Vagão feminino 24h em trens e metrôs do Rio funciona? O GLOBO testa

Vagão feminino 24h em trens e metrôs do Rio funciona? O GLOBO testa

 

Fonte: Bandeira



Era uma quarta-feira no meio da tarde e uma passageira lia no vagão feminino do metrô o livro “Ressalga”, de Bethânia Pires Amaro. Num ambiente silencioso, ela estava relaxada a ponto de poder se concentrar ininterruptamente no romance em que três gerações de mulheres vivem deslocamentos sob o impacto da violência. Fora das páginas da ficção, no mesmo transporte uma hora depois, uma jovem saiu rápido do vagão misto rumo ao carro onde não se preocuparia com assédios ou importunações. Deixou para trás o olhar voraz de três homens e se protegeu onde, há dois meses, a entrada deles é proibida 24 horas: o vagão das mulheres.

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No dia 23 de março entrou em vigor no Rio uma norma que garante que vagões exclusivamente femininos funcionem sem horário determinado no metrô e nos trens. A proposta é de autoria do presidente em exercício da Alerj, Guilherme Delaroli (PL). Mas passados 60 dias desde a sanção por Cláudio Castro, o comportamento do passageiro no metrô e — mais ainda — nos trens mostra que o corportamento do passageiro deixa a desejar, seja por resistência, por dúvidas sobre funcionamento e fiscalização.

Trem da Supervia com cartazes desatualizados: no aviso, ainda constam horários de funcionamento da regra, como era no início do ano

Livia Nani

Em todas as composições da SuperVia, dois vagões possuem adesivos rosas, um em cada extremidade do trem. No entanto, os dois não funcionam ao mesmo tempo. A informação não fica clara para os passageiros, nem nos adesivos espalhados pelos vagões nem nos avisos sonoros das estações, já que a voz que explica a exceção só menciona o detalhe ao fim do anúncio. Para ter acesso claro à informação, o passageiro precisa acessar o site da concessionária. A estudante de Direito Lara Martins, de 28 anos, se surpreendeu ao ser informada pela reportagem de que o vagão feminino em funcionamento é sempre o mais distante do maquinista e não os dois ao mesmo tempo.

— Na minha cabeça eram os dois vagões. Não tem fiscalização. A gente entra, já tem homens sentados, eles estão dormindo ou estão em pé, ou estão assim encostados num canto. Essa mudança na lei não mudou nada, só conseguiu me irritar. De vinte anos de lei, na realidade não aconteceu para mim nenhuma diferença. Para eles, eles seguem a vida normal — afirma.

Nos vagões, a agressividade no embarque e desembarque também assusta e afasta passageiras.

– Eu deixei de andar de trem. Agora pego metrô e depois ônibus no ponto final – diz uma passageira moradora de Duque de Caxias, na Baixada. – Não só por algum tipo de assédio. Eu já fui jogada no chão com a correria das pessoas para sentar. Deus me livre!

Metrô: mais consciência

Nesta semana, um vídeo que mostra mulheres lendo livros, estudando e fazendo crochê ou tricô no vagão feminino do metrô do Rio viralizou no Tik Tok e no Instagram. É possível mesmo comprovar a veracidade das cenas registradas, sobretudo fora da hora do rush: espaços mais vazios e silenciosos, em contraste com o vagão misto, mais ruidoso e desorganizado.

— Desde que passei a usar o metrô todos os dias, venho para o vagão feminino e faço o crochê — diz Thamiris Monteiro.

Uma canadense disse que só viu norma parecida quando esteve no Japão.

— Não é que necessariamente vá acontecer alguma coisa, mas a gente fica mais confortável — disse Tara, que por fazer parte da administração do governo estrangeiro não pôde dar seu sobrenome.

Nos horários de mais movimento, mães com crianças e mulheres com necessidades especiais costumam optar pelo espaço exclusivo, onde costuma haver mais consciência. É permitido que as com necessidaes especiais estejam com acompanhantes ou as mães com crianças. Ali é refúgio para muitas.

Mulheres no vagão feminino do metrô do Rio

Marina Calderon

A diarista Dironice Loti, de 49 anos, faz questão de ocupar o espaço exclusivo, sobretudo depois de assédios em ônibus durante as duas horas que faz do Jardim Botânico, na Zona Sul, a Piabetá, sexto distrito do município de Magé. Depois dos sustos, ela passou a andar usar uma agulha para se defender. Uma vez até ameaçou furar um malandro que colou seu corpo no dela de propósito. Saída parecida foi encontrada pela estudante de Relações Internacionais Julia Santos, que porta uma caneta para quando precisar se proteger.

– Vejo dicas no Tik Tok e no Twitter. Tem gente que anda com spray de pimenta também — diz a jovem de 21 anos.

Quando estão em grupo, alguns homens criam mais coragem para transpor as regras expostas em cartazes rosa e em letras garrafais no metrô. Quarta-feira, três adultos de idades entre 35 e 50 anos se divertiam por estar onde não deveriam. Se sentiram vitoriosos por 20 minutos por transpor a norma. No dia seguinte, enquanto uma multidão de gente descia na Central do Brasil, outros três, às risadas, perguntaram a uma guarda: “Você sabia que tinha mulher no outro vagão? Por que não fiscalizam?”.

Em diferentes dias da semana, é possível notar a falta de conhecimento e de educação de passageiros – alguns deles creem erroneamente haver vagões para homens e mulheres como banheiros separados por gênero. Surgem também os turistas estrangeiros que não entendem português e viajam distraidamente. É comum ambulantes homens atravessarem os vagões, enquanto os guardas do metrô não veem, bradando para algum deslocado: “Ó o vagão feminino!” Uma passageira diz ainda que acabara de presenciar a cena de um mendicante pedindo dinheiro a uma moça de maneira intimidadora.

– Isso acabou de acontecer. Ele estava quase cometendo um furto, de tanta insistência – diz Edna Silva, agente de turismo. – Será que não podemos ter câmeras também?

No metrô, frotas novas e antigas carregam diferenças. As mais recentes, aquelas com corredor contínuo entre os vagões, têm câmeras, diferentemente das antigas. Neste caso, elas precisariam passar por uma adaptação. O caso é mais grave nos trens da Supervia, onde a conscientização está longe de entrar no trilho. O GLOBO percorreu 14 paradas. No vaivém diário, cenas de alerta de mulheres a homens costumam terminar em silêncio constrangido, pedidos ignorados ou discussões antes do embarque e adesivos desatualizados prejudicam a conscientização.

O documento assinado pelo governador também determina que as concessionárias têm que garantir a fiscalização e proceder para a aplicação de multas: quem não obedecer a regra pode ter que pagar de R$287 a R$ 1792. A PM afirma que “atua em apoio às concessionárias responsáveis pelos sistemas de trem e metrô”. No dia a dia, porém, é comum mulheres se sentirem intimidadas pela presença de homens em grupo nos vagões da Supervia e apenas optem por deixar para lá por não terem a quem recorrer.

— Alertei um homem de que o vagão era feminino. Ele assentiu, mas entrou mesmo assim. Quando questionei, respondeu de forma grosseira e disse para eu “pegar um Uber” da próxima vez. Em outra ocasião, havia cinco policiais na estação. Eles entraram no vagão, falaram sobre a regra, os homens saíram, mas voltaram para o vagão feminino na estação seguinte — afirma Giovanna Sabino, de 28 anos, que recebeu a notícia da ampliação do horário de exclusividade com esperança, mas logo percebeu que pouca coisa mudou.

Por ali, ambulantes anunciam promoções imperdíveis em meio às mulheres. Questionado sobre a proibição da circulação de homens no espaço, um vendedor diz já ter visto seguranças retirando passageiros da extremidade oposta ao maquinista, mas afirma que os ambulantes não costumam ser abordados:

— Aqui na Central eles tiram os homens, mas isso acontece mais de manhã. À tarde, eles saem para almoçar e não voltam mais. Com a gente, não mexem.

Ambulante no vagão feminino do trem da Supervia

Livia Nani

* Estagiária sob supervisão de Cláudia Meneses