Vídeos: vencedora do Estandarte de Ouro 2026, comissão de frente da Viradouro teve Ciça ovacionado na Apoteose

 

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Eleita a melhor escola do carnaval carioca pelo Estandarte de Ouro 2026, a Unidos do Viradouro também levou o prêmio na categoria Comissão de Frente. Coreógrafos da apresentação, batizada de "Eu vi... A Vida Pulsar Como Fosse Canção", Priscilla Mota e Rodrigo Negri levaram para a Avenida uma abertura que traduziu a emoção da vida de Moacyr Silva Pinto transformada no enredo "Pra cima, Ciça", em homenagem ao mestre de bateria. O Estandarte de Ouro é uma realização dos jornais O GLOBO e Extra e chega à 54ª edição.

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O homenageado da Viradouro surgiu de surpresa na comissão de frente. Na alegoria que acompanhava o grupo, o apito do mestre de bateria se transformou em Apoteose, e Ciça foi erguido ao topo da estrutura para ser ovacionado pela Sapucaí.

Vídeos compartilhados pelo Rio Carnaval mostram detalhes da performance:

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Na apresentação, um jovem ator encarnou o papel do menino Moacyr, que se despertou para o samba e se tornou aprendiz de bambas forjados em berço musical. Um leão articulado — numa referência à Estácio de Sá — interagiu com a criança e com dançarinos fantasiados de sambistas.

"Ali, entre batuques e histórias, nasce Ciça — filho direto da revolução das comunidades, uma revolução chamada samba", explicou a Viradouro. "A malandragem estaciana o escolhe. E é nesse chão sagrado que ele é iniciado nos fundamentos do ritmo, do carnaval e da tradição das escolas de samba. Recebe a dádiva dos sambistas pioneiros, guardiões de uma marcação que não apenas conduz o desfile, mas desperta a alma do sambista. Do som nasce o Mestre. Do Mestre, a lenda".

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O prêmio dos jornais O GLOBO e Extra é considerado o “Oscar do sambista”. Criado em 1972 para homenagear aqueles que fazem a folia acontecer e lotam de cultura a Passarela do Samba, o Estandarte de Ouro premia os que se destacam nos desfiles das escolas de samba do Rio.

O Estandarte premia as escolas do Grupo Especial nas seguintes categorias: melhor escola, bateria, ala de passistas, samba-enredo, enredo, fantasias, comissão de frente, personalidade, ala, baianas, puxador, mestre-sala, porta-bandeira e destaque do público. Na Série Ouro, são concedidos os prêmios de melhor escola e melhor samba-enredo.

Já as categorias revelação e inovação, no Grupo Especial, e Fernando Pamplona (uso de material barato com bom efeito visual), na Série Ouro, são prêmios especiais, que podem ou não ser concedidos conforme avaliação do júri.

O prêmio Destaque do Público será definido por votação on-line dos leitores, a partir de uma pré-seleção feita por jornalistas do GLOBO e do Extra. Cada agremiação do Grupo Especial terá um item indicado, e a votação será aberta aos internautas.

Festa da premiação

Quem quiser assistir à entrega dos prêmios já pode comprar ingressos para o evento, marcado para 4 de março, a partir das 19h30, no Vivo Rio. No primeiro lote, que está à venda, as entradas são para mesas compartilhadas (setor 2), com cada cadeira custando R$ 170; a meia-entrada custa R$ 85.

Há ainda a pista (setor 3), com bilhetes a R$ 127, e meia a R$ 63,50. A comercialização é feita pelo site Ticket 360, através do link ticket360.com.br/evento/32582/ingressos-para-estandarte-de-ouro-2026. A atração musical da noite ainda será anunciada.

Ciça 'duplicado'

Ciça decidiu não apenas participar da apresentação, mas se "duplicar" para aparecer em dois momentos distintos da passagem da escola pela Sapucaí. Após surgir como destaque na comissão de frente, atravessou novamente a Avenida para desfilar à frente da bateria, responsável por encerrar o desfile. Para conseguir cumprir o trajeto a tempo, deixou a Apoteose em uma cadeira de rodas. Depois disso, ele foi levado às pressas até uma saída do setor 12, onde subiu em uma moto para retornar o percurso.

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Mestre Ciça sendo levado na cadeira de rodas para retornar ao desfile

Felipe Grinberg

O feito não é inédito. A cantora baiana Ivete Sangalo desfilou duas vezes no mesmo carnaval quando foi homenageada pela Acadêmicos do Grande Rio. Na ocasião, em 2017, a escola contou a história de sua vida no enredo desenvolvido pelo carnavalesco Fábio Ricardo, “Ivete do Rio ao Rio”. A artista desfilou na comissão de frente e, ao chegar à dispersão, retornou de mototáxi e correndo para participar da última alegoria do desfile, que a homenageava.

Ovacionado

Após voltar para comandar a bateria, Ciça foi acompanhado pela rainha de bateria Juliana Paes, de toda a equipe de som da escola — incluindo o intérprete Wander Pires —, dirigentes da agremiação, Marcelo e Marcelinho Calil, além da diretoria. Ao todo, foram  301 pessoas sobre a alegoria, que se abaixavam durante a paradinha da bateria, que encerrou o desfile e não entrou no recuo. Foram ouvidos até gritos de “É campeã” na arquibancada durante e ao fim da apresentação, encerrada sem correria, a um minuto do tempo limite de 1h20.

Segundo o carnavalesco Tarcísio Zanon — que também passou na Avenida duas vezes —, desde que o enredo foi anunciado, houve um clamor para que reeditasse a subida no carro. Ao todo, foram necessários 15 ensaios com todos os componentes.

Para formar a alegoria, foram usados um chassi de caminhão-cegonha — que tem eixos mais espaçados e dão mais estabilidade que carros comuns — e outro de ônibus que, juntos, formaram um palco de 25 metros (tamanho equivalente ao dos recuos de bateria).

Um engenheiro especializado em peso fez os cálculos para que o projeto desse certo. Ciça, por sua vez, fez ponderações: solicitou um piso antiderrapante que não abafasse o som. Por isso, o carnavalesco desistiu de usar carpete e aderiu ao tecido algodãozinho.

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Ciça e o cigarro

Ciça chegou à concentração embaixo de sol quente, às 14h desta segunda-feira, doze horas antes do horário do desfile. No local, acompanhou a chegada do caminhão com instrumentos de seus 282 ritmistas. Depois, jogou baralho e ainda fez um churrasquinho, algo já tradicional em seus dias de desfile.

De bermuda jeans e perna cruzada, ele atendia a selfies e tirava dúvidas dos ritmistas sentado em um meio-fio na concentração, na avenida Presidente Vargas.

— Hoje estou um pouquinho mais (nervoso), não posso esconder — assumiu, mas sem grandes superstições. — Faço uma oração (antes do desfile). A única promessa que Ciça fez é que, se a Viradouro vencer este carnaval, ele para de fumar.

— Mas se não ganhar, procuro parar — reconhece.

Nessa história que não encontra despedida, como disse o samba enredo, o mestre dos mestres não foge do assunto quando o tema é uma possível aposentadoria.

— Faço 70 anos neste ano (em julho). Vou deixar na mão de Deus decidir. Ele que vai falar “para” ou não — conclui.

Rostos conhecidos

Ao longo da apresentação, rostos que tiveram passagem na Viradouro também voltaram à escola para homenagear Ciça, que completa 70 anos em julho. Além da rainha Juliana Paes ter retornado ao trono, Erika Januza, sua antecessora, topou voltar à escola para desfilar como destaque em carro. O intérprete Zé Paulo Sierra, que passou 10 anos na agremiação de Niterói e defende atualmente o microfone da Portela, foi outro.

Já o carnavalesco Paulo Barros, atualmente sem escola, também desfilou, para lembrar o marcante desfile de 2007, em que topou a ideia de Ciça colocar os ritmistas sobre uma alegoria.

— Temos uma amizade de muitos anos, também do tempo em que trabalhamos juntos. Mas conheço o Ciça de muitos carnavais — disse o carnavalesco, que foi aos prantos durante o desfile.

Também foram lembrados os tempos de Estácio. O casal de mestre-sala e porta-bandeira Claudinho e Selminha Sorriso, que haviam acabado de desfilar pela Beija-Flor, onde estão há 30 anos, por exemplo, desfilaram do alto de alegoria que relembra o trem caipira, do desfile campeão do berço do samba— onde Ciça começou a trajetória no carnaval — de 1992, do qual Ciça era mestre.

Mestres de bateria de outras escolas e intérpretes de outras agremiações também reverenciaram o homenageado, como componentes do penúltimo carro. Apenas Casagrande, mestre de bateria da Unidos da Tijuca, que desfilou na sequência, foi baixa para o desfile pela proximidade das apresentações.

O mestre Ciça

Considerado o mestre de bateria mais longevo em atividade — na função há cerca de 40 anos —, Ciça, que já foi mecânico de automóveis, ingressou no carnaval carioca como passista, em 1971, para depois tornar-se ritmista na São Carlos, onde tocou agogô de duas bocas. Após o primeiro casamento, em 1977, fez uma pausa na folia a pedido da então esposa, que não se conformava em ter de passar as madrugadas longe do marido. Não suportou a distância de sua outra paixão e acabou voltando para o samba em 1986, já na Estácio e ainda como ritmista.

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Dois anos depois foi convidado para virar mestre de bateria. Estreou no novo posto no desfile seguinte, cujo enredo era “Um, dois, feijão com arroz”. Em 1992, a escola foi campeã, com “Pauliceia Desvairada”.

De lá para cá passou por outras escolas, como Unidos da Tijuca, Grande Rio e União da Ilha. Na Viradouro, são duas longas passagens: de 1999 a 2009, e de 2019 até hoje. Durante os últimos sete meses, Ciça se dedicou a uma rotina de ensaios semanais, com os 282 ritmistas sob seu comando.

A iniciativa de homenagem da escola, para o mestre, é o reconhecimento de anos de trabalho dedicados ao carnaval, além de valorizar o posto. A propósito: familiares e vários de seus colegas de outras escolas virão no último carro, o “Bonde do caveira” (em referência a seu outro apelido). Entre eles estavam os mestres Marcão (Tijuca), Gustavo (Salgueiro), Chuvisco (Estácio), Pablo (Porto da Pedra) e Macaco Branco (Vila Isabel).