Viajar sozinha: por que cada vez mais mulheres escolhem não esperar companhia

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Esperar o namorado entrar de férias, conciliar as agendas das amigas ou adiar uma viagem dos sonhos por falta de companhia pode estar deixando de ser uma regra para muitas brasileiras. Uma pesquisa divulgada pelo Ministério do Turismo aponta que quatro em cada dez mulheres já viajaram sozinhas.

Entre as principais motivações estão o lazer, a busca por liberdade e o autoconhecimento. Mais do que uma escolha de roteiro, o movimento reflete mudanças na maneira como as mulheres lidam com os próprios desejos e com a experiência de estar na própria companhia.

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Além dos salões de festa: 5 lugares inusitados que podem virar cenário de casamento Durante muito tempo, viajar desacompanhada foi associado à solidão ou à falta de alguém com quem compartilhar momentos.

Para algumas mulheres, porém, a experiência representa a oportunidade de fazer escolhas sem depender da disponibilidade de outras pessoas: definir o destino, organizar os horários e conhecer lugares no próprio ritmo. A decisão também pode trazer inseguranças, sobretudo para quem está acostumada a colocar as necessidades alheias à frente das próprias.

A neurocientista e terapeuta junguiana Roberta Calderini, especializada em traumas e epigenética, observa que muitas mulheres aprendem desde cedo a assumir responsabilidades e corresponder a expectativas externas, deixando os próprios desejos em segundo plano. "Muitas mulheres passam o dia inteiro atendendo expectativas e, quando chegam em casa, já não conseguem identificar as próprias necessidades.

O desejo, o afeto e a conexão emocional precisam de espaço. Quando a rotina é dominada por cobranças, a intimidade pode acabar ficando em segundo plano", afirma.

Nesse cenário, uma viagem sem companhia pode abrir espaço para escolhas que, na rotina, acabam adiadas. Decidir onde comer, qual passeio fazer ou simplesmente passar uma tarde sem compromissos são experiências que ajudam a reconhecer preferências e limites.

Isso não significa, porém, que viajar seja capaz de resolver conflitos emocionais ou substituir o acompanhamento psicológico quando necessário. Estar sozinha não significa sentir solidão

A diferença entre solidão e solitude ajuda a compreender essa experiência. Enquanto a primeira costuma estar associada ao sofrimento provocado pela ausência de vínculos desejados, a segunda diz respeito à possibilidade de estar consigo mesma de forma voluntária e satisfatória.

É possível sentir-se solitária mesmo acompanhada e, da mesma maneira, aproveitar momentos sem outras pessoas por perto. A psicóloga Letícia de Oliveira, que atua com saúde mental, comportamento e bem-estar emocional, chama atenção para o impacto das comparações na forma como cada pessoa avalia a própria vida.

"Quando a comparação se torna frequente, pode surgir ansiedade, sensação de inadequação e dificuldade de reconhecer o próprio valor", explica. Essa dinâmica também aparece na expectativa de que experiências consideradas especiais sejam vividas a dois ou em grupo.

Nas redes sociais, registros de viagens românticas, encontros entre amigos e comemorações compartilhadas podem reforçar a ideia de que determinados momentos só têm valor quando acompanhados. Questionar essa expectativa pode ser um exercício de autonomia, desde que a escolha de viajar só não se transforme em uma nova exigência.

Para Roberta, ser independente não significa assumir a obrigação de resolver tudo sem ajuda. A especialista defende que autonomia e acolhimento podem caminhar juntos.

"Não precisamos colocar a força e a feminilidade em lados opostos. Uma mulher pode ser determinada, liderar uma empresa e tomar decisões importantes sem precisar carregar tudo sozinha.

O equilíbrio começa quando ela compreende que não precisa provar sua capacidade o tempo inteiro e que permitir-se receber apoio também é uma forma de cuidado", destaca. Apesar do interesse pelas viagens solo, a segurança continua sendo uma preocupação importante.

A mesma pesquisa aponta que muitas brasileiras já desistiram de viajar sozinhas por medo da violência. Incentivar a autonomia feminina, portanto, não significa ignorar riscos reais, mas reconhecer que planejamento, informações sobre o destino e redes de apoio podem contribuir para uma experiência mais segura.

A transformação talvez não esteja apenas em embarcar para outro país ou conhecer uma cidade desconhecida, mas em perceber que a realização de um desejo não precisa depender sempre da disponibilidade de outra pessoa. Viajar sozinha não é uma obrigação nem uma prova de independência.

Para quem tem vontade de viver essa experiência, pode ser uma oportunidade de descobrir o prazer de fazer escolhas no próprio ritmo.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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