruno, com mais de quatro décadas. Ele começou no Recife, onde nasceu, aos 11 anos. No início da vida adulta, veio para o Rio, onde estreou na Globo aos 21 anos, em 1991, justamente com Adriana Esteves, num episódio do programa “Caso especial”. A partir daí, enveredou por muitos programas de humor (inclusive na série “Sexo frágil”, em 2003, com Lázaro Ramos, outro reencontro agora), tanto no cinema, como em novelas com pegadas cômicas. Do formato diário, ele morre de saudade.

— Acabei emendando muito cinema e as temporadas de “Sob pressão”. A última foi “Boogie Oogie” (das 19h, em 2014). Acho uma cachaça divertidíssima. Você está num processo audiovisual em que é espectador como o público. Não sabe o que vai acontecer.

Como típico macho tóxico

Enquanto a dose não é servida novamente, Bruno segue bebericando filmes e séries. Estreou, no início de março, na cômica “Juntas e separadas” (Globoplay), da escritora Thalita Rebouças, focada em quatro amigas com mais de 40 anos. Nos episódios, ele interpreta Caio, ex-marido da professora Claudinha (Debora Lamm), um típico macho tóxico. Depois de trair a mulher mil vezes, não aceita quando ela dá um basta na relação e experimenta novas formas de amor.

— O humor é a maior ferramenta de comunicação da face da Terra porque ele desarma a pessoa — diz Bruno. — E “Juntas e separadas” serve para os homens fazerem uma bela reflexão, e de maneira afetuosa. Eles não vão se sentir cutucados. Não que isso não deva acontecer, mas é uma forma um pouco mais amigável de dizer: “senta e escuta um pouco.”

Bruno Garcia em cena de 'Os outros 3' com Lázaro Ramos. Docy Moreira. Adriana Esteves, Pedro Wagner, Antonio Haddad e Carol Duarte

Divulgação Globoplay

Nas redes sociais, Bruno faz questão de cutucar, sim, seus colegas homens. Onde eles estão na discussão sobre os alarmantes números de feminicídios e, indo além, estruturas machistas que não passam pela agressão física? O que podem fazer além do discurso contrário à violência?

— Por causa do nosso pouco letramento, às vezes, parece que ficar neutro ou passivo estaria ajudando a causa, mas estamos vendo que não está — diz Bruno. —Está faltando homem nessa discussão. As mulheres já fazem isso há milênios. Está na hora de entrarmos com a nossa responsabilidade.

Recentemente, o artista, pai de uma mulher de 26 anos e que cresceu rodeado por três irmãs mais novas, estrelou, junto com outros colegas, um vídeo pedindo a pressão de deputados sobre a criminalização da misoginia e foi um dos que participaram, em Brasília, do lançamento do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, proposto pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário em fevereiro. Vem batendo na tecla de uma educação mais empática e amorosa para os meninos, que passa por uma abordagem da temática sexual e “sem direcionamento de gênero”.

—O primeiro brinquedo que dei para a minha filha foi um carrinho de ferro, uma homenagem para aquele bebê que ia ganhar (bonecas) Polly Pocket — diz Bruno, no elenco de dois filmes que vem por aí: “Quando casa Maria Helena”, comédia produzida pelos Estúdios Globo, e “Justino”, de José Eduardo Belmonte, sobre a história real de um membro da Igreja Universal do Reino de Deus expulso depois de um diagnóstico de Aids. — Faço um pastor, bem pouco galã também (risos). Um galã totalmente irreconhecível.