Uso de meteoritos argentinos no desfile de moda da Dior causa controvérsias; entenda
Era 26 de janeiro. Naquele dia, Jonathan Anderson apresentaria sua primeira coleção de alta-costura para a histórica grife de moda Christian Dior no Museu Rodin, em Paris. O evento, tão aguardado pelos entusiastas da indústria, marcaria um momento crucial para a maison francesa: o estilista precisava provar a um público exigente que estava à altura do legado de antecessores como John Galliano, Gianfranco Ferré e Raf Simons.
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Em um ambiente coberto de musgo, grama e flores de ciclâmen, Anderson buscou gerar um diálogo no qual fósseis, meteoritos, tecidos do século XVIII e miniaturas pintadas se tornassem materiais ativos nas peças de vestuário.
“Ao copiar a natureza, você sempre aprende algo”, era a mensagem do desfile. “A natureza não oferece conclusões definitivas, apenas sistemas em movimento: evoluindo, adaptando-se, perdurando.”
O desfile gerou opiniões diversas: por um lado, aqueles que encontraram na proposta do estilista a sutileza de um "retorno às origens"; e, por outro, aqueles que sustentaram que os modelos não eram característicos da alta-costura — peças exclusivas, feitas sob medida e artesanais, que representam o ápice do luxo, da inovação e da arte na moda. No entanto, a controvérsia eclodiu dias depois, quando a publicação Business of Fashion publicou uma entrevista com Anderson.
“Como trabalhamos com joias e alta-costura? Por exemplo, em joias, eu queria explorar a ideia de usar tecnologia e aplicar revestimento em pó sobre esmalte, sobre alumínio, e depois usar objetos ou coisas preciosas, como meteoritos encontrados na Argentina", revelou Anderson: "Então, nós os montamos em prata carbonizada e vimos como a tecnologia se fundia com algo do mundo exterior".
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Essa menção não foi insignificante. De acordo com a Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CONAE) – uma das entidades responsáveis pela exploração e proteção de meteoritos – “todos os meteoritos que entram em território argentino (incluindo seu espaço aéreo e águas territoriais) são considerados Patrimônio Cultural”.
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Bianca Balsari, graduada em Geologia pela UBA, e Iván Alejandro Petrinovic, geólogo pesquisador do CONICET, reconhecem que, dado o seu valor científico, cultural e histórico, esses objetos são protegidos pela Lei Nacional 26.306 e por leis provinciais (como as de Chaco e Santiago del Estero) que exigem um regime especial de proteção.
Apesar da legislação e dos esforços ativos para protegê-los, Petrinovic afirma que o contrabando é quase “incontrolável”. A Argentina, explica ele, com suas vastas extensões e áreas florestais, tem muitos caçadores de meteoritos.
— Eles alegam estar realizando exploração mineral, mas, na realidade, estão procurando meteoritos por causa dos altos preços que eles alcançam — relata.
Para ilustrar a gravidade da sua remoção, Petrinovic enfatiza:
— Do ponto de vista criminal, levar um meteorito para fora do país é o mesmo que levar o sabre curvo de San Martín.
'Labradoritas, amonites, opala, azurita, água-marinha, meteorito de octaedrita de ferro. Encontrado em: Madagascar, Etiópia, EUA, Brasil, Marrocos', diz legenda de publicação da Dior em seu perfil no Instagram
Reprodução / Instagram / @dior
Contactado por La Nacion, representantes da Christian Dior afirmam que as declarações de Jonathan Anderson "referem-se apenas a algumas poucas peças e que elas foram exibidas no desfile sem a intenção de serem vendidas". Em relação a como obtiveram os fragmentos do meteorito, eles ainda não deram uma resposta.
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De valor incalculável
De acordo com Balsari, a localização, a composição, a geometria e as condições em que um meteorito foi encontrado são fundamentais para reconstruir o fenômeno da queda, estimar sua idade na Terra e compreender sua possível origem no cosmos.
Por outro lado, acrescenta que a preservação do meteorito em seu estado original e em um contexto institucional adequado permite a criação de espaços para aprendizagem, disseminação e construção de conhecimento coletivo.
O fato de terem sido usados e modificados para fazer parte de um desfile internacional de alta-costura destaca, segundo ela, seu enorme poder simbólico e estético.
— São fragmentos do cosmos, carregados de uma história que fascina o espectador e, portanto, são tão poderosos quando incorporados a uma obra de arte — afirma.
Um meteorito do tamanho de um punho deve valer cerca de US$ 10 mil, estima Petrinovic. Ele acrescenta que seu valor é tamanho que eles são até vendidos online em plataformas como eBay e Mercado Livre.
