Vice-prefeito de SP acusa políticos de 'desmoralizarem' sua imagem, registra BO e causa mal-estar na prefeitura

 

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O vice-prefeito de São Paulo, Mello Araújo (PL), registrou boletim de ocorrência afirmando que uma pessoa tentou grampear seu telefone e o de sua esposa, e abrir uma conta em seu nome em um banco no Uruguai. Mello afirmou que essa pessoa foi contratada “por alguns políticos” que estariam tentando “desmoralizar sua imagem perante o público”.

Dentro da prefeitura, a situação foi vista como mais um fator de desgaste do vice com o prefeito Ricardo Nunes (MDB), segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, pois expõe a administração municipal sem que o problema tivesse sido tratado internamente antes.

O prefeito afirmou que só tomou conhecimento do problema quando Mello publicou no Instagram, ou seja, quando já havia registrado o boletim de ocorrência. O vice-prefeito foi aconselhado a procurar a secretaria de Segurança Pública pela gravidade da situação, mas ele já havia procurado a polícia para registrar o caso e já havia divulgado suas suspeitas nas redes sociais.

Desde o ano passado, o prefeito e o vice estão distantes, principalmente após críticas públicas que Mello alegando supostas irregularidades na área da assistência social, colocando sob suspeita a própria gestão municipal da qual ele faz parte.

Mello registrou dois boletins de ocorrência no dia 9 de março. O primeiro diz respeito a um furto: ele estava na manifestação bolsonarista na Avenida Paulista, realizada no dia 1º de março, quando disse que foi pegar o celular no bolso, mas viu que o aparelho havia sumido. No segundo boletim, ele alegou que ficou sabendo que “políticos contrataram pessoas” para grampear seu celular e abrir uma conta em seu nome no HSBC do Uruguai.

Segundo o boletim, havia a intenção de depositar na conta “valores relacionados a empresa de ônibus” para “desmoralizar” sua imagem devido a seu trabalho na prefeitura. Mello cita que a motivação seriam as investigações e “exonerações” na Prefeitura de São Paulo. “A ideia seria divulgar para a imprensa, passando a imagem de corrupto”, acrescentou ele no relato. O vice-prefeito disse ao GLOBO que já sabe quem foram os políticos que tentaram forjar a abertura de uma conta dele em outro país.

— Eu sei quem são. Com provas consigo escancarar o nome dos dois políticos pilantras — falou.

Histórico de distanciamento

A relação do prefeito com o vice já vem se deteriorando há meses. Um dos episódios que mais causou mal-estar entre os dois foi uma fala de Mello, em novembro, apontando a suposta existência de irregularidades na gestão municipal na área da assistência social e da saúde.

Na ocasião, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Mello afirmou que haveria funcionários fantasmas nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e que estavam recebendo mesmo assim.

Também não pegaram bem as críticas feitas por Mello ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a quem acusou de tomar para si todos os méritos pela desmobilização da Cracolândia. Nos bastidores, fontes da administração municipal apontam que o clima entre os dois “azedou” há tempos, e que o vice pouco participa das decisões da gestão.

O clima de desconfiança foi tamanho que impactou até mesmo nos planos políticos de Nunes, segundo fontes. Isso porque, durante o ano passado, o prefeito chegou a ser cotado como candidato a governador no caso de Tarcísio concorrer à presidência da República. O temor em deixar a prefeitura nas mãos de Mello, entretanto, foi maior e aliados aconselharam Nunes a não deixar o cargo até o fim do mandato. O prefeito, então, passou a defender publicamente que, se Tarcísio saísse, era Felício Ramuth (PSD) quem deveria concorrer ao cargo — no fim das contas, o governador decidiu concorrer à reeleição.

Coronel da Polícia Militar de São Paulo e ex-presidente da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), Mello Araújo entrou na chapa de Nunes como vice por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2024, após longas negociações entre partidos da base do emedebista, que incluía 12 partidos. O PL de Bolsonaro pleiteou a vice, e em troca o prefeito recebeu apoio do ex-presidente, ainda que tímido. Desde então, Nunes se aproximou da direita bolsonarista, e no mês passado inclusive selou apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial.

Quando Nunes ganhou a eleição, anunciou que Mello seria o titular da Secretaria Executiva de Projetos Estratégicos. Entretanto, a gestão começou e Nunes desistiu da ideia, afirmando que, como vice, o coronel já estaria comandando projetos importantes como as ações de prevenção às chuvas e as ações na Cracolândia. Na prática, porém, a atuação de Mello muitas vezes gerou atritos dentro da gestão, sob críticas de invasão de competências de determinadas secretarias.

Nos últimos meses, o vice passou a ser cotado como possível candidato ao Senado por São Paulo, e seu nome vem sendo defendido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo aliados. O tema ainda está em discussão, já que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que seria o candidato caso não tivesse deixado o país, tem como atual favorito o deputado federal Mário Frias (PL). Tarcísio, por sua vez, que esteve com Bolsonaro no mês passado, não quer nenhum dos três e defende um nome mais ao centro para a composição.