Vida marinha se recuperou em ritmo surpreendente após asteroide que extinguiu os dinossauros há 66 milhões de anos, aponta estudo
A catástrofe que apagou os dinossauros da face da Terra não silenciou os oceanos por tanto tempo quanto se imaginava. Um estudo internacional liderado pelo geólogo Chris Lowery, da Universidade do Texas em Austin, revela que a vida marinha começou a se reconstruir com velocidade inesperada após o impacto do asteroide ocorrido há 66 milhões de anos.
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Publicado em janeiro na revista Geology e divulgado pelo EurekAlert, o trabalho analisou microfósseis marinhos para reavaliar o ritmo de recuperação dos ecossistemas após uma das maiores extinções em massa da história do planeta. Para isso, os cientistas recorreram a uma técnica inovadora de datação baseada no isótopo hélio-3, o que permitiu estimar com maior precisão quando novas espécies passaram a surgir.
Os resultados mostram que foraminíferos marinhos — organismos microscópicos amplamente usados como indicadores ambientais — começaram a se diversificar entre dois mil e onze mil anos após o impacto. O intervalo é significativamente menor do que o proposto por estudos anteriores, que apontavam para escalas de dezenas de milhares ou até milhões de anos para a recuperação biológica.
Um renascimento mais rápido do que o esperado
Entre os achados centrais está o surgimento do foraminífero Parvularugoglobigerina eugubina, considerado um marco da retomada da vida nos oceanos. A espécie apareceu entre 3.500 e 11 mil anos após o impacto, dependendo da região analisada. Em alguns locais, outras espécies emergiram em menos de dois mil anos, indicando um processo de recuperação notavelmente rápido.
Ao todo, a equipe identificou entre dez e vinte novas espécies de foraminíferos em cerca de seis mil anos após a colisão do asteroide que atingiu a região da atual Península de Yucatán, evento que definiu o limite entre o Cretáceo e o Paleógeno. Os microfósseis analisados foram coletados em áreas como Gubbio e Monte Conero, na Itália, Caravaca, na Espanha, El Kef e Aïn Settara, na Tunísia, além da cratera de Chicxulub, no México.
Segundo Lowery, citado pelo EurekAlert, “é incrivelmente rápido”. Para ele, os dados ajudam a compreender não apenas a velocidade com que novas espécies podem evoluir após eventos extremos, mas também a rapidez com que o ambiente começou a se recuperar depois do impacto.
A precisão das conclusões foi possível graças ao uso do hélio-3, isótopo proveniente da poeira interplanetária que se deposita continuamente no fundo do oceano e funciona como um “relógio” natural. Embora os pesquisadores ressaltem variações locais e margens de erro associadas a fatores geológicos, os tempos estimados permanecem muito inferiores aos aceitos até então.
Para o coautor Timothy Bralower, da Universidade Estadual da Pensilvânia, também citado pelo EurekAlert, o estudo evidencia a resiliência dos ecossistemas do passado e pode servir de referência para compreender a capacidade de resposta das espécies atuais diante de crises ambientais. Mesmo após um desastre planetário, concluem os autores, a vida encontrou caminhos para retornar e se diversificar mais cedo do que se supunha.
