O uso de medicamentos da classe dos GLP-1 está crescendo entre crianças e adolescentes nos Estados Unidos, ampliando também o debate sobre até onde esses tratamentos podem ser usados com segurança em pacientes ainda em fase de crescimento. Embora estudos já indiquem benefícios para perda de peso e controle metabólico, pesquisadores ouvidos pelo Gizmodo afirmam que ainda existem lacunas importantes sobre os efeitos de longo prazo dessas terapias em crianças e adolescentes. Um estudo publicado recentemente mostrou que, entre 2019 e 2026, 0,6% das crianças de 8 a 11 anos com obesidade e sem diabetes receberam prescrição de um GLP-1 fora das indicações aprovadas. A proporção anual de crianças tratadas também aumentou de forma significativa ao longo do período. O crescimento acontece em meio à alta prevalência de obesidade infantil nos Estados Unidos. Segundo os dados mais recentes do CDC (Centers for Disease Control and Prevention), cerca de 21% das crianças entre 6 e 11 anos e 22% dos adolescentes de 12 a 19 anos têm obesidade. Os medicamentos também demonstram potencial nessa população. Dados apresentados nesta semana pela Novo Nordisk indicaram que 40% das crianças de 6 a 12 anos que receberam semaglutida durante 68 semanas deixaram de se enquadrar nos critérios de obesidade ao final do tratamento. Apesar dos resultados, a aprovação regulatória ainda varia de acordo com a idade e a indicação. Nos Estados Unidos, a semaglutida é aprovada para tratamento da obesidade a partir dos 12 anos. A Novo Nordisk busca autorização para faixas etárias mais jovens. Já a tirzepatida, da Eli Lilly, está aprovada para obesidade apenas em adultos, embora possa ser usada no tratamento do diabetes em crianças a partir dos 10 anos. A Academia Americana de Pediatria passou, em 2023, a recomendar uma abordagem mais ativa para o tratamento da obesidade infantil, incluindo medicamentos como os GLP-1. Outros órgãos, porém, adotam uma posição mais cautelosa diante da falta de dados de longo prazo. Uma revisão sistemática de 18 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 1.400 crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, encontrou melhora no peso, no índice de massa corporal, no controle glicêmico e na pressão arterial sistólica entre pacientes que receberam agonistas de GLP-1. Os efeitos colaterais gastrointestinais foram mais frequentes, como já observado em adultos. Nos estudos analisados, porém, não houve diferença estatisticamente significativa em relação ao placebo na interrupção do tratamento, depressão ou pensamentos e comportamentos suicidas. A ausência desses sinais, no entanto, não elimina as dúvidas. Segundo os pesquisadores, os estudos ainda são relativamente pequenos e curtos para detectar eventos raros ou consequências que apareçam após anos de tratamento. Entre os pontos que ainda precisam ser investigados estão possíveis impactos sobre crescimento, nutrição, saúde mental, transtornos alimentares e a trajetória do peso após a interrupção dos medicamentos. Também não está claro por quanto tempo crianças e adolescentes precisarão permanecer em tratamento. Especialistas consideram possível que parte dos pacientes precise continuar usando os medicamentos durante a vida adulta, enquanto outros poderiam reduzir doses ou interromper a terapia após um período de manutenção. Outra questão é definir qual medicamento funciona melhor para cada perfil de paciente. Pesquisadores afirmam que o campo caminha para uma abordagem mais personalizada, capaz de prever tanto a resposta ao tratamento quanto o risco de efeitos colaterais. Na prática clínica, médicos também relatam que crianças e adolescentes frequentemente dizem que os medicamentos reduzem o chamado “food noise”, expressão usada para descrever pensamentos persistentes sobre comida e fome. Ao mesmo tempo, especialistas alertam que obesidade e transtornos alimentares podem coexistir, o que exige acompanhamento cuidadoso da relação do paciente com a alimentação antes e durante o tratamento. A influência das famílias também é uma questão ainda pouco estudada. Segundo pesquisadores, não está claro em que medida a decisão de iniciar um GLP-1 parte dos pais, dos próprios jovens ou dos médicos. Mais Lidas
Notícias
Uso de canetas emagrecedoras cresce entre crianças, mas efeitos de longo prazo ainda são incertos
Fonte da notícia:
Epoca Negócios
Epoca Negócios
Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?
Acessar matéria no site Epoca Negócios