Vias bloqueadas e patrulha nas ruas: sob forte esquema de segurança, Islamabad vira 'cidade fantasma' para negociações entre EUA e Irã
O Paquistão intensificou medidas de segurança e esvaziou áreas centrais de Islamabad enquanto se prepara para sediar negociações de paz entre Irã e Estados Unidos, previstas para o fim de semana, em meio a um cessar-fogo condicional de duas semanas entre os dois países.
Guerra no Oriente Médio: Estreito de Ormuz está aberto, mas passagem tem de ter consentimento do Exército do Irã, diz vice-chanceler iraniano
Cessar-fogo: entenda o plano de 10 pontos divulgado pelo Irã e os principais impasses com os EUA após o cessar-fogo
À espera dos negociadores, Islamabad se tornou uma cidade fantasma, com um forte esquema de segurança. As autoridades decretaram feriados na quinta e sexta-feira, e nos hotéis de luxo que devem receber as delegações, os hóspedes habituais foram retirados.
Apresentado como mediador-chave, o Paquistão deve receber representantes dos dois países para facilitar as discussões. A comitiva americana será liderada pelo vice-presidente JD Vance. Segundo a Casa Branca, as reuniões ocorrerão no sábado e também contarão com a participação do enviado especial Steve Witkoff e de Jared Kushner, genro de Donald Trump.
Segundo a NBC News, o presidente americano está "muito otimista" quanto à possibilidade de concluir um acordo.
Do lado iraniano, há incertezas sobre a participação. O embaixador de Teerã no Paquistão anunciou no X que a delegação iraniana chegaria na noite de quinta-feira, mas depois apagou a mensagem.
Na sexta-feira, a agência de notícias iraniana Tasnim afirmava, citando uma fonte anônima, que "enquanto os Estados Unidos não respeitarem seu compromisso com o cessar-fogo no Líbano e o regime sionista continuar seus ataques, as negociações estão suspensas".
Mesmo que as partes acabem se sentando à mesa, as posições opostas em questões-chave tornam difícil um acordo.
Imagens mostram reforço na segurança na capital, com aumento de controle e restrições de circulação. Estradas foram fechadas na região da Zona Vermelha, área que concentra prédios governamentais e embaixadas.
As negociações ocorrem no contexto do acordo de cessar-fogo condicional firmado entre Estados Unidos e Irã, que abriu espaço para a retomada do diálogo diplomático, com o Paquistão atuando como facilitador.
Negociações e impasses
A delegação americana será liderada pelo vice-presidente JD Vance. Pelo lado iraniano, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o chanceler Abbas Araghchi participarão das negociações. Ambos os países terão como desafio fechar acordos limitados em um prazo de duas semanas, estabelecido pela trégua intermediada pelo Paquistão na terça-feira.
Ponto central das negociações: com cessar-fogo, EUA querem a abertura completa de Ormuz, mas Irã usou a guerra para consolidar controle do estreito
Em uma declaração nas redes sociais, Ghalibaf insistiu que três cláusulas do que ele chamou de “quadro acordado” de dez pontos entre EUA e Irã já haviam sido violadas, incluindo o fim de ataques israelenses a combatentes do Hezbollah no Líbano, apoiados pelo Irã. Ghalibaf também criticou a Casa Branca por reafirmar que o Irã nunca seria autorizado a ter um programa doméstico de enriquecimento de urânio, como Teerã exige há anos.
"Nessa situação, um cessar-fogo bilateral ou negociações é irrazoável", escreveu.
Saeed Khatibzadeh, vice-chanceler iraniano, afirmou à emissora ITV News, nesta quinta-feira, que “espera que possamos nos reunir em breve no Paquistão” para negociações programadas com a delegação americana. Ele reiterou as críticas aos ataques de Israel no Líbano, lembrando que o país fazia parte do acordo de cessar-fogo, e disse esperar que os EUA possam “controlar seu aliado” e “honrar suas palavras”.
Na manhã seguinte ao acordo, a Casa Branca afirmou que recebeu uma proposta iraniana que fornecia “uma base viável para negociação”, diferentemente da lista anterior de exigências de Teerã, que havia sido descartada. O documento mencionado não foi divulgado publicamente.
Logo depois, o Irã publicou um plano de dez pontos que incluía exigências que entram em choque direto com posições já defendidas por Washington, especialmente sobre o programa nuclear iraniano. Um funcionário da Casa Branca afirmou que os pontos divulgados pelo país não correspondem ao plano mencionado pelo presidente Donald Trump. O representante falou sob condição de anonimato para tratar de discussões internas.
Em negociações anteriores, representantes dos EUA pressionaram pela limitação do alcance dos mísseis iranianos e pela interrupção total do programa de enriquecimento nuclear, pontos que continuam sendo fonte de divergência.
