O vazamento de informações do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da Prefeitura de São Paulo, expôs dados que podem permitir o rastreamento de pessoas e ampliar os riscos à segurança pública. Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, o episódio expõe riscos que vão além do acesso indevido às imagens, incluindo a criação de golpes personalizados e o monitoramento de indivíduos. Segundo reportagem do UOL publicada na terça-feira (20), 181 credenciais de acesso, registros de cerca de seis mil agentes de segurança e o código-fonte da plataforma permaneceram expostos na internet por 11 meses. Com as informações, foi possível recriar o painel de monitoramento e navegar pelas mais de 58 mil câmeras integradas ao programa. A prefeitura confirmou o vazamento, mas negou a existência de uma "falha" do sistema, afastou um agente e alegou que a brecha seria um "isca" para flagrar invasões (veja mais da explicação ao final). A administração afirma não haver registros de uso indevido das câmeras por terceiros e sustenta que o caso não decorreu de um ataque cibernético convencional, mas da divulgação de informações por um servidor autorizado. Segundo a prefeitura, a vulnerabilidade era monitorada como uma espécie de “isca” para identificar possíveis invasores. Como resposta, anunciou que os operadores do painel deverão realizar um recadastramento presencial com reconhecimento facial em até três meses. — Se eu tenho acesso às imagens de câmeras, poderia criar um algoritmo que monitora uma pessoa na cidade — explica Lígia Ribeiro dos Anjos, Mestre em "Inteligência artificial para sociedades sustentáveis" pela Tallinn University e que estudou o Smart Sampa em sua tese de doutorado. A especialista explica que nem todas as câmeras integradas ao programa têm reconhecimento facial. Segundo ela, o recurso depende de configurações específicas da plataforma. Ainda assim, imagens disponíveis podem ser usadas para desenvolver ferramentas de monitoramento independentes do sistema oficial, sem necessariamente seguir os mesmos critérios de identificação. — No Smart Sampa, existe um índice mínimo de similaridade para gerar uma identificação. Mas, se eu crio outro algoritmo fora dessa proteção, consigo pesquisar o rosto de alguém enviando uma fotografia — afirma. Lígia também chama atenção para a exposição da localização dos equipamentos. O conhecimento sobre a distribuição das câmeras pode ajudar criminosos a identificar áreas monitoradas e pontos com menor cobertura. Para Wilder Martins, diretor de Segurança da Informação da empresa de cibersegurança EXA, um dos principais riscos é o uso das informações para produzir fraudes mais convincentes, adaptadas à realidade de cada vítima. A combinação de imagens, CPFs, endereços, placas de veículos e dados sobre a rotina das pessoas pode dar aos criminosos elementos para simular comunicações legítimas. — Você tem acesso a uma massa de dados da população, aos CPFs, aos dados dos agentes de segurança e às imagens. Tudo isso potencializa a criação de golpes. A partir dessas informações, você consegue personalizar a fraude — afirma. O especialista ressalta, porém, que a dimensão dos danos depende das permissões associadas às credenciais expostas e de quais informações foram efetivamente acessadas. Uma conta com permissão apenas para visualizar imagens representa um risco diferente daquela que permite consultar ou alterar bancos de dados. — Só o vazamento das credenciais, em si, não é o que vai gerar o problema, mas quais permissões existiam por trás delas. Se era uma permissão de leitura, é um tipo de risco. Se era de escrita ou de acesso a bancos de dados, é outro — explica. Martins alerta ainda para uma possível segunda onda de golpes: criminosos podem se aproveitar da repercussão do caso para enviar mensagens falsas em nome da prefeitura, prometendo informar quais dados foram expostos ou solicitando a atualização de cadastros. — Depois de um vazamento como esse, é normal fraudadores utilizarem a emoção do momento para criar novos golpes rapidamente. A pessoa recebe uma mensagem dizendo que houve um vazamento e que precisa clicar em um link para saber se foi afetada. Na preocupação, pode acabar caindo em uma fraude — diz. A inteligência artificial também pode facilitar a análise de grandes volumes de dados e a criação de imagens e vídeos falsos. Martins cita a possibilidade de produzir deepfakes com o rosto de uma pessoa para enviar mensagens fraudulentas. Ele pondera, contudo, que uma fotografia isolada não permite concluir que seja possível burlar sistemas de autenticação biométrica. Fiscalização e responsabilidade Além dos riscos técnicos, Lígia questiona a capacidade de fiscalização de uma plataforma formada por diferentes órgãos públicos, empresas privadas e fornecedores de tecnologia. Em sua pesquisa, ela trata o Smart Sampa como uma rede de atores que compartilham informações, e não apenas como um software controlado integralmente pela prefeitura. Segundo a pesquisadora, a gestão municipal consegue fiscalizar parte das atividades realizadas no sistema, mas não necessariamente tem domínio sobre todos os componentes da infraestrutura. Na avaliação dela, o episódio mostra a importância de identificar em qual etapa ocorreu a falha e quem deve responder por ela. — Quando usamos um software com muitas informações e muitos atores envolvidos, a responsabilização fica mais fraca. Fica difícil dizer quem errou e como errou — afirma. A pesquisadora também questiona a dependência de empresas privadas para operar uma estrutura que concentra imagens e dados da população. O modelo permite ampliar a quantidade de câmeras sem que a prefeitura tenha de custear todos os equipamentos, mas cria uma relação em que empresas também podem se beneficiar comercialmente da integração ao programa. — Se a segurança é um dever do Estado, quem deveria ter acesso a esse software e organizar isso é o Estado, e não empresas terceirizadas — diz Lígia. Outro ponto levantado por ela é a desigualdade na distribuição da vigilância. Como parte das imagens vem de câmeras particulares cedidas ao programa, regiões com maior capacidade de investimento podem ter mais equipamentos do que outras. — Algumas áreas podem acabar sendo mais monitoradas do que outras. É uma questão sobre quem tem acesso à segurança e quais espaços da cidade estão sendo vigiados — afirma. Martins, por sua vez, avalia que o episódio evidencia falhas de governança, como a necessidade de controlar credenciais, revisar permissões e acompanhar o uso dos acessos. Entre as medidas preventivas estão a autenticação em dois fatores, a troca periódica de senhas, o treinamento dos funcionários e a auditoria das atividades realizadas no sistema. — Não é só afastar quem vazou a credencial. É preciso suspender os acessos comprometidos, verificar se houve outros vazamentos e fechar as vulnerabilidades que ainda possam existir — afirma. Prefeitura nega falha A prefeitura confirmou o vazamento, mas negou falhas de segurança no sistema. Segundo a gestão Ricardo Nunes (MDB), as informações foram divulgadas ilegalmente por um agente com acesso autorizado à plataforma. O servidor foi afastado, e sua conduta é investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana (GCM). A administração afirma não haver registros de uso indevido das câmeras por terceiros e sustenta que o caso não decorreu de um ataque cibernético convencional, mas da divulgação de informações por um servidor autorizado. Segundo a prefeitura, a vulnerabilidade era monitorada como uma espécie de “isca” para identificar possíveis invasores. Como resposta, anunciou que os operadores do painel deverão realizar um recadastramento presencial com reconhecimento facial em até três meses. A gestão também admitiu não possuir acesso ao código-fonte da plataforma, não realizar auditorias externas independentes e desconhecer os critérios de treinamento dos algoritmos, que permanecem sob domínio da contratada. Para os especialistas, o esclarecimento das permissões envolvidas e das informações efetivamente acessadas será decisivo para dimensionar as consequências do caso. Enquanto a investigação avança, Martins recomenda que a população desconfie de mensagens inesperadas que peçam dados pessoais, atualização cadastral ou validação de biometria em razão do vazamento. A orientação é não clicar em links suspeitos e procurar os canais oficiais dos órgãos envolvidos.
Vazamento do Smart Sampa pode facilitar rastreamento de pessoas e aplicação de golpes, dizem especialistas
Fonte da notícia:
O Globo
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