Vestido com uma camisa estampada com a frase “Chega de Bets”, o candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) foi a Belford Roxo, na Baixada Fluminense, nesta segunda-feira para ouvir famílias que convivem com parentes viciados em jogos de apostas online.
Diante de relatos de pessoas que passaram a perder dinheiro, bens e a renda da família, o ex-governador de Minas Gerais, que se ausentou do debate entre presidenciáveis promovido pela Band na noite deste domingo, reafirmou uma das bandeiras centrais de sua campanha: a proibição das bets no país.
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— É igual cocaína, temos que proibir.
Quem está pagando a conta são as famílias.
Não podemos tolerar isso — disse Zema.
A defesa de uma intervenção estatal para extinguir um setor econômico expõe uma das principais particularidades da posição do candidato do Novo, partido que tem o livre mercado como uma de suas bandeiras.
Questionado sobre como pretende conciliar a proibição das bets com a atuação recente da legenda em favor do mercado de preditivos, Zema afirmou que há limites para a defesa da liberdade econômica.
— O Novo, o meu partido, é favorável ao livre mercado, sim, mas não ao livre mercado que destrói a vida das pessoas, venda de cocaína, venda de outras coisas do gênero — afirmou o candidato.
A fala foi dada após uma rodada de escuta com famílias e integrantes da igreja Assembleia de Deus que atuam no auxílio a parentes de pessoas com dependência em jogos.
Durante o encontro, uma mãe relatou que seus dois filhos, de 18 e 24 anos, passam a madrugada apostando e chegam a catar materiais recicláveis nas ruas para conseguir dinheiro para jogar.
Segundo ela, os dois não trabalham e pedem dinheiro à família, enquanto já acumulam perdas provocadas pelo vício.
Ao abrir a agenda, Zema disse que as igrejas têm feito um trabalho para enfrentar “essa desgraça que está tomando conta da família brasileira” e afirmou que, caso seja eleito, a proibição das apostas será seu primeiro ato.
— Filhos, pais, mães, que tiram o dinheiro do alimento para poder jogar.
Como presidente, meu primeiro ato vai ser eliminar essa praga que só tem crescido no Brasil — afirmou.
Contraste
A posição de Zema está entre as mais radicais adotadas pelos candidatos à Presidência diante do avanço das bets.
Em entrevista anterior, o ex-governador já havia afirmado que o veto ao funcionamento das plataformas seria seu “primeiro ato” caso chegasse ao Planalto.
A defesa da proibição também é compartilhada por seu candidato a vice, o senador Eduardo Girão (Novo).
Na Câmara, quando foi votada a regulamentação das bets, quase toda a bancada do Novo se posicionou contra o projeto, sob argumentos ligados tanto aos malefícios da atividade quanto à defesa da liberdade de mercado.
A campanha de Zema e Girão, porém, contrasta com uma atuação recente do partido em outra frente.
O Novo apresentou neste ano um projeto de lei para suspender os efeitos de uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) contrária ao mercado de preditivos, bloqueado em abril pelo governo federal.
O segmento reúne plataformas que negociam contratos sobre a probabilidade de eventos futuros, como resultados de esportes ou dados econômicos, embora seus defensores sustentem que o modelo é diferente das bets e, por isso, não estaria submetido à mesma regulação no Brasil.
‘Uma coisa não se confunde com a outra’
Questionado sobre essa aparente divergência entre sua proposta e a iniciativa do próprio partido, Zema rejeitou a comparação.
Segundo ele, o mercado de preditivos teria uma função econômica diferente das apostas direcionadas ao público em geral.
— Uma coisa não se confunde com a outra.
O mercado preditivo ocorre nas economias avançadas.
Uma empresa que compra trigo, às vezes ela quer ter a garantia de que aquele trigo será comprado por um preço e fecha um contrato — disse.
O candidato contrapôs esse tipo de operação ao funcionamento das plataformas de apostas online.
Na visão de Zema, adolescentes, jovens e adultos são induzidos a permanecer jogando por meio de mecanismos que estimulam o vício.
Zema afirmou ainda que o mercado de preditivos, na forma como o descreveu, teria relação com empresas e profissionais que buscam reduzir oscilações de preços, enquanto as bets seriam uma atividade voltada ao consumo individual.
— Uma coisa é um mercado preditivo, de empresas, com profissionais, para que o preço ao longo do tempo fique mais previsível, não tenha grandes oscilações.
Então, é algo que eu considero que não tem nada a ver com o outro — afirmou.
‘Mercado clandestino sempre vai ter’
A defesa da proibição, porém, não significa, segundo o próprio candidato, que as apostas ilegais desapareceriam.
Questionado sobre o risco de uma eventual proibição levar pessoas já dependentes para plataformas clandestinas, Zema reconheceu que o mercado marginal continuaria existindo.
— Mercado clandestino sempre vai ter.
Nós não temos pessoas que hoje são viciadas que compram cocaína, que é legalmente proibida há décadas.
Mas, se você legaliza, você acaba ampliando esse mercado que só traz desgraça, que só traz uma vida pior para as pessoas — afirmou.
Para Zema, a existência de um mercado ilegal não é argumento para manter as plataformas legalizadas.
Ele disse que o Estado deve usar recursos tecnológicos para fechar e suspender sites, embora tenha admitido que novas páginas podem surgir.
— Na hora que você proíbe a bets, é lógico que vai existir um mercado marginal, mas hoje já há recursos tecnológicos para você estar correndo atrás, fechando, suspendendo sites.
Sei que podem abrir outros sites — contou o candidato.
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