Vape não é alternativa segura e pode causar dependência em poucos dias, alerta pesquisadora da Fiocruz
Procuradores federais de Uberlândia (MG) enviaram um pedido à União e à Anvisa para regulamentar a comercialização, propaganda e distribuição de cigarros eletrônicos no Brasil — hoje proibidos. Para especialistas, a ação judicial surpreende porque vai na contramão de evidências científicas acumuladas nos últimos anos, que riscam os vapes da condição de "alternativa segura".
Em entrevista ao programa Saúde em Foco, do dr. Luis Fernando Correia, no Estúdio CBN, a epidemiologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcoma, contestou a tese de que o país carece de regras sobre o tema. Segundo ela, a proibição já é regulamentada há quase 20 anos e foi reafirmada pela Anvisa em 2024, após consulta pública e pareceres técnicos.
“Não é verdade que nós carecemos de regulamentação. O Brasil tem uma regulamentação desde 2009 que proíbe fabricar, comercializar, vender e fazer propaganda desses dispositivos. Isso foi ratificado em 2024 pela Anvisa. O que está acontecendo é a entrada ilegal desses produtos, contrabandeados, voltados principalmente para crianças e adolescentes, que já estão adoecendo”, afirmou.
A pesquisadora rebate diretamente um dos principais argumentos da bancada ligada à indústria da nicotina: o de que o vape seria instrumento de redução de danos para fumantes adultos. Segundo ela, além de não ajudar na cessação do tabagismo, o dispositivo pode ampliar o consumo de nicotina.
Estudos citados pela especialista indicam que a concentração da substância pode ser dezenas de vezes maior do que a do cigarro convencional, acelerando o vício e antecipando lesões respiratórias. Ela também aponta a presença de compostos cancerígenos e metais pesados nos aerossóis inalados.
“Redução de danos é um tiro no pé. Ninguém que entra no eletrônico para de fumar. A concentração de nicotina é tão alta que leva à dependência muito rápida — em cerca de cinco dias. Esses dispositivos contêm substâncias tóxicas, causam doença pulmonar grave, aumentam risco de câncer e podem produzir lesões irreversíveis em jovens”, disse.
Dalcoma também contesta o argumento de que a regulamentação traria arrecadação suficiente para compensar gastos em saúde. Para ela, a conta não fecha — como já não fecha com o cigarro tradicional — e tende a piorar, porque os danos associados ao vape aparecem mais cedo.
A pesquisadora ainda lembra que o Brasil foi referência mundial em controle do tabagismo, reduzindo a taxa de fumantes de cerca de 40% para menos de 10% em três décadas, e vê risco de retrocesso com a popularização dos dispositivos eletrônicos, especialmente entre adolescentes. Segundo levantamentos recentes, a prevalência voltou a subir pela primeira vez em mais de 20 anos.
