Uma caneta emagracedora contrabandeada é retirada de circulação a cada dois minutos no país, apontam PF e Receita
O número de “canetas emagrecedoras” irregulares apreendidas pela Polícia Federal nos quatro primeiros meses deste ano já superou todo o volume registrado ao longo de 2025. Dados obtidos pelo GLOBO junto à PF e à Receita Federal mostram que, até 23 de abril, 79.168 unidades haviam sido retidas — média de cerca de 700 por dia ou uma a cada dois minutos. No ano passado inteiro, foram 60.787 apreensões. Para os dois órgãos, a disparada evidencia o crescimento acelerado do mercado clandestino desses produtos.
'Retrocesso inimaginável': ministro do Meio Ambiente critica projetos de lei contra a fiscalização do desmatamento
Embriaguez e dívida de R$ 4 mil: como ex-prefeito em Goiás forjou sequestro para extorquir a própria família
Entre os itens apreendidos estão tanto medicamentos autorizados no Brasil para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, como Mounjaro e Ozempic, mas que entraram no país sem documentação, configurando contrabando, quanto compostos não autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (anvisa).
Desde o início do ano, a Anvisa realizou 11 inspeções em farmácias de manipulação e empresas importadoras para identificar irregularidades envolvendo medicamentos emagrecedores. Oito estabelecimentos foram interditados por falhas técnicas graves e ausência de controle de qualidade. Ao todo, foram apreendidas 1,3 milhão de unidades de medicamentos injetáveis irregulares, além da adoção de mais de 11 medidas proibitivas relacionadas à importação, comercialização e uso desses produtos.
Em abril, a Anvisa também participou de uma operação conjunta com a Polícia Federal em 12 estados. A ação identificou transações irregulares que movimentaram R$ 4,8 milhões em tirzepatida, quantidade suficiente para produzir mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis. Os agentes apreenderam ainda mais de 17 mil frascos manipulados irregularmente.
Atualmente, os únicos medicamentos registrados no Brasil com tirzepatida são o Mounjaro e o Mounjaro Multidose. Segundo a Anvisa, não há novos pedidos de registro para produtos com esse princípio ativo. Já os medicamentos autorizados com semaglutida são Ozempic, Rybelsus, Wegovy, Poviztra e Extensior. A agência ainda analisa 16 pedidos de registro de medicamentos com o mesmo insumo.
Durante a operação, investigadores identificaram em três estados a presença de retatrutida em aplicadores apreendidos. A substância ainda não foi lançada oficialmente nem registrada por qualquer agência reguladora no mundo.
Rotas do contrabando
Durante duas semanas, o GLOBO acompanhou grupos de venda, ouviu comerciantes, consumidores e investigadores e teve acesso a áudios que detalham como a mercadoria atravessa a fronteira e chega ao Rio de Janeiro. Embora não se conhecessem, os relatos descrevem uma dinâmica semelhante de compra, transporte e distribuição.
Segundo as investigações, parte da carga entra no Brasil pela Ponte da Amizade, principal ligação entre Ciudad del Este, no Paraguai, e Foz do Iguaçu, no Paraná. Já em território brasileiro, os produtos seguem por rodovias federais ou, na maioria dos casos, em voos domésticos até o Rio.
O delegado da Polícia Federal Sandro Luiz do Valle Pereira, que acompanha as apreensões no Aeroporto Internacional Tom Jobim, afirma que, dos 14 procedimentos instaurados este ano pela PF relacionados ao contrabando de canetas emagrecedoras, dez envolviam voos vindos de Foz do Iguaçu. Os demais tinham origem na Europa e nos Estados Unidos. Apenas nas últimas duas semanas, sete procedimentos foram abertos, com 415 medicamentos apreendidos.
— O interessante é que homens, mulheres e idosos tentam entrar com esses produtos. É um perfil muito difuso. Há pessoas que compram para consumo próprio e outras que trazem para revender a terceiros ou parentes — afirma o delegado.
Explosão no Rio
Os dados também mostram o avanço acelerado do mercado ilegal de canetas emagrecedoras no estado do Rio de Janeiro. A Receita Federal apreendeu 115 medicamentos emagrecedores em 2024. Em 2025, o número saltou para 1.026 unidades — alta de quase nove vezes — avaliadas em R$ 2,4 milhões.
A escalada continuou neste ano. Apenas entre janeiro e abril de 2026, já foram apreendidos 1.771 medicamentos, superando em mais de 70% todo o volume registrado no ano passado. A maior parte das retenções ocorreu no Galeão.
Os dados da Polícia Federal reforçam a tendência. Em 2025, foram apreendidos 794 medicamentos. Neste ano, até agora, já são 796 unidades. Segundo os investigadores, a principal rota do contrabando se repete na maioria dos casos: Paraguai, Foz do Iguaçu e Rio de Janeiro.
