'É uma vivência de morte', explica psiquiatra sobre estupro coletivo no Rio
Os traumas de ser vítima de um crime bárbaro, como o de um estupro coletivo sofrido por uma adolescente em Copacabana, Zona Sul do Rio, podem ser irreversíveis. Psiquiatras ouvidos pelo GLOBO ainda contam como a premeditação para o estupro, apontada pelas investigações, revela a falta de empatia com a vítima. A polícia procura por quatro acusados de participação no estupro. São eles: Bruno Felipe dos Santos Allegretti, Vitor Hugo Oliveira Simonin, ambos de 18 anos, João Gabriel Bertho Xavier e Matheus Veríssimo Zoel Martins, os dois de 19.
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— A vivência de um estupro é de quase morte. Porque as barreiras humanas mínimas de moralidade, ética e convivência são abolidas. Quantas já terminaram mortas em uma situação parecida? — explica Ricardo Krause, psiquiatra da Infância e Adolescência.
O médico, vice-presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil e Profissões Afins (Abenepi), ainda explica que o fato dos adolescentes terem premeditado cometer o crime é um agravante: "a premeditação quer dizer tempo para se arrepender e refletir sobre as coisas", explica ele.
— Quando um jovem lança a mão de uma situação de confiança para atrair a vítima com essa premeditação, mostra uma total inconsequência, irresponsabilidade afetiva e um descompromisso com o outro — completa ele.
Psiquiatra forense da Universidade de São Paulo, Fábio Cantinelli explica ainda que em casos de estupro coletivo é comum que os criminosos tenham papéis diferentes no crime:
— Tem um líder, aquele que inicia a agressão, e esse pode ser realmente o cara que tem algum traço de psicopatia. Há os seguidores ativos, que participam diretamente, há alguns que ficam mais receosos e acabam ficando numa posição de espectador — mas sem impedir —, conta ele.
Os médicos ainda ressaltam que o grupo estuda em escolas conceituadas, que costumam passar bons valores a seus alunos:
— Em nenhum momento pensaram na dor dela. Eles certamente sabiam que estavam cometendo um crime.
Dois dos acusados são alunos do Colégio Pedro II, que afastou os alunos. Nesta segunda-feira, em meios às provas finais de 2025, a tensão entre os estudantes para garantir uma boa nota se somou ao peso de ter convivido diariamente com os acusados de participação no estupro.
— É assustador ver uma pessoa do seu dia a dia ter coragem de fazer algo tão brutal. Esses casos de estupro e de agressão contra mulheres estão cada vez mais perto da gente, e isso causa angústia, porque ficamos pensando que podemos ser as próximas. Moro muito longe, venho e volto sozinha todos os dias, pego transporte público. Imagina o que pode acontecer comigo? — desabafou uma aluna.
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Outro aluno contou que também ficou abalado com a notícia e afirmou que o impacto foi ainda maior para quem era próximo aos investigados, o que prejudicou o desempenho nas provas.
— É até um pouco difícil dormir. Ainda mais agora, com o pessoal vindo fazer as provas finais para concluir o ano letivo de 2025. Você chega à escola e lembra que essas pessoas estavam aqui até pouco tempo — relatou um estudante do ensino médio.
Uma representante do Grêmio Estudantil do Pedro II também relatou o clima tenso após a divulgação da notícia.
— O pessoal está num clima bem pesado, bem tenso. Conviver com alguém que, para a gente, era “conhecido” e, de repente, vira foragido, some da noite para o dia. Se pudesse, a escola daria o dia facultativo para a gente poder se recuperar da situação — contou.
