Vencedor do Prêmio César de 2026, o mais importante do cinema francês, “O apego” investiga a complexidade dos novos arranjos familiares.
O longa de Carine Tardieu, em cartaz nos cinemas brasileiros, acompanha Sandra (Valeria Bruni Tedeschi), uma livreira quinquagenária que entra em contato com a maternidade por acidente.
Dividindo a intimidade de seu vizinho e filhos, ela descobre a beleza dos afetos inesperados e as nuances entre laços de sangue e os de adoção.
— O amor ou o afeto que dedicamos a alguém nunca é estático — diz Tardieu, em entrevista por telefone.
— Tudo depende do momento do encontro, das razões pelas quais nos encontramos, do tempo que passa.
Digamos que a sensação que tive ao escrever e filmar esta história é que, nela, o apego vem antes do amor.
Comédia dramática
Adaptado do romance “A intimidade”, de Alice Ferney, o filme transforma uma tragédia doméstica numa comédia dramática doce-amarga.
Quando a vizinha de Sandra entra em trabalho de parto, a livreira aceita guardar seu filho mais velho, Elliot (César Botti), de 5 anos, por algumas horas.
A morte da mulher no parto deixa Alexandre (Pio Marmaï) desorientado enquanto leva o garoto a se agarrar à primeira “mãe” disponível.
Segura em sua independência e liberdade, vivendo à margem das convenções patriarcais, Sandra é a antítese da mãe ideal, mas pouco a pouco se torna uma referência feminina importante para o menino e a recém-nascida.
A diretora explica a sutil diferença entre amor e apego:
— Quando falamos de amor pensamos em algo fulminante, à primeira vista.
Mas, como disse, no filme o apego chega antes do amor — diz a roteirista e cineasta.
— O que move o Eliott é um instinto de sobrevivência.
Ao se conectar a Sandra, ele evita inconscientemente a sensação de trair a memória da mãe que acabou de morrer.
O amor vem depois, de forma gradual e sem nunca se engessar nos modelos tradicionais.
Ideia de Fanny Ardant
Quando leu o romance de Alice Ferney pela primeira vez, Tardieu não pensou em adaptá-lo.
Foi só um tempo depois, por sugestão da atriz Fanny Ardant, protagonista de seu filme anterior (“Les jeunes amants”, de 2021), que ela percebeu a possibilidade de se apropriar dessa história.
O filme, por sinal, tem diferenças importantes em relação ao livro, este mais concentrado em temas como a relação violenta da sociedade com os corpos das mulheres.
Como no romance, porém, Sandra se envolve com o vizinho viúvo.
Eliott fica dividido entre a nova presença materna, o padrasto Alexandre e o pai biológico, que não tem vocação para a paternidade.
Surge ainda Emilia, pediatra da recém-nascida, que se aproxima de Alexandre apesar de sua própria dificuldade em imaginar uma vida familiar.
À medida que o filme avança, os adultos experimentam novos papéis e sentimentos, revelando-se falhos, vulneráveis e contraditórios no processo.
Gravação de Maria Creuza
Não por acaso, o filme usa a canção “Você abusou”, na voz de Maria Creuza, que canta: “É tão normal ter desamor”.
É justamente essa possibilidade de reinventar os vínculos que interessa a Tardieu.
A cineasta defende as famílias em suas mais diversas formas, com laços não necessariamente determinados pela natureza ou pela lei.
— É algo que me interessa há muito tempo, mas calhou de me tocar de forma muito particular porque, um pouco antes de realizar meu filme anterior, eu me tornei mãe — conta a cineasta.
— Tornei-me mãe de uma forma singular, pois adotei uma menininha num país estrangeiro.
A minha própria relação com a família já é bastante singular.
Para Tardieu, as sociedades já não vivem sob o modelo da família nuclear como conhecemos:
— Na verdade, essas invenções existem desde os primórdios dos tempos em muitas sociedades arcaicas.
Imagino que no Brasil haja povos (originários) que nunca viveram sob o modelo da família nuclear.
Quando nos libertamos das amarras e obrigações sociais, tudo se torna possível, pois é o encontro que constrói a história familiar.
Estou convencida de que não há regras e queria demonstrar isso com uma grande empatia por todos os personagens, mesmo quando alguns se mostram incapazes de amar.
Vencedor do César, ‘O apego’ investiga novas formas de família: ‘O afeto que dedicamos a alguém nunca é estático’, diz diretora
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