O berço de Noel Rosa está em descompasso. Uma decisão da Unidos de Vila Isabel colocou em lados opostos os compositores Martinho da Vila e Paulo César Feital, referências no mundo do samba. No sábado, a escola anunciou que levaria à Sapucaí, em 2027, uma combinação dos sambas-enredo dos dois autores. A decisão, porém, durou poucos dias. Ontem, a agremiação voltou atrás e informou que apenas a obra de Martinho será cantada pela azul e branco no desfile do ano que vem. A mudança foi definida na segunda-feira, após uma reunião entre a direção da escola, os carnavalescos e outros integrantes da equipe de carnaval. Antiquário do crime: polícia de Portugal localiza em Lisboa objetos de arte sacra furtados de igreja no Rio 'Vazio enorme': hospital confirma a morte de pizzaiolo baleado na cabeça em Niterói Fontes ouvidas pelo GLOBO disseram que a decisão de não aceitar a junção dos sambas partiu de Martinho da Vila, que é historicamente contra a fusão de composições, por acreditar que, na maioria das vezes, as obras têm estilos diferentes e não combinam. Ele, inclusive, já teria desaprovado a medida em, pelo menos, outras duas ocasiões. Desta vez, Martinho teria reforçado sua posição ao ser consultado pela escola. Ele até teria liberado o uso de sua composição caso a escola mantivesse a fusão, mas não queria assiná-la. A agremiação, então, voltou atrás e optou apenas por sua obra. Oposição. Martinho da Vila é um dos autores do samba-enredo que saiu vencedor: ele teria sido contra união das obras Marcelo Theobald/19-07-2025 A junção, proclamada em evento com a quadra lotada no último fim de semana, já havia provocado controvérsia. A maior parte do samba seria composta pela letra de Martinho da Vila. Mas o refrão principal viria do samba de Paulo César Feital, Danilo Garcia, Júlio Alves, Marcelo Martins, Gabriel Simões, Gustavinho Oliveira e Thales Nunes. ‘Maior músico da escola’ Além de Martinho, o samba agora campeão é assinado por outros dois ícones. Evandro Bocão já foi presidente da azul e branco e tem dois Estandartes de Ouro — prêmio concedido pelos jornais O GLOBO e Extra (1994 e 2026). Já André Diniz é o maior ganhador de disputas de sambas-enredo da Vila e dono de três Estandartes de Ouro (1994, 2013 e 2026). — Não resta dúvida de que nos incomodaria a quantidade de parceiros, porque nós temos feito um movimento pela diminuição de compositores. Mas, se a escola juntou, é sinal de que acha que os sambas podem melhorar. Após a não aceitação da junção, nos colocamos à disposição tanto para melhorar o nosso samba quanto para, se o outro fosse escolhido, tentar aprimorá-lo caso a agremiação achasse necessário, já que, querendo ou não, temos o Martinho da Vila, o maior compositor da história da escola — disse André Diniz. Ao desfazer a costura, a escola afirma ter levado em conta a relação de Martinho com a Vila. Destacou que o artista, de 88 anos, é presidente de honra e ostenta seis décadas de história com a azul e branco. — Foi uma decisão pensada com muito cuidado e, acima de tudo, pautada na Vila Isabel. O Martinho tem uma relação muito especial com a nossa escola — diz o presidente da agremiação, Luiz Guimarães. — Agora, vamos trabalhar junto com os compositores, fazer os ajustes necessários e preparar esse samba para defender a Vila Isabel em 2027. ‘Tristeza e desilusão’ Paulo César Feital admite que recebeu a decisão com tristeza, mas que a respeita: — Passamos por uma alegria muito grande no dia do anúncio e, hoje (ontem), fomos tomados por uma desilusão. A garotada que faz parceria comigo, na faixa dos trinta e poucos anos, é doente pela Vila Isabel e chegou a chorar. O que venho falando para eles é que levantem o moral, joguem sua alma para dentro dos rios da paixão e naveguem neles. Ano que vem tem mais. A gente não pode fazer nada. Eu não participei de nenhuma reunião; então, não sei o porquê, mas a decisão da escola é suprema, e eu a acato respeitosamente. Alvo de críticas da ala vencedora, a junção de sambas é defendida por Feital: — Tem de haver um peso mais técnico, de conhecimento musical. Se harmônica e poeticamente há uma possibilidade de junção, não sou contra. Se você trabalhasse a melodia, a harmonia e a letra, o samba em questão teria um bom resultado, assim como deu certo com a Beija-Flor no último carnaval. Eles (Vila Isabel) devem ter avaliado que dava; por isso, não entendi a nova decisão. A medida gerou revolta entre os compositores agora preteridos. Em protesto, pelo menos três deles, Gustavinho, Simões e Thales, anunciaram que sairão da escola. "Confesso que fiquei pensando se, diante de tudo que aconteceu e de toda essa humilhação, deveria sentir vergonha ou qualquer coisa parecida. Posso afirmar, com todas as letras: não", escreveu Gustavinho, ao anunciar o encerramento de seu ciclo como compositor da Vila. "A tristeza fica, porque existe sentimento, história e amor envolvidos. Hoje, também fica para mim uma reflexão: em alguns momentos, parece que Martinho, André Diniz e Evandro Bocão são maiores do que a própria instituição", completou.
Thales Nunes, que nos últimos sete anos foi diretor geral da ala de compositores da agremiação, também desabafou: "Nos últimos 13 anos, ininterruptamente, disputo sambas em busca de um sonho que foi esvaziado dolorosamente (...). Estou envergonhado, mas ciente que só fiz meu papel de sonhador. Não pedi para que meu sonho fosse dilacerado. O amor pela instituição será eterno, talvez a dor também".
Gabriel Simões manifestou indignação: "Infelizmente, esta covardia foi feita, e estamos pagando o preço com humilhação".
O Globo