Vaca desaparecida põe em dúvida autenticidade de pintura atribuída a Peter Paul Rubens

 

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Há décadas, a família de Abraham Adelsberger, um fabricante judeu de brinquedos que fugiu da Alemanha para escapar da perseguição nazista, busca a devolução de uma pintura atribuída a Peter Paul Rubens. Mas os herdeiros enfrentaram dois reveses recentes nessa busca.

Primeiro, o pedido foi contestado pelo colecionador particular cuja família possui a obra desde 1937. E, agora, um especialista decidiu que a paisagem não é, afinal, um Rubens, mas sim uma cópia de oficina do original, que estaria num museu de Munique.

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A pista reveladora, segundo o especialista: o original no museu retrata 11 vacas, incluindo uma que está urinando. A cópia de oficina tem apenas 10, porque a vaca urinando foi apagada — possivelmente, concluiu o especialista, para aumentar o valor de mercado da obra.

“Essas imagens eram consideradas inadequadas para ambientes frequentados por mulheres ou crianças”, escreveu o especialista Nils Büttner num relatório de março. “De acordo com as convenções sociais da época, os olhares inocentes deveriam ser protegidos de um excesso de naturalidade.”

No século XVII, pintores europeus não se opunham a retratar animais deixando a natureza seguir seu curso, disse Angela Vanhaelen, professora de história da arte na Universidade McGill, em Montreal. Ela cita uma gravura de Rembrandt de 1633, “O Bom Samaritano”, no Metropolitan Museum of Art, que mostra um cachorro defecando.

“Era um tema bastante comum”, disse Vanhaelen.

No entanto, como observou Büttner, alguns colecionadores não gostam dessas imagens. Eric Jan Sluijter, professor de história da arte na Holanda, cita uma anedota escrita por Arnold Houbraken, pintor e escritor holandês do século XVII. Ele relembra como a princesa Amalia van Solms rejeitou uma pintura de 1650 chamada "A vaca urinando", de Paulus Potter, produzida para seu palácio em Haia. Segundo Houbraken, um confidente da princesa relatou que "era um tema muito obsceno para Sua Alteza contemplar diariamente".

Büttner, professor da Academia de Arte de Stuttgart e amplamente considerado uma das maiores autoridades em Rubens, afirma que o artista pintou cada composição apenas uma vez e está convencido de que o original se encontra na Alte Pinakothek, em Munique. Mas outros artistas no enorme e produtivo ateliê de Rubens frequentemente produziam cópias para venda. Büttner estima ter examinado cerca de 10 mil pinturas que "alguém, em algum momento, acreditou serem de Rubens".

Ele examinou a obra que é objeto da disputa em fevereiro, com base em seu próprio interesse pela paisagem. Segundo ele, imagens infravermelhas mostram a vaca desaparecida sob uma camada de tinta. Sua análise, sugere que a decisão de pintar por cima da vaca, deixando um prado de cor clara em seu lugar, foi tomada durante a reprodução da imagem.

Ele argumenta que a obra de Munique, com a 11ª vaca, não poderia ser uma cópia, pois o artista não teria conseguido replicar a imagem de uma vaca que já havia sido pintada por cima.

Como uma pintura da oficina de Rubens, a paisagem tem um valor estimado em até US$ 250 mil. O original em Munique poderia alcançar mais de US$ 50 milhões se algum dia fosse a leilão, diz Büttner.

Para os descendentes de Adelsberger, a obra continua sendo parte do legado da família e justifica a tentativa de restituição. Embora a família esteja empenhada em recuperar centenas de pinturas que pertenceram à coleção Adelsberger, Alfred Fass, bisneto de Adelsberger, lembra-se do suposto Rubens como uma obra que sua avó, Sophie Isay-Adelsberger, estava particularmente interessada em encontrar. "É o Rubens da família que procuramos há 80 anos", disse ele.

Adelsberger comprou a pintura por volta de 1925 e escreveu em uma carta de 1934 que ela havia sido autenticada por um especialista como "não apenas genuína, mas uma das paisagens mais belas de Rubens". Ele havia construído uma grande coleção que foi abrigada em uma galeria de arte em sua vila em Nuremberg, Alemanha, na década de 1920.

Mas sua empresa enfrentou dificuldades financeiras e ele tentou vender grande parte da coleção de arte em 1930. Ele também usou centenas de obras como garantia para empréstimos de diversos credores, de acordo com uma pesquisa sobre a história da coleção realizada pela Universidade Livre de Berlim.

A pintura da paisagem com vacas serviu de garantia para um empréstimo que passou a ser detido pelo Dresdner Bank em 1932, quando o Reich Alemão se tornou seu acionista majoritário. Segundo os termos desses empréstimos, a propriedade das obras de arte foi transferida para o banco até que os empréstimos fossem quitados.

Após a ascensão dos nazistas ao poder em 1933, as políticas antissemitas do Estado se estenderam à filial local do banco em Nuremberg, onde os funcionários judeus foram substituídos. “Adelsberger enfrentou um assédio crescente que dificultou o pagamento de suas dívidas”, constatou o relatório da Universidade Livre de Nuremberg.

O Dresdner Bank começou a vender algumas das obras de Adelsberger para quitar a dívida. Mas, de acordo com as conclusões da universidade, o banco não contabilizou adequadamente a renda obtida com a venda dessas obras e com o aluguel das propriedades de Adelsberger. O banco mal reduziu a dívida e parou de enviar extratos bancários, segundo o relatório. Adelsberger fugiu para Amsterdã em 1939 e morreu lá em 1940.

O banco vendeu a cópia de Rubens em algum momento entre 1935 e 1937 para Gustav Schickedanz, membro do partido nazista e fundador da Quelle, que mais tarde se tornou a maior empresa de vendas por catálogo da Europa. A pintura está agora em posse do neto de Schickedanz, Matthias Bühler.

“Meu cliente está disposto a buscar uma solução justa e equitativa com os herdeiros”, disse Louis Roensberg, advogado de Bühler. “Este é um caso complexo e não vemos argumentos para a restituição integral, pois Adelsberger perdeu a posse da pintura em 1932. Ele enfrentava sérios problemas financeiros desde a década de 1920.”

Roensberg afirmou que os herdeiros de Adelsberger ainda não chegaram a um consenso. “Estamos dispostos a negociar”, disse ele, “mas precisamos que os herdeiros trabalhem juntos”.

Sete pinturas de Adelsberger, vendidas pelo banco para quitar sua dívida, estão sendo devolvidas. Elas faziam parte de um grupo de 20 pinturas que a Prússia comprou na década de 1930 e permanecem nas coleções da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano, que administra os museus estaduais de Berlim. Os herdeiros ainda buscam as 13 restantes, uma das quais, assim como a paisagem com vacas, está em posse de Bühler.

A fundação escreveu aos herdeiros dizendo estar pronta para devolver as sete pinturas, todas dos séculos XVIII e XIX, após concluir que Adelsberger as perdeu devido à perseguição nazista.

Birgit Jöbstl, porta-voz da fundação, afirmou que está "em contato produtivo com os herdeiros com o objetivo de chegar a uma solução justa e igualitária".