Vila Isabel vai levar para a Avenida ritmistas com fantasias pintadas à mão

 

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As tintas e prazeres que a Unidos de Vila Isabel canta neste ano estarão representadas na fantasia que será usada pelos ritmistas da escola no desfile na terça-feira de carnaval. A inspiração vem de um dos talentos do multiartista Heitor dos Prazeres, enredo da agremiação em 2026. Por isso, as roupas dos 300 integrantes da bateria estão sendo pintadas a mão desde novembro, em um ateliê contratado pela escola, em Bangu, na Zona Oeste do Rio.

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Estreantes na escola, os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora — atuais vice-campeões do Grupo Especial pela Grande Rio, agremiação pela qual foram os vencedores do campeonato de 2022 — explicam que a ideia foi por “algo diferente”, mas também pensando no conforto dos ritmistas, com uma “fantasia mais leve” e menor.

— Poderíamos ter feito uma estampa, o que facilitaria o trabalho, mas a gente pensa sempre no resultado final e no significado disso tudo. Uma fantasia toda pintada a mão, do sapato ao chapéu, feita de algodão cru, lembra dos sambistas-pintores — observa Haddad, que também pontua que João da Baiana foi outro desses expoentes da arte e do ritmo no passado.

Carnavalescos Gabriel Haddad (de bermuda) e Leonardo Bora, responsáveis pelo desfile sobre Heitor dos Prazeres na Vila Isabel

Marcelo Theobald / Agência O Globo / 18-12-2025

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Segundo o carnavalesco, o mestre de bateria Macaco Branco “comprou a ideia”, apesar de classificar a dupla “Boraddad” de “doidos”, em tom de brincadeira. O músico fez um estudo sobre as diferentes vibrações da bateria. Isso faz com que haja sete diferentes cores de boinas entre os ritmistas, justamente por conta desse estudo.

O violeta representará a nota sol. Haverá ainda uso de boinas em azul royal (lá), azul turquesa (si), verde (dó), amarelo (ré), laranja (mi) e vermelho (fá). Ao todo, a bateria da Vila consumiu 120 latas de tinta — equivalente a mais de 400 litros — além de 300 tubos de pigmento. Isso equivale a um quinto do usado por toda a escola neste ano.


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Como é o ateliê

A 300 metros da Avenida Brasil, com um motel como ponto de referência, o ateliê fica protegido por um imponente portão com marcas de ferrugem, que esconde o trabalho artístico que acontece ali. Ao todo, seis pessoas de dividem na pintura da fantasia, que chega com o tecido cru, em tom semelhante ao de ecobags usadas por aí.

Sobre mesa de madeira, Leandro Batista passa pincel de tinta sobre a fantasia da bateria da Vila Isabel

Ana Branco / Agência O Globo

Primeiro, elas recebem um banho de tinta para deixá-las mais escuras. Depois, as peças são apoiadas sobre mesas de madeira e vão ganhando detalhes a partir de pincéis, nas cores branca, rosa e lilás. Após este momento, elas são penduradas em varais, até secarem para a próxima etapa.

— É prazeroso fazer essa arte. Como somos pintores, ficamos felizes em fazer pinturas — diz Leandro Batista, de 43 anos, 15 deles dedicado à pintura. — Quando passa na televisão, a gente conta para todo mundo: “Eu que fiz”.

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As mãos e roupas marcadas por respingos de tinta marcam um serviço que dura até o fim dos desfiles, já que a equipe também vai para a concentração das escolas de samba, nos três dias de desfile, fazer retoques em carros alegóricos. A equipe de 19 pessoas, ao todo, dividida entre o ateliê em Bangu e a Cidade do Samba pinta fantasias e carros alegóricos de cinco agremiações neste carnaval.

Após deixar o varal, que tem ao fundo um cenário de TV que iria para o lixo e imita azulejos, as peças da Vila Isabel ainda passam por uma nova demão, desta vez para marcar, com tinta preta, detalhes de bolsos e botões, por exemplo, assim como, em uma das golas, colocar várias cores, para relembrar uma paleta (onde pintores colocam as tintas).

Adesivo de azulejo no fundo era cenário de TV, que iria para o lixo

Ana Branco / Agência O Globo

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Durante visita do GLOBO ao ateliê, o também pintor Ulisses Targino, de 47 anos, topou vestir todas as peças da fantasia. Além de uma camisa de botão colorida por baixo, ele — que também curte confeccionar fantasias de grupos de bate-bolas, para si e para clientes que atende em sua casa, em Santa Cruz — vestiu a calça, o paletó e a boina e contou sua sensação.

— É a primeira vez que visto uma fantasia de escola de samba. Para mim, o calor não incomoda tanto, porque saio com roupas mais quentes que essa — brinca Ulisses, alvo dos celulares dos amigos ao vestir a obra de arte feita pelo grupo.

Pintor Ulisses Targino experimenta fantasia da bateria que ele e os colegas estão pintando desde novembro, em ateliê em Bangu

Ana Branco / Agência O Globo

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A experiência em carnavais faz o pintor ainda notar as diferenças para outros desfiles. Na Vila, este ano, sua sensação é de que “quase tudo foi no pincel”, substituindo até jatos de tinta (com compressor) recorrentemente usada por ser mais rápida.

— Levo esse lance da cultura como uma viagem. Vejo a peça na minha frente e viajo naquilo. Quando vou para casa, no trem, já fico imaginando as cores que tenho que misturar e o que aplicar primeiro — completa Ulisses, que chega a sonhar com o assunto.

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A pintura será vista de diferentes formas no desfile. Da marcenaria de carros e tripés, com marcas dos pincéis aparentes ou com contornos, a cabaças também coloridas a mão, para lembrar de peças que Heitor dos Prazeres fez para decorar a embaixada brasileira em Dacar, capital do Senegal. Haverá ainda uma tela sendo pintada em tempo real, ao longo do desfile, pelo artista plástico João Gabriel da Mota, o Mulambö, anunciado pela escola no último dia 30.

— São itens que vão se espalhando pelo desfile e recebendo esse tratamento, como se fosse tudo pintado a óleo, como se fosse tudo pintado por Heitor dos Prazeres — conclui Gabriel Haddad.

Mulambö, ao centro, é o responsável pela pintura ao longo do desfile. Na foto, o artista em encontro com os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora

Divulgação / Vila Isabel

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