Vilã de 'Quem ama cuida', Isabel Teixeira celebra 'noveleiros': 'Público tem que emitir opinião, falar se gosta, não gosta'

 

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A atriz Isabel Teixeira é “a louca da papelaria”. Palavras dela mesma, que mostra, pela câmera do Zoom, o caderno que encapou pessoalmente e preenche com anotações sobre Pilar. Ela é a grande vilã da novela da TV Globo “Quem ama cuida”, que estreia na segunda-feira (18) na faixa das 21h, de autoria de Walcyr Carrasco e Claudia Souto e direção artística de Amora Mautner.

— Escrevi assim (no caderno): “Meu nome é Pilar, meu amor, e eu que sustento as estruturas”. Ela acha que tudo é em função dela e só escuta as partes que interessam — diz a atriz. —Pilar acredita ter controle total de tudo, mas ninguém controla nada nessa vida.

Irmã do ricaço Arthur Brandão (Antonio Fagundes, de volta às novelas, mas por pouco tempo, visto que o personagem do ator é assassinado logo no início e desencadeia “o quem matou” da vez), Pilar vive na aba dele e antagoniza com Adriana (Leticia Colin). A moça é fisioterapeuta de Brandão e é pedida em casamento por ele, empenhado em não deixar sua herança a parasitas como a irmã, que vai para cima da inimiga. Os embates prometem ser históricos, garante Amora.

—Falei para Isabel e Letícia: “o grande casal romântico da novela são vocês duas” — diz a diretora.

Isabel Teixeira como Pilar

Divulgação


Amor pelos noveleiros

Atriz profissional desde os 14 anos, Isabel, hoje com 52, dedicou décadas ao teatro (“dirijo, escrevo, consigo desenhar uma luz, sou produtora das minhas próprias peças por necessidade e interesse”) e só estreou nas novelas em 2019, com “Amor de mãe”. O reconhecimento do grande público, porém, veio com o papel de Maria Bruaca no remake de “Pantanal”, personagem maltratada pelo marido, Tenório (Murilo Benício), que rompe com a submissão à medida que a trama avança. Ainda que Bruaca tenha sido uma mania nacional, a atriz consegue passar incólume na fila do pão.

— Hoje, por exemplo, fui ao supermercado aqui do bairro e não vi essa história de fama — diz. —Esses 40 anos se passaram muito rápido. Não deu tempo (de fazer novelas antes) porque fui de uma peça para outra, sempre fiz o que apareceu. E nunca fui uma atriz de mercado, do tipo “agora está todo mundo fazendo o teste tal”. Nunca fiz foto de book — diz, referindo-se aos retratos profissionais usados por atores para apresentar seu trabalho a produtores de elenco e agências.

Hoje, Isabel diz amar fazer parte da “escrita expandida” de uma novela, em que toda a equipe, além dos autores, criam os personagens. Adora também o fato de emendar sua terceira vilã seguida na TV pós-Pantanal— a primeira foi Helena, em “Elas por elas” (2023) e a segunda, Violeta de “Volta por cima” (2024). A quem critica a repetição, ela tem um recado terno.

Ainda que o trabalho na TV seja uma maratona para corredor nenhum botar defeito, Isabel Teixeira não consegue ficar sem o teatro. A editora artesanal Fora de Esquadros, que ela toca em casa e da onde saíram três livros de sua autoria, volta às atividades depois que “Quem ama cuida” acabar, afinal, Isabel é múltipla, mas uma só.

A paulistana está na direção de “Elã”, em cartaz no Complexo Cultural Funarte, em São Paulo, até o dia 24 deste mês. A peça da Companhia Mungunzá percorreu um caminho tortuoso para ser encenada, uma vez que o Teatro de Contêiner, casa do grupo, foi demolido pela prefeitura de São Paulo. Espaço cultural deste 2016, na região da Cracolândia, o terreno era “ocupado ilegalmente”, segundo a administração de Ricardo Nunes (MDB), que entrou com uma ação na Justiça para o despejo. As instalações foram lacradas pelas autoridades em janeiro e demolidas em março sem uma realocação da Companhia até o momento, que conseguiu levar suas atividades para a Funarte e cobra da administração Nunes um novo espaço.

—Nunca vi tanta violência como a do dia em que a polícia entrou no teatro — relembra Isabel. —Fiquei desesperada. Uma hora estávamos ensaiando e depois os atores estavam apanhando, tinha gás lacrimogênio. Demoliram o teatro, mas não demoliram o propósito.

Filha do cantor Renato Teixeira (das canções “Tocando em frente” e “Romaria”) e da atriz Alexandra Corrêa, Isabel conhece esse propósito desde os 10 anos, quando atuou em sua primeira peça antes mesmo de se profissionalizar. E aos 50 ainda experimenta novidades, com o lançamento de “Diário do fogo”, filme que mistura realismo fantástico com terror. Dirigida por Maju de Paiva e Bernardo Florim, ela interpreta Graça, que mora com a filha num prédio abandonado que pega fogo e as obriga a vagar entre vivos e mortos. Ainda em pós-produção, a obra foi selecionada pelo Festival do Rio para representar o Brasil no Marché du Film, braço do festival de Cannes.

— Não foi uma participação de uma diária de gravação. Fiz toda a imersão que o cinema demanda e quero fazer de novo. Mas se não me convidarem, não vou sofrer. Se não fizer mais novela, também não vou sofrer, nem se o teatro fechar as portas para mim. Existe uma coisa, que eu chamo de quarto primordial, que é o viver o dia, sabe? Se me dão uma fresta de janela, vou respirar por ela. Sou uma pessoa livre, e ninguém vai tirar isso de mim.

— Adoro ouvir comentários dos noveleiros. São pessoas que têm conhecimento não adquirido em Academia, mas que é acadêmico. Aí tem uma coisa assim: “poxa, mas ela faz uma vilã atrás da outra”. Gosto dessa indignação! Acho que o público tem que emitir opinião, falar se gosta, não gosta, quer que seja assim ou assado — diz, lembrando também que essas reincidências são parte da “gramática do gênero”. — Glória Menezes, na década de 1970, fez dez mocinhas uma seguida da outra. E não é sempre a mesma coisa, porque mudam-se os autores, mudam-se os horários. Não tenho medo disso.

Dupla em “Elas por elas”, Amora Mautner e Isabel tinham, desde 2022, um plano de repetir a parceria de vilania, mas no horário das 21h. Depois de efetivarem a escalação, com Walcyr Carrasco já “apaixonado” pela escolha, a diretora colocava pilha na atriz, brincando que ela era “fofa demais” para o projeto.

—Depois de chamá-la para a novela, falei: “Isabel, será que você vai conseguir mesmo? Porque você é tão boa pessoa, tão gentil”. É notório o jeito de trazer alegria para todo mundo no set, a ponto de eu provocá-la com essa brincadeira.

Mas Isabel não brinca em serviço e está num ritmo de maratonista, seguindo o conselho do colega Marcos Palmeira de tentar “terminar a novela com a mesma saúde que começou”.

— Faço ginástica seis vezes por semana, ou de manhã ou à noite, não posso faltar. Estou desde novembro treinando essa Olimpíada.

Ainda que o trabalho na TV seja uma maratona para corredor nenhum botar defeito, Isabel Teixeira não consegue ficar sem o teatro. A editora artesanal Fora de Esquadros, que ela toca em casa e da onde saíram três livros de sua autoria, volta às atividades depois que “Quem ama cuida” acabar, afinal, Isabel é múltipla, mas uma só.

A paulistana está na direção de “Elã”, em cartaz no Complexo Cultural Funarte, em São Paulo, até o dia 24 deste mês. A peça da Companhia Mungunzá percorreu um caminho tortuoso para ser encenada, uma vez que o Teatro de Contêiner, casa do grupo, foi demolido pela prefeitura de São Paulo. Espaço cultural deste 2016, na região da Cracolândia, o terreno era “ocupado ilegalmente”, segundo a administração de Ricardo Nunes (MDB), que entrou com uma ação na Justiça para o despejo. As instalações foram lacradas pelas autoridades em janeiro e demolidas em março sem uma realocação da Companhia até o momento, que conseguiu levar suas atividades para a Funarte e cobra da administração Nunes um novo espaço.

—Nunca vi tanta violência como a do dia em que a polícia entrou no teatro — relembra Isabel. —Fiquei desesperada. Uma hora estávamos ensaiando e depois os atores estavam apanhando, tinha gás lacrimogênio. Demoliram o teatro, mas não demoliram o propósito.

Filha do cantor Renato Teixeira (das canções “Tocando em frente” e “Romaria”) e da atriz Alexandra Corrêa, Isabel conhece esse propósito desde os 10 anos, quando atuou em sua primeira peça antes mesmo de se profissionalizar. E aos 50 ainda experimenta novidades, com o lançamento de “Diário do fogo”, filme que mistura realismo fantástico com terror. Dirigida por Maju de Paiva e Bernardo Florim, ela interpreta Graça, que mora com a filha num prédio abandonado que pega fogo e as obriga a vagar entre vivos e mortos. Ainda em pós-produção, a obra foi selecionada pelo Festival do Rio para representar o Brasil no Marché du Film, braço do festival de Cannes.

— Não foi uma participação de uma diária de gravação. Fiz toda a imersão que o cinema demanda e quero fazer de novo. Mas se não me convidarem, não vou sofrer. Se não fizer mais novela, também não vou sofrer, nem se o teatro fechar as portas para mim. Existe uma coisa, que eu chamo de quarto primordial, que é o viver o dia, sabe? Se me dão uma fresta de janela, vou respirar por ela. Sou uma pessoa livre, e ninguém vai tirar isso de mim