Apenas três anos haviam se passado desde a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro quando Elis Regina eternizou os versos de Aldir Blanc e Maurício Tapajós que denunciavam: “O Brazil não conhece o Brasil”. Em 2026, 51 anos depois dessa união, os resultados das eleições surpreenderam os fluminenses e reacenderam a pergunta: a capital conhece o restante do estado?
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Os municípios do interior, incluindo São Gonçalo, Niterói e toda a Região dos Lagos, têm 5,09 milhões de votantes, superando os 4,95 milhões da cidade do Rio. No primeiro turno, a vantagem numérica impactou a bancada de deputados estaduais que ocuparão cadeiras na Assembleia Legislativa do Estado do Rio em 2027: 29 eleitos tiveram votação mais expressiva nesse grande interior, enquanto 28 se saíram melhor na capital.
A Baixada Fluminense foi fundamental para escolher 13 parlamentares. Não à toa, foi nesses territórios mais distantes do centro do poder fluminense que o governador eleito Douglas Ruas (PL) concentrou seus esforços de campanha e faz o mesmo agora ao pedir votos para seu correligionário Flávio Bolsonaro (PL).
Senadores recentemente eleitos pelo Rio, Carlos Jordy e Carlos Portinho, do mesmo partido, também foram a campo nesse segundo turno, conclamando os valores cristãos e o “agro”. Ruas e aliados ainda percorreram Bom Jesus do Itabapoana e Itaperuna.
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Para fazer frente, nomes do PT e do PSOL, siglas com grande representação em manifestações em favor do candidato Lula no Centro e na Zona Sul da cidade neste mês, se espraiaram para além da capital e organizaram movimentos focados em eleitores da Região Serrana, da Região dos Lagos e do Norte Fluminense.
O deputado federal Glauber Braga e a deputada estadual Renata Souza, ambos do PSOL, estiveram em Cabo Frio e em Arraial do Cabo em passeatas e corpo a corpo. Friburgo, Macaé, Rio das Ostras e o bairro de Campo Grande, maior da cidade do Rio, receberam atos liderados por secretários e deputados estaduais da esquerda.
Redes de estudantes universitários se juntaram aos grupos com jingles e bordões pela democracia e pelas políticas públicas de educação. Ontem, petistas fizeram um CarnaLula em São Gonçalo, terra de Ruas.
Os dois movimentos buscaram chamar atenção e se aproximar de um eleitorado numeroso. Afinal, o interior do Rio tem tantos votantes quanto Goiás.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro teve mais apoio nessa região fluminense (55,32% dos votos) que no estado do Centro-Oeste (53,6%). Na disputa ao governo do estado, Ruas venceu em 79 cidades, e Paes (PSD) liderou apenas em 13: Rio, Niterói, Valença, Três Rios, Comendador Levy Gasparian, Rio das Flores, Carmo, Miracema, Porciúncula, Laje do Muriaé, Cardoso Moreira, Conceição de Macabu e Rio Claro.
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A superioridade de Paes na capital, com 53,5% dos votos, não garantiu a ele a vitória. Ruas, cuja base eleitoral é São Gonçalo, tirou essa diferença na Baixada Fluminense e no interior.
Nem mesmo sua vice, Fernanda Louback (PL), vem da cidade do Rio: ela é de Niterói. A capital não terá assento no Palácio Guanabara, portanto, e o mesmo deve acontecer na Assembleia Legislativa — os dois candidatos à presidência da Casa são do interior: Jair Bittencourt (PL) foi campeão de votos no Noroeste Fluminense, enquanto Guilherme Delaroli (PL) teve melhor desempenho em Itaboraí.
Desde as eleições presidenciais de 2022, o eleitorado conservador do interior já era proeminente: 58% optaram por Jair Bolsonaro no segundo turno, e 42%, por Lula. Naquele ano, para o governo estadual, Cláudio Castro (PL) teve 63% dos votos da região.
Para especialistas, o voto conservador no interior fluminense é influenciado por fatores ideológicos guiados por religião e costumes, mas ainda sofre grande impacto das lideranças políticas locais, que passaram a adotar um modo de fazer alianças focado em se aproximar do partido do governo com a intenção de obter mais recursos.
— Este fator considera a dinâmica propriamente política da relação entre governo do estado e município. O PL está no poder há mais de sete anos, com Wilson Witzel e Cláudio Castro.
Como vimos, há uma tendência muito grande de os prefeitos fluminenses migrarem para partidos ou para a coligação do governador a fim de acessar recursos mais facilmente e ter uma interlocução maior com o governo do estado — explica Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro, cientista político e professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Uerj.
— Agora, quem faz campanha para os governadores e presidentes nos municípios são os prefeitos, os vereadores, os deputados com bases no interior. O dono de uma propriedade rural em Sapucaia conta que empresários do interior têm difundido o discurso de que políticas de transferência de renda, entre elas o Bolsa Família, dificultam a “geração de mão de obra” para suas fazendas.
— O pessoal que trabalha na roça está isolado do sindicato patronal, mas entende que o Rio (a capital) não liga para o agro — diz o pecuarista. Veja os detalhes: Nova subida da Serra de Petrópolis terá túneis novos, menos curvas e tempo de viagem reduzido
Um estado dividido A desconfiança em relação à cidade do Rio, município priorizado na distribuição de recursos públicos, é um fator que tende a influenciar o voto, segundo o professor do Iesp.
Nesse sentido, fica reforçada a cisão entre capital e interior, uma herança da fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, em 1975. — Como é que você funde um estado que foi capital do país por 197 anos, se desenvolveu como uma capital, a outro estado com várias especificidades? — questiona Cassimiro.
O professor da Uerj avalia que o legado dessa transferência da capital afeta não só questões de identificação e representatividade, como também as econômicas. O território fluminense, diferentemente do paulista, com cidades autônomas e prósperas como Campinas, São José dos Campos e Ribeirão Preto, não consolidou municípios como grandes centros desenvolvidos, com forte industrialização e escolarização.
A dinâmica das regiões, com concentração de universidades e empregos na capital, e o interior com atividades industriais específicas, perfil econômico mais voltado para a agricultura e turismo, além de uma vida religiosa mais intensa, podem criar distâncias na hora do voto. — Cidades cosmopolitas tendem, sem que se marque como uma regra, a produzir um voto mais progressista.
Isso ocorre, por exemplo, nas eleições dos Estados Unidos. Pela própria dinâmica social desses lugares, o interior do Rio tende a ser mais conservador — analisa Cassimiro.
Religião e voto A moradora de Petrópolis Christina Cavallari, de 46 anos, trabalha em São José do Vale do Rio Preto, município da Região Serrana onde Ruas teve o maior percentual de votos do estado: 70,87%.
A cidade é também a segunda com o maior percentual de evangélicos do território fluminense: 47,1% da população — a primeira é Varre-Sai, onde Ruas chegou a 68%. — Minha cidade de domicílio e a de trabalho são declaradamente conservadoras.
Em São José, a população vota mais na direita, mesmo com muito desemprego, subemprego, trabalho informal e grande assistencialismo — disse Christina. Joana Bahia, antropóloga e pesquisadora, lembra que o voto apoiado por religiosos ganhou força nas eleições presidenciais de 1989, disputadas entre Fernando Collor e Lula.
Naquela época, a maior parte das lideranças de grandes igrejas, como a Universal e as Assembleias, apoiou formalmente o candidato do PRN, para eles um líder moderno, “temente a Deus” e defensor da família tradicional. — A entrada da religião na política não é nova.
Mas não dá para dizer que evangélico ou cristão só vota em evangélico ou cristão. Ultimamente, temos visto que a participação de mulheres conservadoras também aumenta, com pautas relacionadas a saúde, educação e família, e conquista muitos eleitores — analisa Joana Bahia, que é coordenadora do Núcleo de Estudos da Religião da Uerj.
— Uma maneira de fortalecer a percepção da população é o estado chegar com investimento público de forma perene: hospitais, educação, trabalho.
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