'Uma pessoa fundamental': amigos e familiares lamentam perda de Nelson Rodrigues Filho, morto aos 79 nesta quarta-feira
Morreu, na madrugada desta quarta-feira, aos 79 anos, o diretor de teatro, produtor cultural, roteirista e agitador de carnaval de rua Nelson Rodrigues Filho, ou Nelsinho. A informação foi divulgada pela coluna Ancelmo Gois. Carioca e tricolor, era filho do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), um dos maiores nomes do teatro brasileiro, e lutava desde 2024 contra sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC).
Ainda no início da vida adulta, Nelson Rodrigues Filho também teve o nome marcado na política. Durante a ditadura, ele militou no Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), onde atuou na clandestinidade até ser capturado e preso por sete anos. Em entrevistas, costumava afirmar que sobreviveu ao período graças ao prestígio do pai junto aos militares, sugerindo que isso teria evitado um desfecho mais trágico.
— Ele foi um personagem importantíssimo na luta contra a ditadura — conta o escritor, compositor e jornalista João Pimentel, ou ‘Janjão’, amigo íntimo de Nelsinho — Ele pegou em arma, foi preso, mas também foi uma pessoa fundamental durante a reabertura política, que é quando finalmente tivemos um Rio podendo ir para a rua com música, com poesia e alegria.
Após o período na prisão, Nelsinho passou a trabalhar com adaptações de obras do pai como na versão cinematográfica de 1981 do clássico "Bonitinha, mas Ordinária", dirigida por Braz Chediak. À partir da virada do século, também trabalhou na montagem teatral de “A Vida Como Ela É”, apontada como sua favorita do catálogo rodrigueano.
Apesar da relação entre pai e filho que marcou sua vida profissional, o diretor também construiu trajetória própria na cena cultural carioca. Entre seus legados mais conhecidos está o Bloco do Barbas, tradicional cortejo carnavalesco que desfila anualmente pelas ruas de Botafogo.
O bloco, que homenageia um bar que o diretor abriu com amigos e companheiros de militância na rua Álvaro Ramos, uma das mais tradicionais do bairro, é conhecido por combinar a folia com o bom-humor e a sátira política.
— Meu pai dizia que 'carnaval tem que ser sensual, carnaval tem que ser brincalhão e carnaval tem que dar um recado' — relembra Cristiane Rodrigues, ou 'Crica', filha única do diretor e atual responsável pelo ‘Barbas’ — Eu cresci sob as barbas de Nelsinho e sempre tive a percepção que ele era especial pela maneira como os outros o tratavam, então acho que o grande legado do meu pai é a relação dele com as pessoas.
Nas redes sociais, dirigentes de outras agremiações tradicionais da folia carioca também se despediram do diretor. "Salve Nelsinho e sua grande contribuição pra luta e pra festa na rua!", escreveu em um comentário o bloco Cordão do Boitatá.
'Nelsinho esteve na linha de frente das lutas pelo direito de ocupar a cidade com alegria, crítica e irreverência", diz uma homenagem publicada pela Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua do Rio de Janeiro, ou Sebastiana, de quem Nelsinho foi um dos fundadores. Ao fim da nota, a agremiação classifica o diretor como alguém que "resistiu, criou, iluminou e manteve vivo o Carnaval de rua".
Nelsinho estava internado desde a Quarta-feira de Cinzas no hospital Unimed Barra, na Barra da Tijuca, com um quadro de pneumonia e infecção urinária. Ele morreu na unidade.
O velório de Nelson Rodrigues Filho será realizado hoje na sede social do Fluminense, em Laranjeiras, das 9 às 15h. O enterro, que será no Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde também está enterrado seu pai, está marcado para às 17h.
