Vencedor do Estandarte de Ouro, samba-enredo da Vila Isabel é 'nó final' de parceria com Arlindo Cruz, diz compositor

 

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O samba-enredo da Vila Isabel foi eleito o melhor do carnaval carioca pelo júri do Estandarte de Ouro 2026. A composição de André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho embalou o enredo "Macumbembê, samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África", apresentado pela escola nesta terça-feira em homenagem ao multiartista Heitor dos Prazeres — sambista e pintor que ajudou a desenhar a alma do Rio. O Estandarte de Ouro é uma realização dos jornais O GLOBO e Extra e chega à 54ª edição.

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Ao GLOBO, André Diniz disse que sempre confiou na capacidade de a arte de alto nível "mudar o sentimento das pessoas e o astral do mundo". Ele disse que os compositores mudaram o próprio sentimento — de certa "amargura" com a agremiação e com o carnaval, nas palavras dele — para elaborar uma canção que passasse as melhores vibrações para componentes e espectadores e demonstrasse a gratidão a Heitor dos Prazeres.

— Foi uma explosão. Tenho 20 vitórias de samba-enredo na Vila Isabel. Eu nunca, na minha vida, vi as pessoas da minha escola passarem e não dizerem "ah, que samba bonito", mas sim, "obrigado". Só falavam "obrigado, obrigado". Sempre confiamos na capacidade desse samba de mudar a energia do lugar, porque a gente colocou esse compromisso, e deu certo. O desfile foi mágico. Com esse prêmio, o samba é eterno. Por onde passar, haverá pessoas rindo, dançando. Que ele continue — destacou.

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Elo com família Cruz

Diniz destaca que a canção se diferencia por ter apenas três autores, e não vários, como se tornou costume nas agremiações nos últimos anos. Segundo ele, foi um posicionamento de "chega" a essa prática, de maneira que quem assinasse a obra fosse quem realmente ajudou a construi-la. Ele conta que, de início, a composição seria fruto de sua parceria de 34 anos com Evandro Bocão — mas Arlindinho Cruz, filho do artista Arlindo Cruz, morto em agosto passado, "se catapultou" para a obra.

— Antes do AVC, o Arlindo era nosso parceiro de samba-enredo. Quando estávamos com o samba planejado, mas sem uma única linha, Arlindinho pediu para dar uma ideias. Eu disse não. Ele começou a cantar e se catapultou para assinar o samba com a gente. Esse samba é um nó final da nossa relação com a dinastia Cruz — ressalta Diniz, que havia vencido o Estandarte de Ouro pela última vez em 2013, justamente numa parceria com Arlindo. — Agora ganhamos com o filho, meses após a passagem do pai.

Ainda de acordo com Diniz, Flora Cruz, filha do artista e irmã de Arlindinho, disse a ele que a última música ouvida pelo pai na UTI, antes de morrer, foi o samba-enredo da Vila Isabel.

— Esse samba também tem isso, o sentimento pelo Arlindo, pelo Martinho [da Vila]. Tem pessoas na Vila que o tempo vai passando e vão sendo esquecidas. Esse samba traz o Paulo Brazão de volta, presidente que pegou a Vila quando estava morta e a fez renascer. Seu China também fundador da escola. É um samba de gratidão. É para as pessoas, para os orixás, para o Heitor — afirma.

Veja a letra do samba-enredo

SONHEI MACUMBEMBÊ, SONHO SAMBOREMBÁ

MACUMBA É SAMBA E O SAMBA É MACUMBA

PODE ATÉ FAZER QUIZUMBA, SÓ NÃO PODE É SEPARAR

SONHO SAMBOREMBÁ, MACUMBEMBÊ

VEM DA MÃE-TERRA, FIRMOU PONTO NA BAHIA

E NA ÁFRICA PEQUENA GERMINOU PRA FLORESCER

Ê, QUILOMBO... É A PEDRA DO SAL

ARRAIGOU EM TERREIRO E QUINTAL

NO CHÃO BATIDO ASSENTOU O FUNDAMENTO

FOI O LINO DE MADRINHA

DE PADRINHO, ESPELHAMENTO

FLUTUOU NA CAPOEIRA AO PERFUME DE CIATA

NEGRO PRÍNCIPE DE OURO...

O ANJO DE ASAS DE PRATA

UM OGÃ-ALABÊ, MACUMBEIRO

A FUMAÇA DO CACHIMBO, PRETO-VELHO SOPROU

ENCANTO DA GIRA E DA RODA DE BAMBA

POESIA NA CURIMBA, BATUQUEIRO E CANTADOR

FOI DO LUNDU E DO CATERETÊ

ALINHOU NO LINHO SANTO, CAVAQUINHO NA MÃO

APAIXONADO PIERROT, AFRO-REI

A FLECHA CERTEIRA DE OXÓSSI NA CANÇÃO

RELUZ NAS ESCOLAS, EM NOEL E CARTOLA

GANHOU O MUNDO COM O MUNDO DE PAULO BRAZÃO

DE TODOS OS TONS, A VILA NEGRA É

DE TODOS OS SONS, A NEGRA VILA É

DE CHINA E FERREIRA, MOCAMBO MACACOS E PAU DA BANDEIRA

DA NOSSA FAVELA BRANCA E AZUL DO CÉU

NO BRANCO DA TELA, O AZUL DO PINCEL

VEM SER AQUARELA, PINTAR A UNIDOS DE VILA ISABEL

ORA YÊ YÊ Ô, OXUM

KABECILÊ, XANGÔ

MEUS SONHOS E TAMBORES, TINTAS E “PRAZERES”

PRA VOCÊ, HEITOR

Como foi o desfile

Na estreia dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora na Vila, as influências do homenageado puderam ser observadas no samba-enredo e em carros, alegorias e fantasias das alas, todos essencialmente coloridos.

O enredo foi divido em partes, da infância de Heitor, o menino Lino, afilhado de Tia Ciata que cresceu na Praça Onze, passando pelo Mano Heitor do Cavaco, boêmio das rodas e gafieiras, até o homem que levou sua arte para o mundo.

A roupa dos integrantes da bateria tinha aquarelas que misturam tons de azul, bege, rosa, amarelo e laranja. Já os instrumentos de percussão estamparam personagens de quadros de Heitor dos Prazeres que retratam o samba, como o “Casal de Sambistas”. A pintura mostrou um músico com o pandeiro e uma bailarina que dança ao som do instrumento.

Desfile da Vila Isabel

Marcelo Theobald / Agência O Globo

O carro da comissão de frente se transformou diversas vezes na Avenida e, ao final da apresentação, representou uma paleta de aquarela, homenagem à face de pintor do homenageado. A coreografia foi comandada pela dupla Alex Neoral e Márcio Jahú. Mas segundo Alex, a ideia foi "dada por Heitor".

— Heitor era um homem multitalentoso. Atuava com maestria em diferentes artes e ainda tinha tempo, amor e energia para ser uma figura religiosa importante. Então, ele que trouxe para gente a ideia de um carro multifaces — disse Alex.

Fantasias pintadas à mão

A roupa do primeiro casal de porta-bandeira e mestre-sala, Dandara Ventapane e Raphael Rodrigues, evoca o axé de Oxum e Xangô, santos de cabeça de Heitor. As 300 fantasias dos ritmistas da Swingueira de Noel foram pintadas à mão pelos artistas do barracão.

-- É um desfile alegre, aguerrido. Espero que a Vila Isabel encontre essa linha de carnavais olhando para sua comunidade, para o seu chão e para a memória dos sambistas -- definiu Leonardo Bora, antes de entrar na avenida.

O cantor e compositor Martinho da Vila, presidente de honra da Vila Isabel, elogiou a escolha do enredo:

-- Heitor foi um grande artista, grande brasileiro, grande compositor e fundador de escola de samba.

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