Vapes: estudo detecta substâncias tóxicas que podem prejudicar pulmões ao ponto de exigir transplante
Os cigarros eletrônicos, também chamados de vapes, vendidos de forma ilegal no Brasil, apresentam substâncias tóxicas que são motivo de preocupação em outros países. É o que mostra um novo estudo realizado pelo Instituto do Petróleo e dos Recursos Naturais (IPR) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) encomendado pelo Instituto de Pesquisa Rosenfield.
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— Os jovens estão potencialmente expostos a produtos cuja composição não é totalmente conhecida e que circulam sem controle de qualidade ou fiscalização efetiva. Isso aumenta o risco de consumo de substâncias não declaradas ou em concentrações inadequadas. Além disso, a percepção de que os vapes seriam menos nocivos do que o cigarro convencional pode levar a uma subestimação dos riscos, especialmente em um contexto em que os produtos disponíveis são irregulares e pouco padronizados — explica Pâmela de Medeiros Engelmann, doutora em engenharia e tecnologias de materiais pela PUCRS.
Para a análise, foram utilizadas as diretrizes da Medicines and Healthcare Products Regulatory Agency (MHRA), que baseou a legislação do Reino Unido sobre o tema, pois o Brasil ainda não apresenta regras específicas quanto à composição desses produtos.
Como resultado, a equipe encontrou duas substâncias tóxicas, consideradas perigosas na regulamentação do Reino Unido e também dos Estados Unidos: diacetil, um aromatizante que geralmente é adicionado para realçar o sabor, e acetato de vitamina E, usado como um componente para "engrossar" o líquido.
— As amostras analisadas não são produzidas no Brasil, mas correspondem a e-liquids comercializados de forma ilegal no país. No estudo, investigamos a presença de 12 compostos orgânicos e 10 metais, com foco em substâncias potencialmente tóxicas ou de interesse regulatório — afirma Engelmann.
O diacetil é associado a danos nos pulmões, segundo a American Lung Association (Associação Americana do Pulmão), causando bronquiolite obliterante, também conhecida como doença do “pulmão de pipoca”. A condição é considerada irreversível e pode exigir transplante.
Enquanto o acetato de vitamina E está presente especialmente nos cigarros eletrônicos que contêm tetrahidrocanabinol (THC), o principal psicoativo da Cannabis sativa. Nos EUA, ele foi considerado o principal causador de injúria pulmonar relacionada ao uso de cigarro eletrônico, consequência denominada EVALI na sigla em inglês.
— Também foram encontrados aldeídos como formaldeído, acetaldeído e acroleína, que podem causar irritação das vias respiratórias e, em alguns casos, apresentam potencial carcinogênico. Mesmo a nicotina, quando presente em concentrações elevadas, como observado nas amostras, pode aumentar o risco de dependência e efeitos cardiovasculares — aponta.
Em 2009, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vetou qualquer tipo de comercialização de vapes no país. Dessa maneira, os pesquisadores investigaram a composição do líquido que está presente dentro dos vapes vendidos no mercado ilegal. Uma nova resolução, a RDC nº 855/2024, votada pela Anvisa, reforçou a proibição e o uso em locais fechados.
O terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), que analisou o período de 2024, mostrou que os jovens estão consumindo mais vape do que os adultos. A prevalência entre os adolescentes de 14 a 17 anos foi de 8,7%, enquanto o de mais velhos foi de 5,4%.
Uma pesquisa da HSR Health, em parceria com o Observatório de Oncologia, mostrou que os brasileiros associam o uso do cigarro eletrônico com a modernidade, 44,6% veem os vapes como apetrechos modernos e 20,7%, como descontraídos.
O que não é uma verdade. Já que, como indica a Associação Médica Brasileira (AMB), um único vape equivale a um maço com 20 cigarros.
