Uso de maconha é associado a menor volume cerebral em novo estudo

 

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Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Bath e do King's College London, ambos no Reino Unido, concluiu que o uso de maconha está associado a um menor volume da amígdala, uma estrutura do cérebro em formato semelhante a uma amêndoa que desempenha um papel importante no controle das respostas emocionais, incluindo sentimentos como prazer, medo, ansiedade e raiva.

O trabalho, publicado na revista científica Addiction, analisou também o uso de tabaco e encontrou uma ligação com um volume reduzido da amígdala, mas também de outras estruturas cerebrais, como a ínsula e o pálido, que também regulam emoções, e do volume total de massa cinzenta do cérebro.

A pesquisa é uma revisão sistemática e meta-análise, tipo de estudo que analisa outros trabalhos publicados sobre um tema para sintetizar os resultados. Os cientistas britânicos encontraram 103 artigos, 57 que investigaram o uso de cannabis, 45 que observaram o consumo de tabaco e um que englobou os dois. Do total, 77 foram usados para a análise, que juntos somaram 142,2 mil participantes.

Os pesquisadores observaram o volume cerebral de 33 regiões globais, corticais e subcorticais do cérebro, avaliadas por meio de ressonância magnética. Em comparação com os controles, como são chamados os voluntários dos estudos que não consumiam as substâncias, aqueles que usavam maconha tiveram volumes menores da amígdala registrados nos exames.

Enquanto isso, os que faziam uso de tabaco apresentaram também valores menores da ínsula, do pálido e da massa cinzenta total. Além disso, houve evidência fraca de volumes menores no hipocampo entre os que fumavam.

Os cientistas ressaltam que os estudos eram observacionais, ou seja, encontram uma relação, embora sejam limitados para inferir que necessariamente a maconha e o tabaco tenham causado a redução dos volumes cerebrais. Por isso, afirmam que mais trabalhos sobre o tema são necessários.

Ainda assim, consideram que as conclusões estão alinhadas aos achados de diversos outros estudos que têm apontado cada vez mais para o efeito dessas substâncias na saúde cerebral. Segundo os autores escrevem no artigo, isso pode possivelmente ser atribuído aos principais componentes psicoativos de cada substância.

“Por exemplo, o THC (tetrahidrocanabinol) pode causar alterações estruturais ao reduzir o número de sinapses, diminuir a densidade neuronal e reduzir o comprimento ou a complexidade dos dendritos”, afirmam os pesquisadores.

De forma semelhante, continuam, “a nicotina tem sido associada à perda celular, alterações no tamanho das células e redução do comprimento e da complexidade dendrítica”. “As regiões cerebrais associadas ao uso de tabaco nesta revisão apresentam alta densidade de receptores nicotínicos”, complementam.

Eles dizem ainda que as mudanças no volume cerebral também podem ser atribuídas aos danos da combustão no hábito de fumar, que gera altas concentrações de espécies reativas de oxigênio. Essas moléculas, por sua vez, causam estresse oxidativo e inflamação, levando à morte de células neuronais.

“Compreender as ações neurobiológicas da cannabis, do tabaco e do uso combinado pode orientar intervenções de saúde pública e em nível individual (...) Campanhas de saúde pública também podem incluir mensagens sobre os potenciais danos do uso de tabaco ao cérebro. Além disso, profissionais de saúde podem discutir o impacto do tabaco e da cannabis no cérebro ao conversar com seus pacientes sobre o uso dessas substâncias, assim como já fazem em relação a desfechos físicos, como câncer de pulmão”, defendem os cientistas.

No Brasil, um a cada sete brasileiros com 14 anos ou mais já consumiram maconha, segundo dados do terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) sobre cannabis e outras substâncias psicoativas ilícitas. De acordo com a pesquisa, o percentual mais que dobrou em uma década, saindo de 6,2%, em 2012, para 15,8%, em 2023.

O aumento, de 142%, foi o mais expressivo entre as drogas analisadas. Os números mostram ainda que o consumo habitual da maconha também cresceu, em 114%. Em 2023, 6% relataram ter usado a droga nos últimos 12 meses, o equivalente a cerca de 10 milhões de brasileiros e pouco mais que o dobro dos 2,8% registrados na edição da pesquisa de 2012.

De acordo com o levantamento, essa adesão ocorre principalmente entre os mais jovens. O grupo de 18 a 24 anos registra as maiores prevalências, com 23,3%, cerca de 1 em cada 4, tendo experimentado a cannabis alguma vez na vida, e 13,2% relatando consumo habitual. A idade média de experimentação da droga é 18 anos, e quase metade dos usuários iniciou o consumo antes de entrar na fase adulta.

Já em relação ao tabagismo, a última pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, apontou que 11,5% dos brasileiros com 18 anos ou mais fumavam em 2024, uma redução em relação aos 15,7% observados em 2006. Na análise do período mais recente, porém, entre 2019 e 2024, a frequência se manteve estável, com uma leve alta em relação a 2023, quando o percentual foi de 9,2%.