Um em cada 10 eleitores ainda não definiu o voto. O que pensa quem pode definir a eleição? - QTU Questões do Universo

Um em cada 10 eleitores ainda não definiu o voto. O que pensa quem pode definir a eleição?

Fonte: Bandeira da fonte

O desabafo do estudante de direito Pedro Petersen resume o sentimento de uma parcela expressiva do eleitorado brasileiro às vésperas do pleito.
Acostumado a acompanhar debates e até a mudar de voto ouvindo as propostas dos candidatos, Pedro conta que, desta vez, sente que a escolha terá de ser feita no escuro, diante da falta de projetos concretos para o país.
"São só bandeiras e lados, ideologias vazias de quem não tem proposta.
Ninguém tem o caminho para salvar, ajudar ou melhorar o Brasil, só falácias e promessas que nunca foram cumpridas, de vários lados.
A indecisão é quase obrigatória porque realmente não tem opção.”
Essa sensação de ter poucas opções na mesa não é apenas dele.
A mais recente pesquisa Quaest aponta que um em cada dez brasileiros ainda está indeciso na modalidade estimulada, quando os nomes dos candidatos são apresentados ao entrevistado.

O perfil de quem adia a escolha tem mapa e gênero bem definidos.
A dúvida é significativamente maior entre o eleitorado feminino, onde a taxa de indecisos chega a catorze por cento, contra apenas seis por cento entre os homens.
Regionalmente, a hesitação se concentra entre eleitores do Sul e do Sudeste, região onde mora o estudante ouvido pela reportagem.
De acordo com o diretor de inteligência da Quaest, Guilherme Russo, o elevado número de eleitores ainda sem voto no Sudeste traz um componente de incerteza para essa eleição:
'Por que isso importa? É no estado de São Paulo, também na Região Metropolitana de Belo Horizonte e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, que está o eleitor mais independente e indeciso que vira o que a chama de 'eleitor bivotal', que realmente decide essa eleição.
Esse eleitor não gosta muito do Lula e também não gosta muito do Bolsonaro, mas votou no Bolsonaro em 18 e votou no Lula em 22.
Ele sempre fica muito receoso em fazer essa escolha.'
O índice de 10% de indecisos chama a atenção quando comparado ao medido nesta mesma altura da pré-campanha de 2022.
Em agosto daquele ano, apenas 6% dos eleitores não sabiam em quem votar na disputa liderada por Lula e Jair Bolsonaro.
Estamos falando de um contingente 66% maior de uma eleição presidencial para a outra.
O cientista político Marcos Ianoni aponta quais pilares podem definir os rumos desse eleitorado:
'A ropaganda eleitoral dos partidos e dos candidatos e os debates eleitorais, além do desdobramento do noticiário, dos fatos políticos na opinião pública, é que vão definir essa questão sobre como que os indecisos vão se comportar, o que mostra como a situação é ainda indefinida.'
Mas nem todo mundo que está indeciso compartilha do descontentamento radical de quem desacredita da política.
Para uma fatia do eleitorado, não ter escolhido um nome é sinônimo de critério.

É o caso da engenheira florestal Raquel Nogueira, moradora do Sudeste.

Acho que o principal é avaliar propostas que o candidato tem e a trajetória dele.
Enfim, são esses os dois fatores que vão definir o meu voto.
Essa é a avaliação, então estou sendo bem criteriosa.
(...) Digamos que eu já estou estudando cada candidato, mas você vai eliminando os candidatos.
Estou nesse momento de eliminar pra chegar a um'
Entender a cabeça de quem está desiludido, como o estudante Pedro, e de quem está calculando cada passo, como a engenheira Raquel, é o grande desafio do marketing político.
O especialista Alberto Lage, autor do livro Cabeça de Candidato, explica como os QGs das campanhas montam estratégias para furar a bolha da rejeição e tentar convencer quem ainda não se decidiu.
'Geralmente as campanhas trabalham com o conceito de quase-voto.
Entender o tipo de indeciso e o porquê da indecisão é o primeiro passo para tratar esse tipo de indecisão.
E a partir desses momentos as campanhas buscam essas estratégias de como virar o quase-eleitor de verdade, às vezes de como virar um detrator para alguém que até não vota, mas que pelo menos para de falar mal.'
Lage explica ainda que as campanhas fazem, a partir de agora, pesquisas qualitativas com pessoas indecisas para decifrá-las.
E, com isso, trabalham nelas de forma mais focada durante os cerca de 45 dias de campanha.

Com o avanço do calendário eleitoral em um país bastante polarizado, quem não carrega uma paixão ideológica passa a ter peso de ouro para quem busca o voto.
A pesquisa Genial/Quaest usada para embasar essa reportagem fez 2.004 entrevistas entre 31 de julho e 02 de agosto com eleitores de 16 anos ou mais.
A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais para mais ou menos.
O nível de confiança é de 95%.
O levantamento está registrado no TSE com o número BR-06591/2026.