Unicef cobra ações após assassinato de adolescente que rejeitou assédio no interior do Ceará: 'Misoginia estrutural'

 

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A morte de Ana Kévile Nogueira Batista, de 17 anos, no interior do Ceará, levou o Unicef a se manifestar publicamente sobre o caso e cobrar respostas coordenadas contra a violência de gênero no Brasil. Em nota divulgada nesta terça-feira, a entidade afirmou que o assassinato da adolescente — morta a tiros após recusar o assédio de um homem, segundo relato de uma familiar — “não foi um acidente nem um crime isolado”, mas “a expressão mais brutal da misoginia estrutural que permeia a sociedade brasileira”.

Ana Kévile foi morta na noite de sábado, 25 de abril, em uma loja de conveniências de um posto de combustíveis em Deputado Irapuan Pinheiro, município a cerca de 350 quilômetros de Fortaleza.

Segundo uma familiar que estava com ela no momento do crime, um homem a assediou, ofereceu dinheiro para se relacionar com a adolescente e, após a recusa, atirou. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social informou que a jovem foi atingida por disparos de arma de fogo e morreu ainda no local.

O caso é investigado como feminicídio pela Delegacia de Polícia Civil de Senador Pompeu. Até a última atualização, o suspeito não havia sido localizado, e sua identidade não foi divulgada.

'Expressão brutal da misoginia estrutural'

Na nota, o Unicef relacionou a morte da adolescente a um quadro mais amplo de violência contra mulheres e meninas no país.

“Ana Kévile foi morta após recusar o assédio de um homem. Sua morte não foi um acidente nem um crime isolado. É a expressão mais brutal da misoginia estrutural que permeia a sociedade brasileira, alimentando a violência de gênero e a cultura de impunidade. O feminicídio de Ana Kévile é um lembrete doloroso de que a violência contra meninas e mulheres não é um problema delas, mas um problema de toda a sociedade, que exige respostas urgentes e coordenadas”, afirmou a entidade.

Unicef cobra ações após morte de Ana Kévile, adolescente que rejeitou assédio no interior do Ceará: 'Misoginia estrutural'

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O Unicef também declarou: “A morte da adolescente é a expressão mais extrema de uma cultura que pune meninas por dizer não. É mais uma vida interrompida, de uma menina que vinha inspirando outras crianças e adolescentes, e lutando por seus direitos.”

Ao mencionar dados de 2025 do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a entidade afirmou que o feminicídio “mata quatro mulheres por dia no Brasil, quase 1.500 por ano”. Em seguida, acrescentou: “O Brasil vive uma epidemia de violência de gênero. Isso não pode ser naturalizado.”

Política nacional de prevenção

Como resposta, o Unicef defendeu a criação e aprovação de uma política nacional de prevenção da violência contra adolescentes, com governança estabelecida, orçamento definido e atuação de longo prazo, integrando programas já existentes com um olhar de gênero, antirracista, intencional e intersetorial.

Também afirmou ser necessário investir “de forma sistemática, na formação de meninos e homens para relações baseadas no respeito e no cuidado”.

Ana Kévile participava havia seis anos do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (Nuca), estratégia ligada ao Selo Unicef voltada à participação cidadã e à defesa de direitos de meninas e meninos. Ao citar essa trajetória, a entidade fez um alerta sobre os limites da prevenção quando a mudança cultural não acompanha esse esforço.

“Isso não foi suficiente para protegê-la, porque prevenção da violência de gênero não depende apenas da menina que sabe dizer não, mas de uma sociedade que ensina meninos e homens a respeitar esse não”, declarou a instituição.

Aluna do 3º ano do Ensino Médio da rede pública, Ana Kévile também participava de grupos da igreja, atuava em atividades do município e trabalhava em uma distribuidora especializada em descartáveis, bebidas e frios.

Na manhã de segunda-feira, dia 27, uma multidão tomou as ruas de Deputado Irapuan Pinheiro para se despedir da adolescente, sepultada no cemitério municipal da cidade.