Vencedor do Puskás, Guilherme Madruga avalia período no futebol chinês e exalta terapia: 'Fez muita diferença na minha vida'
Vencedor do Prêmio Puskás de 2023, o volante Guilherme Madruga, de 25 anos, vive sua primeira experiência fora do Brasil. Ex-Cuiabá e Botafogo-SP, o jogador está em sua segunda temporada no Shandong Taishan, da China, onde é titular absoluto e tem a companhia dos compatriotas Crysan, ex-Athletico Paranaense, e Zeca, ex-Mirassol.
Em entrevista ao GLOBO, o meio-campista avaliou seu período no futebol chinês, apontou as dificuldades na adaptação ao país e exaltou a terapia esportiva, fundamental para que ele se tornasse atleta profissional.
Como é a vida do Guilherme Madruga morando na China?
— Para mim, a vida gira em torno do futebol, não tem como fugir disso. Meu apartamento fica dentro do CT, então eu realmente passo 24 horas aqui. Moro sozinho, então minha rotina é basicamente essa e, no tempo livre, vou para a academia. Nas folgas, gosto de conhecer a China. Acho que é um país muito legal e bem diferente do nosso. Durante a semana, minha vida é voltada para o futebol. A gente treina à tarde e fica com a manhã livre.
Ter a família longe atrapalha de alguma forma?
— Atrapalha. Acho que lido muito bem sozinho, mas, quando a gente perde ou joga mal, eu sinto muito. Às vezes você quer esquecer o futebol porque, pelo menos eu, me cobro bastante. Então, nesses momentos, fico remoendo. Quando você consegue se afastar um pouco, acaba esquecendo mais rápido. Meus pais sempre me acompanharam no Botafogo-SP e no Cuiabá, mas agora ficou mais difícil. Eles também trabalham em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
Você chegou a fazer terapia em algum momento durante sua carreira?
— Sim. Conheci a psicologia esportiva em 2017, ainda na base, quando cheguei ao Desportivo Brasil. Na época, havia muitos meninos que tinham jogado no Flamengo, em grandes clubes ou passado pela Seleção Brasileira de base. E eu era apenas o menino que tinha jogado no interior de São Paulo. Ali eu já me colocava um pouco para baixo por causa disso. Depois que conheci a terapia, convivi com esse acompanhamento até minha transição do sub-20 para o profissional. Fez muita diferença na minha vida, e acho que só virei jogador profissional graças à terapia esportiva, porque consegui lidar melhor com meus sentimentos.
— De 2017 até hoje faço acompanhamento. Eu lido bem, porém há momentos em que você não consegue controlar tudo sozinho. Sou muito grato pelo que a psicologia esportiva fez na minha carreira e também na minha vida pessoal, porque uma coisa anda junto da outra.
Qual é o seu passatempo favorito nesse período na China?
— Tive que comprar um videogame aqui (risos). Gosto de jogar, de fazer modo carreira nos jogos. Hoje mesmo terminei Red Dead Redemption. Também gosto de sair para jantar e conhecer lugares novos. Os outros jogadores até brincam que estou sempre em ligação, porque vivo falando com minha família e meus amigos, tentando manter esse contato mesmo com a distância.
A língua atrapalhou de alguma forma sua adaptação?
— Atrapalha muito. Como foi minha primeira experiência fora do Brasil, achei que isso dificultou bastante e fez com que eu demorasse mais para me adaptar. Por isso, este ano estou pegando mais pesado no inglês, que todo mundo fala, mas quero depois aprender chinês também. Acabei aprendendo algumas coisas básicas do dia a dia. Uma expressão que uso bastante aqui é “ting bu dong”, que significa “não entendo” (risos).
Guilherme Madruga em ação no Shandong Taishan
Divulgação/Shandong Taishan
E em relação ao fuso horário? Também atrapalhou?
— Atrapalha também. Nas primeiras semanas, até o corpo se adaptar em questão de sono foi difícil. Mas o que mais senti foi a questão do contato com as pessoas mais próximas. Sou um cara muito família, muito próximo dos meus pais, e às vezes eu acordo aqui e eles já estão dormindo. Às vezes nem consigo falar com eles. Tem dia em que durmo mais tarde aqui para conseguir falar com eles pela manhã, mas, para mim, isso é necessário. Gosto de manter esse contato.
A culinária da China é muito diferente da do Brasil. Você já se acostumou? Tem algum prato favorito?
— É muito diferente. Eu, que fui criado no interior do Mato Grosso do Sul, não estava acostumado. Aqui há bastante variedade, então quase tudo é novidade para mim. Meu paladar é básico, então todo dia como a mesma coisa: arroz e alguma proteína, seja carne ou frango. Não tenho muita coragem de experimentar outras coisas, porque tenho quase certeza de que não vou gostar. Quando saio para jantar, como yakiniku, que é aquela carne grelhada. É o mais perto de um churrasco que consigo chegar.
Você acha o futebol chinês muito diferente do brasileiro?
— No Brasil, parece que o pessoal é mais preparado no geral. Aqui há bons jogadores, mas acredito que, no Brasil, por os atletas serem bons e fortes ao mesmo tempo, o jogo acaba sendo mais disputado e técnico. Por isso o Brasil fica um pouco à frente, mas aqui também é um futebol muito bom, que me surpreendeu.
Em algum momento dessa trajetória no futebol você pensou em desistir?
— Em vários momentos. A trajetória é difícil. A gente sai muito novo de casa e não tem consciência de onde está se metendo. Já passei por situações de comer só salsicha, de comer pão seco, e isso me fez valorizar ainda mais as condições melhores que fui conquistando. Já pensei em desistir, mas também pensava no que faria na minha cidade. Meus amigos trabalhavam como empacotadores no mercado, e eu também acabaria reclamando.
Qual foi sua sensação no palco quando ouviu seu nome no Prêmio Puskás?
— Só de estar naquele ambiente já foi surreal para mim. Foi uma mistura de sentimentos. Eu estava ansioso, não sabia em que momento iam anunciar, nem se eu realmente ganharia. Também queria ir ao banheiro e fiquei preocupado com o terno marcado (risos). Tive que me controlar.
Guilherme Madruga ganhou o Prêmio Puskás em 2023
Divulgação/Fifa
Você se preparou para o discurso? Imaginava que iria ganhar?
— Não preparei nada para o discurso. À tarde, até tentei me organizar para isso, coloquei um louvor no quarto e comecei a pensar, mas não consegui escrever nada. Quando subi ao palco, comecei a falar de uma forma até razoável, mesmo gaguejando um pouco. Eu estava confiante, mas não fui com nada pronto ou planejado. Foi algo que aconteceu naturalmente na hora.
