O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exaltou suas próprias conquistas na política doméstica e externa em discurso na manhã desta terça-feira diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, fazendo repetidamente afirmações falsas e exageradas. Contexto: Na ONU, Trump ameaça uso da força na América Latina e reitera que 'aniquilará' o Irã se não houver acordo Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Veja a checagem de fatos: Trump: “Quando somamos os Estados Unidos e a Venezuela, temos mais de 60% do petróleo do mundo”. Isso é exagerado. Trump, ao celebrar um acordo firmado com a Venezuela que permitiu aos EUA assumir o controle de uma parcela significativa do petróleo do país, superestimou a dimensão do acordo. O republicano disse que a Venezuela entregará aos EUA mais de 65 bilhões de barris de suas reservas provadas de petróleo, com base em dados geológicos e de engenharia. A Venezuela tem cerca de 303 bilhões de barris em reservas provadas, enquanto os EUA possuem aproximadamente 46 bilhões de barris, segundo a Administração de Informação de Energia (EIA, na sigla em inglês). Juntos, os dois países têm cerca de 22% dos quase 1,6 trilhão de barris das reservas mundiais. Análise: No fantasioso discurso de Trump na ONU, EUA vivem era de ouro, país derrotou Teerã e há paz de fato em Gaza Atualmente, os Estados Unidos produzem cerca de 23,6 milhões de barris por dia, e a Venezuela, aproximadamente 1 milhão. Juntos, os países respondem por cerca de 23% dos 106 milhões de barris produzidos diariamente no mundo. Trump: “Poucas semanas depois, encerramos a guerra em Gaza, salvando milhares e milhares de vidas”. Isso é exagerado. Trump ajudou a intermediar um cessar-fogo na guerra entre Israel e Hamas em outubro de 2025. Embora grande parte dos combates em larga escala tenha parado, Israel ainda realiza regularmente operações militares e ataques em Gaza, e o número de mortos continua aumentando. O Ministério da Saúde de Gaza informou que as Forças Armadas israelenses mataram mais de mil palestinos desde outubro, incluindo integrantes do Hamas e civis. Assembleia Geral: António Guterres critica uso da força e desrespeito ao direito internacional em último discurso como secretário-geral da ONU Partes do plano de paz de Trump continuam paralisadas. Em agosto, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou um plano de 15 pontos apoiado pelo governo Trump para o desarmamento do Hamas. Mais tarde naquele mês, um dos próprios funcionários de Trump no Conselho da Paz acusou o governo israelense de colocar o cessar-fogo em risco, observando que os ataques contínuos em Gaza enfraqueciam o plano. Trump: “Os Estados Unidos realizaram dezenas de ataques contra barcos de cartéis de drogas, destruindo 97% das drogas que chegam ao oceano e ao mar. Vocês viram; elas desaparecem muito rapidamente, e tivemos uma queda de 90%. Eles caíram 97%”. Isso não tem evidências. Há meses, Trump afirma que houve uma redução drástica do tráfico marítimo de drogas como resultado de ataques não autorizados contra embarcações em águas próximas à América Central e à América do Sul, iniciados em setembro do ano passado. A afirmação, porém, não tem respaldo em evidências, é considerada improvável e é contestada pelo próprio governo. A Casa Branca citou, anteriormente, um volume recorde de drogas apreendidas em julho de 2025 e uma quantidade baixa apreendida em dezembro por um dos braços da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês) como evidência para as afirmações de Trump. A maior parte das drogas apreendidas, no entanto, era maconha — a Venezuela é um centro de trânsito de cocaína — e não está claro onde ocorreram as apreensões. Além disso, a CBP não é a única agência responsável por apreender drogas. Veja também: Em evento na ONU, aliados latino-americanos de Trump planejam classificar cartéis de drogas como ‘terroristas’ Criminologistas especializados na região disseram que os ataques provavelmente interromperam algumas rotas de tráfico, mas a campanha não interrompeu completamente o comércio de drogas. Em vez disso, traficantes foram obrigados a encontrar novas rotas.
O jornal Washington Post também informou, em julho, que uma avaliação interna da Administração de Repressão às Drogas dos EUA (DEA, na sigla em inglês) concluiu que os ataques não haviam afetado a oferta ou o preço da cocaína nos Estados Unidos e haviam levado traficantes a diversificar suas operações, abandonando as lanchas rápidas e evitando águas internacionais.
Outras afirmações O presidente repetiu ainda uma série de afirmações que o New York Times já havia checado: Ele afirmou falsamente ter atraído US$ 21 trilhões (cerca de R$ 107,3 trilhões) em investimentos estrangeiros (o valor é quase o dobro do total contabilizado pela própria Casa Branca, que inclui compromissos amplos e investimentos anunciados anteriormente); Ele afirmou falsamente ter sancionado os maiores cortes de impostos da história americana (os cortes de impostos sancionados em 2025 ocupam a sexta posição); Ele afirmou que há “de longe mais americanos trabalhando hoje do que em qualquer outro momento” (a estatística não tem significado, considerando o crescimento populacional. A taxa de desemprego em agosto estava em 4,1%, um nível baixo, mas ligeiramente superior ao registrado em janeiro de 2025, quando ele assumiu o cargo); Ele afirmou de maneira enganosa que “temos mais munições do que poderíamos sequer imaginar usar e estamos produzindo em níveis que nunca alcançamos antes” (a guerra no Irã consumiu parte do estoque de munições dos EUA); Ele superestimou seu papel na resolução de oito guerras (é exagerado chamar alguns dos conflitos de “guerras”, e alguns países contestam o papel atribuído a Trump em outros).
O Globo