Vacinação perde força no Brasil e hesitação cresce após pandemia, mostra pesquisa
Uma pesquisa do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que o Brasil continua majoritariamente favorável às vacinas, mas vive um processo crescente de hesitação e afastamento da imunização.
O levantamento revela que 72,1% dos brasileiros afirmam aderir às campanhas de vacinação, enquanto 27,9% já estão fora do padrão de adesão plena.
Em entrevista ao Jornal da CBN, o coordenador do SoU_Ciência, Pedro Arantes, afirma que este dado chama a atenção porque o Brasil sempre foi um caso de sucesso de vacinação.
'Antes da pandemia, nós chegávamos a índices de 95% de adesão à vacinação. E nós estamos agora com uma queda nessa adesão. 28% da população está em dúvida se se vacina ou não. E, dentro desse porcentagem, nós temos 10% que desistiram de se vacinar depois da pandemia e 10% que estão convictos de que não querem se vacinar e 10% indecisos'.
Pedro Arantes destaca que este padrão aparece de forma ainda mais clara na vacina contra a dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan.
Embora cerca de 70% dos entrevistados manifestem atitude favorável ao imunizante, apenas 56,7% afirmam que pretendem se vacinar imediatamente. Outros 13,7% consideram a vacina importante, mas não prioritária neste momento.
'E isso nos surpreendeu, porque nós achávamos que ia ter uma corrida à vacinação da dengue. E as pessoas ainda não estão bem informadas, estão desinteressadas. Entre os jovens é mais surpreendente - menos da metade dos jovens têm interesse na vacinação contra a dengue'.
Segundo o coordenador, a maioria dos interessados em tomar o imunizante contra a dengue são os idosos, que representam 62% dos entrevistados. Entre os mais jovens, de 16 a 24 anos, são 48,6%.
'O grupo mais interessado em tomar a vacina é o grupo que ainda não pode tomar, que é com mais de 60 anos. O Butantan está agora fazendo a testagem com a população mais idosa, porque a ideia é que a cobertura seja plena, mas essa população ainda não tem autorização da Anvisa para tomar a vacina'.
Ataques ideológicos
Além da questão etária, diferenças ideológicas e religiosas também influenciam na adesão à vacinação. Entre pessoas de esquerda, 65% pretendem tomar a vacina da dengue imediatamente, índice que cai para 46,2% entre pessoas de direita. Entre católicos, a intenção imediata de vacinação chega a 60,4%, contra 51,1% entre evangélicos.
'Isso mais ou menos espelha um pouco a estrutura de polarização política da sociedade brasileira e mostra que houve uma politização da vacina. Algo que é estritamente do campo da ciência, da saúde pública e da imunização da população passou a ser um tópico de disputa ideológica, o que não deveria ser'.
A pesquisa “Memória, Justiça e Reparação da Pandemia de Covid-19 e atual adesão às vacinas” foi realizada pelo Instituto Idea, com coordenação do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Foram entrevistadas por telefone 1,5 mil pessoas com 16 anos ou mais em março. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
