Um Glorioso Mergulho à Fantasia com Shakira, Bad Bunny e a cabeça de Donald Trump: 'Nunca é só carnaval'
Quando a popstar Shakira foi anunciada aos berros pelas caixas de som na Prainha da Glória, não houve aclamação. Os populares ao redor ficaram um tanto desconfiados, analisando de alto a baixo e esperando para ver o que a moça ia fazer. Mas bastou ela agarrar o microfone e começar a cantar o megahit "Estoy aqui" que os ânimos mudaram. A explosão do público afogou até o barulho da aparelhagem e, enquanto a estrela daquele momento dançava entusiasmada a caminho do mar, a mestre de cerimônia gritava com justa preocupação: "Shakira, não mergulha de microfone!".
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A cantora colombiana, que fará um show na Praia de Copacabana em maio, foi a primeira grande homenageada no concurso do Glorioso Mergulho à Fantasia. Em sua terceira edição, o evento, que já conquistou um lugar cativo no calendário do carnaval carioca, realizado sempre no domingo seguinte à quarta-feira de cinzas, abriu a passarela nas areias quentes da Glória para uma constelação digna de tapete vermelho em Paris ou Los Angeles. Os figurinos e a entrega dos envolvidos estavam, com toda certeza, alguns patamares acima de qualquer cerimônia do showbiz.
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Teve desfile de "sósia" de Virginia Fonseca vestindo a camisa de Vini Jr. no Real Madrid, strip tease de folião trajado de Vincent Van Gogh, uma ovacionada alusão ao número de Bad Bunny no Super Bowl e um cômico tributo ao esquiador Lucas Pinheiro Braathen. Primeiro medalhista de ouro brasileiro em uma olimpíada de inverno, o atleta foi representado no Caribrejo por um folião que colocou bandeirolas da Beija Flor de Nilópolis dos dois lados da "pista" e ziguezagueou da Barraca do Boca, onde ficam os jurados, até se jogar de barriga nas águas turvas da Guanabara, causando um êxtase generalizado.
Participantes na passarela do Glorioso Mergulho à Fantasia
Lucas Bori
Mas o vencedor da tarde foi o artista visual Erick Prado, e não por menos. Com a mesma fantasia de "homem da rede" usada no ano passado, ele incrementou o seu look com "acessórios" que fizeram toda a diferença. No meio da sua evolução, o rapaz tirou de um saco preto a cabeça de Donald Trump e abriu uma faixa dizendo: "Mais fortes são os poderes do povo". A cena arrancou gritos de "é campeão" entre os populares, enquanto a cachola do presidente americano era jogada de um lado para outro. "Nunca é só carnaval", dizia o estandarte espetado na multidão de espectadores.
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Quando alguém foi à banca de jurados e criticou o repeteco da fantasia, a mestre de cerimônia rebateu de pronto: "Minha filha, o menino trouxe a cabeça do Trump! Você trouxe o quê?".
Durante uma entrevista para um canal de TV dos Estados Unidos, antes da cerimônia do Oscar no ano passado, a atriz Fernanda Torres, do totalmente premiado filme "Ainda estou aqui", falou sobre o seu orgulho por ter virado fantasia de carnaval no Brasil. Na análise da artista, receber essa homenagem é o auge da fama no país. De fato, a criatividade das ruas cariocas tem a expertise dessa curadoria. Em anos recentes, a honraria foi reservada a ícones do calibre de Ney Matogrosso, Amy Winehouse, Paola Oliveira, Papa Francisco e várias outras personalidades que chegaram lá.
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Mas também é verdade que o folião carioca vem usando menos fantasias. Na virada do século, houve uma renovação no carnaval quando blocos levaram a festa para ruas do Centro tocando marchinhas. Era um mar de piratas, borboletas, bailarinas, melindrosas palhaços, malandros e afins. Nos últimos anos, porém, principalmente entre foliões mais novos, isso vem se perdendo. As pessoas se enfeitam com arcos, maiôs, meias-arrastão, camisas floridas, muitas cores e glitter, mas sem se vestir de um personagem. Fica todo mundo lindo no Instagram, mas não tem tanta graça.
Folião com a fantasia do esquiador Lucas Braathen após seu mergulho na Glória
Lucas Bori
O concurso anual na Glória promove o uso da fantasia invocando a tradição dos mergulhos no mar com trajes de carnaval, algo que tinha caído no esquecimento. O evento também levanta discussão sobre as transformações urbanas daquele trecho da orla carioca. Tudo começa com um cortejo que sai do Clube de Regatas Boqueirão do Passeio, onde, antigamente, havia a Praia de Santa Luzia. De lá, o bloco navega pelo Aterro do Flamengo passando por outras faixas de areia soterradas ao longo das décadas, até chegar na Prainha da Glória, onde rola a disputa pelo caneco de melhor traje.
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Este ano, foram 20 participantes dando tudo de si no corredor formado pelo público da Barraca do Boca até o mar. Todo mundo fantasiado. A praia se torna um cenário de sonho possível apenas em fevereiro, com uma grande pipa colorida erguida no céu com a palavra: "CARNAVAL". Muito lindo.
Em sua terceira edição, o Glorioso Mergulho fincou a bandeira da galhofa no domingo pós-carnaval. Ano passado, o campeão absoluto foi um folião vestido de sugador de clitóris. Em 2026, a disputa foi mais acirrada. O homem da rede e o esquiador das areias levantaram a plateia, mas como não amar o camarada vestido de Kátia Flávia (a Godiva do Irajá)? Como não morrer de rir com o coletivo "CPI das Beths", de mulheres trajadas de Beth Carvalho, Beth Faria, Betty Boo e, Betty, a Feia, entre outras Beths? Esses dois concorrentes ficaram em segundo e terceiro lugar, respectivamente.
Já o Troféu Clóvis Bornay por aclamação popular foi para Cleuma Rocha e a fantasia "Debí tirar mas fotos", em alusão à performance de BadBunny no Super Bowl deste ano, com direito a uma imagem da recém-falecida avó da participante colada nas costas dela. Foi a idosa quem ensinou Cleuma a amar o carnaval. Pouca gente no público pescou essa homenagem à parente da competidora, mas assim que foliona surgiu na passarela com as cores do Brasil, de chapéu de palha e folhas verdes decorativas no corpo, ao som do megahit do cantor porto-riquenho, ninguém quis nem saber. Foi uma festa.
O corpo de jurados diante da passarela do Glorioso Mergulho à Fantasia
Lucas Bori
