'Vão esperar algo pior para agir?': vítima de importunação sexual relata trauma e medo de voltar à Uninove

 

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O que deveria ser apenas uma ida rápida ao banheiro entre uma aula e outra se transformou em um trauma que ainda impede uma estudante de Psicologia de voltar à faculdade. No dia 30 de abril, dentro da unidade Memorial da Universidade Nove de Julho, na Barra Funda, em São Paulo, ela foi surpreendida por um homem dentro do banheiro feminino exibindo o órgão genital.

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Uma semana depois, nesta quinta-feira (30), a estudante, que falou ao GLOBO sob condição de anonimato, diz que ainda não consegue frequentar as aulas normalmente.

— Eu continuo com muito medo. Ele viu meu rosto. Eu não sei se ele ainda está lá dentro, não sei se foi expulso, não sei que medidas foram tomadas. Para uns falam que ele foi suspenso, para outros que foi expulso. Mas para mim, que sou a vítima, ninguém fala nada.

A Polícia Civil investiga o caso. O episódio ocorreu em meio a uma sequência de denúncias de insegurança no campus. Em 14 de abril, uma estudante foi assaltada dentro da área das catracas da universidade enquanto usava o celular para acessar o QR Code de entrada. Antes disso, em março, outro caso já havia gerado forte repercussão: um estudante de outro campus da instituição foi expulso após ser acusado de filmar alunas enquanto elas dormiam em uma sala de descanso e expor o próprio pênis diante delas.

Segundo a denúncia, as imagens eram compartilhadas e até vendidas em grupos no Telegram. O caso levou à abertura de sindicância interna e ao acionamento da Polícia Civil. Para estudantes, o episódio deveria ter servido de alerta para reforçar protocolos de segurança e prevenção dentro da universidade, o que, segundo eles, não aconteceu.

A sequência de ocorrências motivou um abaixo-assinado com 2.805 assinaturas cobrando medidas urgentes de segurança e uma manifestação organizada pelo DCE Livre Uninove e pela UEE-SP nesta sexta-feira (8), no campus Vergueiro, onde fica a reitoria.

“Na hora eu travei”

A estudante conta que saiu da sala para usar um banheiro localizado em um corredor mais afastado, no terceiro andar do prédio. Por ser menos movimentado e mais limpo, era comum que ela e outras colegas preferissem usar aquele espaço.

Ao entrar, percebeu que havia alguém em uma das cabines, mas não imaginou qualquer situação de risco.

Depois de usar outra cabine e se dirigir à pia para lavar as mãos, viu um homem sair do box ao lado.

— Eu achei que ele fosse dizer que tinha entrado no banheiro errado. Esperei alguns segundos, porque realmente pensei que ele fosse se desculpar.

Mas não foi o que aconteceu.

— Ele se virou para mim e mostrou o órgão genital. Na hora eu travei. Eu não consegui reagir. Foi um choque. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, porque em nenhum momento ele se desesperou.

Segundo ela, o homem ficou observando sua reação pelo espelho antes de sair andando normalmente.

— Isso foi o que mais me assustou. Ele estava calmo. Como se aquilo fosse normal.

“Se eu gritasse, ninguém ia ouvir”

O banheiro ficava em uma parte mais isolada da universidade, próximo a um corredor longo e pouco movimentado. A estudante diz que o medo aumentou quando percebeu que estava completamente sozinha.

— Eu fiquei desesperada porque pensei: se eu gritasse, ninguém ia me ouvir. Eu imaginei que ele poderia estar me esperando do lado de fora, podia me puxar, fazer qualquer coisa. Foi um desespero muito grande.

Ela saiu correndo e procurou ajuda da professora. Em seguida, foi levada até a coordenação do curso de Psicologia.

Segundo o relato, no entanto, o acolhimento esperado não veio.

— Me perguntaram o que aconteceu, mas não houve acolhimento psicológico real. Não perguntaram se eu precisava de ajuda, se precisava ir embora, se precisava de suporte. Depois simplesmente foram embora e eu voltei para a sala.

Ainda abalada, decidiu deixar a universidade.

Foi na saída que o medo aumentou novamente.

— Quando passei pela catraca, eu vi ele entrando de novo na faculdade. Foi um novo desespero. Eu pensei: como essa pessoa está entrando aqui de novo? Como isso está acontecendo?

“Minha colega precisou chamar a polícia por mim”

Segundo a estudante, ao reconhecer novamente o suspeito, ela entrou em desespero e começou a gritar. Vídeos que circulam em grupos de WhatsApp mostram o momento em que o homem é cercado por funcionários da segurança e da infraestrutura da universidade.

Confira:

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Ela afirma que a própria universidade não acionou a polícia.

— Um segurança perguntou se eu queria chamar a polícia. Eu disse que sim. Depois ele falou que isso era comigo. Eu fiquei sem entender. Como assim? Aconteceu dentro da universidade e vocês não conseguem fazer o mínimo?

Ela foi levada ao ambulatório e, depois, encaminhada à 91ª Delegacia de Polícia, na região do Ceagesp, onde registrou boletim de ocorrência.

O GLOBO teve acesso ao registro policial. No documento, a estudante descreve o suspeito como um homem alto, de cabelos cacheados escuros, usando calça bege, camiseta vermelha, blusa preta, óculos de grau com armação escura e mochila preta.

Segundo ela, o homem também foi conduzido à delegacia, passou pelo IML e permaneceu detido durante a noite.

— Eu fiquei esperando sem saber se ele ainda estava lá, se tinham liberado ele ou não. Ninguém me dizia nada. Nem a coordenadora, nem os técnicos. Eu fui atrás dos policiais sozinha.

Ela afirma que funcionários da universidade também estiveram na delegacia, incluindo um técnico de segurança e um advogado da instituição.

— O que eu sei é que ele passou a noite lá. A família foi até a delegacia. Mas depois disso ninguém me explicou mais nada.

'O apoio chegou uma semana depois'

Segundo a estudante, somente nesta quinta-feira, uma semana após o episódio, a universidade enviou um e-mail oferecendo acompanhamento psicológico e suporte acadêmico.

Para ela, o momento mais importante já havia passado.

— O apoio precisava ter vindo no dia. Foi naquele momento que eu mais precisei. É quando a gente está em choque, quando está tentando entender o que aconteceu.

Ela conta que, desde então, não conseguiu voltar à rotina.

— A faculdade é onde eu estou de segunda a sexta, quatro horas por dia. Hoje eu tenho medo de ir, medo de usar banheiro, medo de encontrar essa pessoa. O mínimo que a gente espera é segurança.

A insegurança também fez surgir um novo dilema: permanecer ou não na universidade.

No quarto ano de Psicologia, ela diz que pensou em sair.

— Eu estou a um ano de me formar. Se eu trocar de faculdade agora, provavelmente vou sair no prejuízo, perder semestre. Mas eu também não sei como continuar se nada mudar.

Mobilização estudantil e cobrança por respostas

A repercussão do caso levou estudantes a intensificarem a mobilização dentro da universidade. Representantes de turma e alunos passaram a compartilhar relatos de assédio, roubos e insegurança, além de organizarem um abaixo-assinado independente que já soma 2.805 assinaturas.

Entre as exigências estão a expulsão definitiva do suspeito, reforço no policiamento entre o campus e a estação Barra Funda, mais controle de acesso e reformulação da segurança privada da instituição.

Segundo os organizadores, 875 pessoas afirmaram no formulário já terem sido vítimas ou testemunhas de violência dentro ou no entorno da universidade.

Nesta sexta-feira (8), estudantes também participam de uma manifestação organizada pelo DCE Livre Uninove e pela UEE-SP no campus Vergueiro, onde fica a reitoria da universidade. O grupo cobra respostas formais da instituição e medidas concretas de proteção.

'Eu não estou fazendo isso só por mim'

Mesmo com medo, ela decidiu registrar boletim de ocorrência e tornar o caso público.

A escolha, segundo ela, foi também por outras mulheres.

— Eu não estou fazendo isso só por mim. Estou fazendo por todas as mulheres que já passaram por isso e pelas que ainda podem passar.

Ela conta que, após a repercussão, surgiram relatos de outras estudantes que afirmam já ter denunciado o mesmo homem anteriormente.

Isso aumentou ainda mais sua revolta.

— Se já existia denúncia antes, por que ele continuava ali dentro? Eles vão esperar acontecer algo ainda pior para tomar uma atitude?

Ao final da entrevista, a estudante resume o sentimento que ainda carrega desde aquela noite.

— Eu tive medo. Continuo tendo. Mas eu não queria que isso fosse tratado por baixo dos panos. A gente precisa denunciar. Porque se a gente se cala, eles continuam fazendo. Nenhuma mulher deveria passar por isso sozinha.

O GLOBO procurou a coordenação do curso de Psicologia, a reitoria da Universidade Nove de Julho e a diretoria responsável pela área da Saúde para comentar as denúncias, esclarecer quais providências foram adotadas após o caso e informar a situação do suspeito apontado pelas estudantes.

Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.