Vídeos contradizem versão do governo Trump sobre caso de mulher morta a tiros por agente do ICE; veja imagens

 

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A morte de uma mulher de 37 anos em Minneapolis, alvejada por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) na quarta-feira, deu início a uma guerra de narrativas entre republicanos leais ao governo e opositores do Partido Democrata, à medida que imagens gravadas deste que é o 9º caso de disparo de arma de fogo envolvendo um funcionário da agência federal nos últimos quatro meses vão sendo publicadas (veja abaixo). A cena provocou reações diversas, inclusive por parte do presidente dos EUA, Donald Trump, que classificou a gravação como "horrível de assistir" em uma entrevista ao New York Times — pouco depois de ter culpado a vítima pela ação do agente de segurança. As imagens contestam a versão oficial, que culpa a mulher pelo incidente.

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A sequência básica dos acontecimentos na cidade localizada em Minnesota — marcada nos últimos anos por inquietações sociais após casos de violência, como a morte do homem negro George Floyd por um policial branco — não é contestada: a motorista de um veículo é abordada por agentes do ICE após bloquear a pista durante um protesto. Ela dá ré e depois avança. Um agente próximo do veículo dispara. A motorista, identificada posteriormente como Renee Nicole Good, morre.

Vídeo mostra momento em que agente do ICE atira em mulher em Minneapolis

A interpretação sobre os fatos — e sobre as imagens — é que ocorreu de maneira radicalmente diferente. Líderes políticos deram seus veredictos em questão de horas, apresentando narrativas aparentemente conclusivas, mesmo sem os fatos estarem devidamente esclarecidos.

Em uma publicação na rede social Truth Social, Trump descreveu o caso como um ataque violento contra um agente federal. Ele afirmou que a motorista do veículo seria "uma agitadora profissional", afirmando que ela teria gritado e resistido às ordens das autoridades, até "atropelar violentamente, intencionalmente e cruelmente" o agente do ICE. Ainda disse que o agente parecia ter atirado "em legítima defesa".

A secretária de Segurança Interna Kristi Noem foi além em suas conclusões. Em uma coletiva de imprensa no Texas, ela classificou o caso como "um ato de terrorismo doméstico", reforçando as afirmações do presidente sobre a intenção da mulher — mãe de três filhos, incluindo uma criança de seis anos — em atropelar o agente, e o enquadramento do caso como legítima defesa.

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Em Minnesota, os dois democratas mais proeminentes do Estado assistiram às mesmas imagens e chegaram à conclusão oposta. O governador Tim Walz instou o público a rejeitar o que chamou de "máquina de propaganda" do governo federal, e observou que Washington já havia declarado o caso encerrado antes mesmo de os investigadores retirarem a mulher de seu veículo. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, rechaçou a alegação de legítima defesa como "absurda", e usou um palavrão para dizer que o ICE deveria sair da cidade.

Uma análise visual realizada pelo New York Times, a partir de vídeos gravados no local do incidente, aponta que as imagens contradizem a versão da Casa Branca. A publicação afirma que um vídeo de um ângulo de trás do carro — provavelmente o visto primeiramente por Trump e seus aliados — dá a impressão de que o veículo tivesse tentado atropelar o agente. Contudo, ao cruzar com imagens filmadas do lado oposto, fica claro que o agente estava fora da rota traçada pela motorista, que mais parecia tentar se retirar do local.

As imagens analisadas pelo New York Times ainda mostram que os agentes impediram cidadãos no local, incluindo um que se identificou como médico, de prestarem primeiros-socorros à vítima. A análise sugere que os agentes também podem ter alterado a cena de um possível crime.

Foto de Renee Good é colada em poste, no local em que ela foi morta por agente do ICE

David Guttenfelder/The New York Times

Em entrevista à rede americana CNN, o ex-agente do FBI Josh Campbell afirmou que a situação pode ser mais complexa de analisar do que os comentários iniciais das autoridades. Campbell afirmou que os agentes não recebem treinamento ou autorização para disparar contra um veículo apenas para impedi-lo de progredir, mas que o agente também não é obrigado a recuar ao se deparar com alguém potencialmente violento. A direção do veículo e intenção da vítima, pelas imagens, também entram em um campo interpretativo.

— Essa situação é tão explosiva, porque envolve essencialmente dois aspectos: Existe a política, a lei, o que os agentes estão autorizados a fazer, e existe também a questão do julgamento: só porque você pode fazer algo, isso significa que você deveria? — disse o analista da CNN.

Em uma entrevista exclusiva a repórteres do New York Times, na quarta-feira, Trump falou sobre o vídeo novamente — após a postagem nas redes sociais. Ele disse não querer "ver ninguém ser baleado", mas afirmou que também não era de ser agrado ter ninguém "gritando e tentando atropelar policiais", culpando a mulher pelo crime.

Assessora de Donald Trump mostra gravação de incidente em Minneapolis a repórteres do New York Times

Doug Mills/The New York Times

O presidente insistiu em exibir imagens do local do crime aos repórteres, mas antes da exibição reconheceu a natureza trágica do caso. Enquanto um vídeo em câmera lenta do tiroteio era exibido, segundo os repórteres, o presidente foi contestado de que o ângulo não parecia mostrar que um agente do ICE havia sido atropelado.

— Bem — disse Trump. — Eu... do jeito que eu vejo...

Ao final do vídeo, o presidente americano afirmou se tratar de "uma cena terrível".

— Acho horrível de assistir. Não, eu detesto ver isso — disse.

Questionado se os disparos — o mais recente de uma série de nove disparos feitos por agentes do ICE contra pessoas de cinco estados e de Washington, resultando em ao menos um outro morto — eram um sinal de que as operações da agência tinham ido longe demais Trump esquivou-se da pergunta, culpando as políticas de imigração de seu antecessor. (Com NYT)