Vik Muniz abre no Rio sua maior mostra, com obras inéditas
Durante a montagem de “A olho nu” no CCBB do Rio, que abre para o público nesta quarta-feira (20), Vik Muniz voltou a ser, por alguns instantes, o menino do Jardim Panamericano, na Zona Noroeste de São Paulo, ao mostrar um carrinho Matchbox vermelho que conseguiu recentemente. O brinquedo contrastava com “Ferrari Berlinetta” (2014), uma réplica em tamanho real em fibra de vidro da miniatura com o artista brincava na infância, exibida pela primeira vez no Brasil e uma das novidades da retrospectiva que chega à cidade após ser inaugurada em junho do ano passado no Recife, no Instituto Ricardo Brennand, e passar por Salvador, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Bahia.
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Instalada na entrada do centro cultural, a escultura de quatro metros de comprimento e 650 quilos reproduz com precisão, incluindo o desgaste da tinta, detalhes da miniatura com que Vik brincava, a qual lamenta ter sido perdida na produção da obra em Turim, na Itália. A obra já anuncia ao público o que será visto nas 11 salas do primeiro andar, com trabalhos que jogam ludicamente com a percepção, a escala, a funcionalidade e o peso histórico de objetos e imagens.
— Minha relação com a imagem é estranha, muito solta. Mas sincera, ao mesmo tempo. O que mais me interessa em imagens ou em objetos é capacidade de manipular o significado que trazem. Quando se quebra a percepção sedimentada sobre as coisas, você abre a possibilidade de imaginar outras coisas. É um olhar infantil mesmo — observa Vik, que completa 65 anos em dezembro. — Tenho uma dislexia séria, que me ajudou a conectar coisas muito diversas. Se tivesse sido medicado, talvez não conseguisse ter feito nada disso.
Visão geral de uma das 11 salas da retrospectiva 'A olho nu' no CCBB do Rio
Guito Moreto
A mostra que, no ano passado, já era considerada a mais abrangente de sua carreira, chega ao Rio com um número maior de obras, 223 no total, divididas em 43 séries (seis a mais que na abertura), incluindo as consagradas “Crianças de açúcar” (1996), “Earthworks” (2002/2006), “Imagens de diamante” (2004) e “Imagens de sucata” (2006), além de trabalhos recentes ou nunca mostrados no Brasil. Curador do MAC Bahia que assina a retrospectiva, Daniel Rangel comenta que a itinerância da mostra — que, depois do Rio, segue para o CCBB Brasília, em setembro, e o CCBB Belo Horizonte, em março de 2027 — traz inspirações para novas obras e referências para a incorporação de outros trabalhos.
— É uma exposição viva, a todo momento o Vik vai criar, mandar refazer uma obra, buscar coisas que não tinham sido mostradas. Ao mesmo tempo que é impossível dar conta de tudo da produção de um artista como ele, a mostra e seu percurso precisam ser novamente pensada a cada local. É uma retrospectiva prospectiva — diverte-se Rangel. — A cada lugar, as obras pedem uma cosntrução diferente, é outra poética visual. Aqui no CCBB, por exemplo, os cofres nos ofereceram outras possibilidades narrativas.
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A seguir, Vik Muniz detalha algumas das novidades de “A olho nu”, sua maior mostra institucional no Rio desde a panorâmica montada no Museu de Arte Moderna (MAM-RJ) em 2009.
Museu de cinzas
Sob o impacto do incêndio no Museu Nacional, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, em 2018, o artista buscou a instituição para a criação de obras a fim de levantar fundos. A parceria gerou a série “Museu de cinzas” (2019/2026), com obras criadas a partir dos restos da combustão da estrutura e de itens do acervo, que será mostrada numa exposição no espaço já restaurado, com previsão de abertura ainda para 2026. A retrospectiva do CCBB recebe imagens de 2019 reproduzindo a antiga fachada e de Luzia, o fóssil humano mais antigo já encontrado no Brasil. E, na rotunda, foi instalada uma obra inédita, “Tropeognathus mesembrinus” (2026), escultura que reproduz em tamanho real o fóssil de um pterossauro, feito de polímero infundido com cinzas.
Obras da série 'Museu de cinzas': reprodução do Museu Nacional e fóssil Luzia, vítimas do incêndio de 2018
Guito Moreto
— No dia do incêndio, estava fotografando uma peça feita com flores em Zundert (Holanda), a cidade natal do Van Gogh, e só fui ver a notícia bem mais tarde. Geralmente não sou uma pessoa emocional, mas vendo aquilo eu comecei a chorar de tristeza, de raiva — recorda Vik. — Quando fui visitar, vi aquele museu, que acolhia itens encontrados em sítios arqueológicos, ser ele mesmo transformado num sítio arqueológico. O processo das equipes para salvar o que restou era semelhante ao do campo. E aí conseguimos as cinzas para as obras.
Verso
Exibida pela primeira vez no Brasil, a série “Verso” (2008/2012) reproduz exatamente a parte de trás de telas icônicas, como a “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci, “Noite estrelada”, de Van Gogh, e “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. Para copiar fielmente a estrutura posterior nunca vista pelo público, Vik teve contato com as obras originais nas instituições onde estão abrigadas, para registro fotográfico, escaneamento e tomada de medidas. Um processo burocrático e de acesso exclusivo, que envolveu ainda mais cuidados no caso da obra-prima de Da Vinci, no Louvre, em Paris.
Verso de 'Mona Lisa', feita a partir da obra original, no Louvre
Divulgação/Jaime Acioli
— Aproveitei uma data de novembro em que eles retiram anualmente para a equipe de conservação. Fica aquele museu gigante vazio, com umas 25 pessoas, no máximo, vêm as maiores autoridades em madeira da Renascença para avaliar. E aí pude segurar a “Mona Lisa”, é muito louco estar com ela nas mãos. E não usa luva de látex, que deixa resíduo. Você lava a mão, põe um talco, e enxuga para poder pegar — descreve o artista. — O resultado é exato, tem um aparelho que monitora uma rachadura na madeira, qualquer micro alteração ele alerta. Fiz um igual no mesmo lugar que fez para o Louvre. Foram seis anos pedindo até conseguirmos a autorização.
Relicário
Para a série de esculturas e objetos “Relicário” (1989/2026), Vik Muniz refez obras como “A coisa” (1989), “O grande livro” (1990) e “Mala de mármore” (2010), além de mostrar novos trabalhos como “Herói” (um conjunto de pinos de boliche de mármore escuro, em escala aumentada), “Incertezas” (com dardos cravados em papel) e “O segredo” (que reproduz um grande sino, todo confeccionado em feltro).
Vik com a bora inédita ‘O segredo’, sino em feltro cujo projeto vem dos anos 1990
Guito Moreto
— A retrospectiva me trouxe a vontade de fazer coisas que nunca saíram do papel. O projeto do “Segredo” é de 1990, 1991. Um sino de feltro, que não faz barulho. São obras que pensei na época, mas não tinha dinheiro, nem estrutura para fazer. Agora dá — comenta Vik. — E quis refazer obras antigas, como “A coisa”, uma caixa de madeira com o som de um urro saindo de dentro, você não sabe de que animal é. Sou fascinado por coisas meio gabinete de curiosidades. O primeiro museu que fui na vida era um ônibus, uma jardineira que passava lá no Jardim Panamericano e dentro tinha feto de porco, esqueleto de sucuri. Era uns dez cruzeiros para ver, gostava mais do que ir ao circo.
Os arquivos de Weimar
Ocupando um dos cofres do CCBB, a instalação de 2004 reúne fotos de arquivo e clicadas pelo próprio artista, afixadas diretamente na parede para reproduzir um clima de tensão e paranoia. A série foi desenvolvida após o FBI inquiri-lo erroneamente por fotografar a Ponte do Brooklyn poucos meses após o 11 de Setembro, em Nova York, onde Vik residia. A relação com Weimar, berço do classicismo e da Bauhaus, veio pela relação com a ascensão do nazismo, em 1933, que pôs fim ao período progressista da então capital da primeira democracia alemã.
— Em 2002, quando já existia o Patriot Act, emprestei meu carro para uma pessoa que trabalhava comigo, e ele fez imagens da ponte pelo teto solar. As câmeras da ponte pegaram e o FBI achou estranho, mas não tinha nem ideia do que poderia ser. Foi uma tensão até esclarecer tudo — relembra o artista. — Depois quis saber se o FBI tinha esse acervo de fotos banais, que, pelo contexto, podem ser vistas de outra forma, mas não permitiram a visita. Então fui visitar os museus da Stasi (sobre a história da antiga polícia secreta da Alemanha Oriental), reuni um acervo e também fotografei, a brincadeira é descobrir o que é ou não da época. Tem uma imagem, por exemplo, que parece ser um aparelho de tortura, mas é de uma máquina de lavar da Alemanha Oriental.
Álbum
Iniciada em 2014, a série traz imagens reproduzindo retratos e fotografias cotidianas a partir do recorte e da colagem de registos familiares e vernaculares de diferentes épocas, de pessoas desconhecidas, adquiridos ao longo do tempo pelo artista. A retrospectiva no Rio traz o acréscimo da obra inédita “Família” (2026), na qual Vik reproduz uma foto sua criança, acompanhado dos pais. A exposição é dedica a seu pai, Vicente José, que morreu em abril do ano passado.
O artista na infância e seus pais, retratados em obra inédita da série 'Álbum'
Guito Moreto
— Essa era a única foto em que estamos super arrumados. Minha mãe era telefonista, estávamos indo para uma festa da Companhia Telefônica. Tinha trazido meus pais para morar no Rio, ele gostava muito daqui. A imagem é uma forma de tê-lo presente na exposição — reforça Vik. — É muito bom poder voltar a fazer uma grande exposição na cidade em que você mora, onde está sua família. Sempre exponho alguma coisa, mas não com a possibilidade de mostrar tantas séries. É um outro nível de retorno, você conhece todas as pessoas, sabe de onde vêm os comentários.
