Vereador preso por suposta ligação com o PCC passa mal na prisão, e defesa pede domiciliar
O vereador Senival Pereira de Moura (PT), preso desde o dia 25 sob suspeita de lavar dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital) por meio da empresa de ônibus Transunião, passou mal duas vezes na carceragem do 8º DP (Belenzinho) em menos de 72 horas.
Segundo o advogado Márcio Sayeg, os episódios se somam a um histórico neurológico anterior e embasam o pedido de revogação da prisão temporária ou concessão de domiciliar.
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No sábado (27), Senival teria sentido dor de cabeça na carceragem e foi levado à UPA Mooca III (Dom Paulo Evaristo Arns), onde passou por classificação de risco, consulta e solicitação de exame de ultrassom, conforme o histórico de atendimento.
Medicado, retornou à cadeia horas depois.
Na segunda-feira (29), o mal-estar teria se repetido.
Segundo boletim médico, o vereador relatou dor de cabeça, náusea, tontura, formigamento nos braços e dor de garganta.
Um eletrocardiograma apontou uma alteração na condução elétrica do coração, embora o exame laboratorial não tenha mostrado alterações.
O médico classificou o atendimento como pouco urgente, prescreveu tratamento sintomático e orientou retorno em caso de piora.
— Ele passou mal no sábado e de novo na segunda.
Já não está na empresa há mais de seis anos, essa prisão é uma loucura.
Quando fica nervoso, estressado, ele tem esses ataques.
Pode convulsionar a qualquer momento — afirma Sayeg.
Vereador do PT em atendimento na UPA
Reprodução
Cirurgia e internação anteriores
Com base nesse histórico e nos atendimentos recentes, a defesa pede a revogação da prisão temporária.
Como alternativa, solicita recolhimento domiciliar monitorado ou, caso nenhum dos dois pedidos seja aceito, internação ou transferência para ambiente hospitalar.
A Justiça ainda não analisou o pedido.
A defesa apresentou um relatório de 18 de dezembro de 2023, que descreve quadro de cefaleia, distúrbios de memória e crises em Senival.
O documento indica microcirurgia vascular intracraniana com neuronavegação, a ser feita no Hospital Israelita Albert Einstein.
Segundo os advogados, o procedimento foi realizado em 30 de janeiro de 2024.
Já em 10 de setembro daquele ano, Senival teria apresentado novo quadro neurológico e ficado internado na UTI do Hospital São Luiz, unidade Anália Franco, no Tatuapé, após crises convulsivas.
Entenda o caso
As investigações da Polícia Civil de São Paulo que resultaram na prisão do vereador Senival Moura apontam o parlamentar como o líder de um esquema de lavagem de dinheiro operado pela empresa Transunião Transportes a serviço do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo a investigação, Moura era responsável pela operacionalização de recursos para integrantes da facção paulista.
A análise de mensagens de WhatsApp do celular de Adauto Soares Jorge, então presidente da empresa de ônibus Transunião Transportes S.A., assassinado em março de 2020, mostra a dinâmica de repasses.
Além de presidente da Transunião, Jorge era uma dos acionistas e fundadores da empresa.
Na prática, entretanto, era subordinado de Moura, sem um cargo formal.
O controle real da empresa era exercido por uma cúpula informal liderada pelo vereador.
De acordo com a investigação, Jorge era o destinatário de ordens diretas de Leonel Moreira Martins, braço direito do vereador, dadas sempre com o aval do parlamentar, a quem chamavam de “véio” e “presidente”.
Em mensagem de texto de 6 de agosto de 2019, Martins é mais explícito.
Determina que Adauto Soares Jorge deposite R$ 53.500 e afirma na sequência: “Já falei com o vereador”.
As investigações mostram que, a pedido de Moura, Jorge operacionalizava um acerto semanal de R$ 70 mil destinado a indivíduos vinculados ao crime organizado.
Um dos beneficiários dos repasses, de acordo com a Polícia Civil, era Anderson de Cássia Pereira, conhecido pelo vulgo “Perigo", identificado por órgãos de inteligência como liderança do PCC no sistema penitenciário.
Outro elo entre o vereador e o PCC é uma carta manuscrita, o chamado “salve", encontrada pela investigação durante as buscas na residência de Jair Ramos de Freitas, o “Cachorrão", apontado como o executor do homicídio de Adauto Soares Jorge.
Em 2022, ele chegou a ser preso pelo caso, mas foi solto, e nesta quinta-feira foi detido novamente.
O manuscrito aponta um rombo de R$ 15 milhões na chamada "garagem" da Transunião Transportes, dos quais apenas R$ 2 milhões teriam chegado aos acionistas.
A carta ajudou a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo a fecharem o cerco sobre o vereador.
O "salve" apreendido sugere que Jorge admitiu ter desviado R$ 15 milhões da empresa por ordem de Moura e Martins.
A execução do então presidente da Transunião teria sido uma reafirmação de controle do PCC, motivada pela suspeita de que ele estaria desviando valores para o vereador sem dar o devido retorno à facção.
'Salve do PCC': Manuscrito apreendido pela Polícia Civil menciona desvios de dinheiro da Transunião
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A carta diz: "Em dezembro, entrou 17 milhões para garagem para ser distribuído nas remissões.
Nós constatamos que esse dinheiro não foi dividido nas remissões, eles só jogaram 2 milhões.
Eles não deram respaldo dos 15 milhões também".
Segundo a polícia, o conteúdo do documento demonstra tanto a ligação de Cachorrão com o PCC quanto a "provável motivação" do homicídio do então presidente da empresa de ônibus Transunião Transportes S.A.
A análise de planilhas obtidas pela investigação identificou que o vereador também seria o beneficiário real de, ao menos, 13 ônibus, enquanto a titularidade formal era distribuída entre laranjas ou empresas interpostas.
Familiares de Moura, como sua esposa e filhos, figuravam formalmente como proprietários ou subscritores de capital, ocultando o controle material do vereador.
A Polícia Civil diz que Moura tem conexão com operadores financeiros da cúpula do PCC.
A investigação vincula a estrutura comandada por Moura a Everton de Souza, o "Player", identificado na Operação Vérnix como o operador da família de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC.
O vereador Senival Moura deixou o PT.
O comunicado sobre o pedido de desfiliação foi divulgado pelo partido no últomo sábado.
"Informamos que o vereador Senival Moura encaminhou, neste sábado, à direção do Diretório Municipal do PT São Paulo, o pedido de afastamento de sua filiação ao Partido dos Trabalhadores, com a justificativa de se dedicar à sua defesa e de não vincular os últimos acontecimentos ao partido", informou o PT de São Paulo, em nota.
Em nota, a defesa do vereador afirmou que recebeu "com profunda indignação a decretação de sua prisão temporária" e que ele não exerce "qualquer função de gestão, direção ou ingerência na empresa há mais de seis anos".
O Diretório Municipal do PT de São Paulo afirmou que acompanhará o desenrolar das investigações e que determinou o encaminhamento do caso à Comissão de Ética do partido.
