Ver-o-Peso completa 399 anos como símbolo de cultura, trabalho e tradição em Belém

 

Fonte:


Cartão-postal e um dos principais símbolos culturais de Belém, o Complexo do Ver-o-Peso completa 399 anos nesta sexta-feira (27) reafirmando sua importância como a maior feira ao ar livre da América Latina e, sobretudo, como um espaço onde histórias de vida, trabalho e afeto se entrelaçam diariamente. Por ali, cerca de 20 mil pessoas circulam todos os dias. Entre bancas, corredores e boxes, aproximadamente 2.400 trabalhadores - entre permissionários da Prefeitura de Belém, informais e ajudantes - garantem o funcionamento de uma engrenagem que começa ainda de madrugada.


[youtube=JUA0plCIyzw]


[instagram=DWYdCZSJQHq]


Mais do que números, são trajetórias que ajudam a construir a identidade do local. Para quem vive o cotidiano da feira, o Ver-o-Peso vai muito além de um ponto de comércio: é uma extensão da própria casa, um espaço onde se cresce, se forma família e se constrói uma rede de apoio que atravessa gerações. Entre as histórias que dão vida ao Ver-o-Peso está a de Marcielo Leal Sagica, de 51 anos, conhecido por todos como Marcelo. A relação dele com a feira começou cedo, ainda na infância, quando acompanhava a mãe nas madrugadas. “Eu vim com 7 anos pra cá com a minha mãe. A gente vinha de casa trazendo as coisas, panela de mingau, as caixas, o tabuleiro… tudo era muito simples. A feira era atrás do mercado de peixe, e a gente montava tudo ali pra começar a vender”, lembrou.


A rotina era intensa e repetitiva: chegar ainda de madrugada, montar a banca, vender até o fim da manhã, desmontar tudo e recomeçar no dia seguinte. Com o passar dos anos, a feira cresceu - e com ela, as famílias que dependem do espaço. “Minha mãe partiu, mas eu fiquei. Meus irmãos têm banca, meus primos também. A feira é uma família. Todo mundo aqui é unido”, afirmou.


Hoje, Marcelo trabalha com temperos para pratos típicos como feijoada e maniçoba, além de vender café da manhã. A rotina começa por volta das 4 horas, quando o movimento ainda é tímido, mas já anuncia mais um dia de trabalho. Apesar da forte ligação com o Ver-o-Peso, ele revelou uma mudança de perspectiva comum entre os feirantes mais antigos. “Antes, a gente vinha trabalhar com a mãe. Hoje, a gente quer que os filhos estudem, se formem, sigam outros caminhos. Mas tudo que a gente tem veio daqui”, destacou.


VEJA MAIS:


[[(standard.Article) Ver-o-Peso completa 399 anos movimentando R$ 360 milhões por ano em Belém]]


[[(standard.Article) Dia Mundial do Rim: ação no Ver-o-Peso faz avaliação da função renal, testes e orientação ao público]]


Marcielo Leal é conhecido por todos como Marcelo; a relação dele com a feira começou cedo, ainda na infância (Foto: Igor Mota | O Liberal)


Um ambiente que mistura trabalho e alegria


Se o esforço é grande, o ambiente também é marcado pela leveza. Entre uma venda e outra, o que se vê são conversas, brincadeiras e risadas 0 características que, segundo os próprios trabalhadores, fazem parte da essência do Ver-o-Peso. “Tem gente que nem vem trabalhar, mas vem só pra estar aqui. Se não tiver a brincadeira, não existe o Ver-o-Peso”, disse Marcelo, que trabalha ao lado da esposa, Tânia Sagica. Ele explicou que o clima descontraído ajuda até mesmo a enfrentar dificuldades pessoais. “Tem gente que tá doente, mas quando vem pra cá se anima. Parece que o Ver-o-Peso é um remédio”, disse.


[instagram=DWYomRRpmVh]


Esse sentimento é compartilhado por Raimunda Lima, a “Dona Dica”, de 83 anos, que trabalha há 40 anos na feira. Vendedora de farinha, goma e outros produtos tradicionais, ela faz questão de estar presente todos os dias. “Aqui a gente vê muita gente, conversa, faz amizade. Eu gosto de estar aqui. Melhor do que ficar em casa”, afirmou. A rotina dela começa cedo, por volta das 5 horas, e segue até o início da tarde. Mesmo após décadas de trabalho, o entusiasmo permanece o mesmo. “Se eu pudesse começar de novo, começava por aqui e não saía mais”, disse, sorrindo.


Apelidos que contam histórias


No Ver-o-Peso, conhecido carinhosamente como "Veropa", a identidade dos trabalhadores muitas vezes vai além do nome de batismo. Os apelidos, geralmente surgidos de brincadeiras, características pessoais ou situações do cotidiano, acabam se tornando a principal forma de reconhecimento. Marcelo é um exemplo. O nome verdadeiro, Marcielo, acabou sendo “adaptado” pelos colegas. “O pessoal começou a me chamar de Marcelo porque achava mais fácil. E ficou”, contou. Segundo ele, essa dinâmica é tão comum que encontrar alguém pelo nome oficial pode ser difícil. “Se tu perguntar pelo nome, às vezes ninguém sabe. Mas pelo apelido, todo mundo conhece”, disse.


José Edmilson Leão Andrade, de 73 anos, vive essa realidade há décadas. Conhecido como “Bambolê”, ele trabalha no Ver-o-Peso há 50 anos. “Ninguém me conhece pelo meu nome. Só pelo apelido”, afirmou. A história dele com a feira também começou em família. Foi o pai quem o levou para trabalhar ainda jovem. Hoje, ele vende temperos e outros produtos e vê no local a base de tudo o que construiu. “Tudo que eu tenho veio daqui. Meus filhos se formaram com o que eu ganhei aqui. O Ver-o-Peso é tudo pra mim”, destacou.


Mesmo após meio século de trabalho, ele mantém o vínculo com o espaço não apenas pela necessidade, mas pelo prazer de estar ali. “Aqui é uma alegria. A gente conversa, brinca, se distrai. É uma grande família”, disse. 


Raimunda Lima, a “Dona Dica”, de 83 anos, trabalha há 40 anos na feira: “Aqui a gente vê muita gente, conversa, faz amizade. Eu gosto de estar aqui. Melhor do que ficar em casa” (Foto: Igor Mota | O Liberal)


Uma vida inteira dedicada à feira


Histórias como a de João de Deus da Silva, o “Meia Sola”, também ajudam a dimensionar a importância do Ver-o-Peso na vida dos trabalhadores. Aos 64 anos, ele soma mais de cinco décadas de atuação no local. “Comecei com 8 anos, trazido pelo meu pai. Ele trabalhava aqui, e eu fui seguindo”, contou. Hoje, ele vende frutas e verduras e mantém uma rotina sem horário fixo, muitas vezes começando ainda na madrugada. Para ele, o Ver-o-Peso é sinônimo de pertencimento. “Aqui é vida. Meus amigos estão todos aqui. É uma grande família”, afirmou. O apelido é da época em que engraxava sapatos. Assim como outros feirantes, ele destaca que o ambiente vai além do trabalho. “O que eu mais gosto é a amizade, a brincadeira. A gente trabalha, mas também vive aqui”, disse.


A representatividade cultural, social e arquitetônica fez o Ver-o-Peso ser reconhecido e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde 1977. A feira, fundada em 1627, foi o ponto de partida para o Ver-o-Peso virar hoje um Complexo, composto pela feira, Mercado de Carne Francisco Bolonha, Mercado de Ferro, Solar da Beira, Pedra do Peixe e Feira do Açaí.


De acordo com dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedcon), órgão municipal que administra o espaço, circulam diariamente por todo o Complexo cerca de 20 mil pessoas entre as barracas da feira, mercados anexos, lojas externas, restaurantes, lanchonetes, transportadores de cargas e embarcações, que atracam na Pedra do Peixe e Feira do Açaí.