Um dia após anúncio, Trump condiciona acordo nuclear com Arábia Saudita à normalização de relações com Israel

Um dia após anúncio, Trump condiciona acordo nuclear com Arábia Saudita à normalização de relações com Israel

Fonte: Bandeira



Apenas um dia após os Estados Unidos anunciarem um amplo acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que o pacto está condicionado à normalização das relações do reino com Israel por meio dos Acordos de Abraão.

A nova exigência foi anunciada nesta quinta-feira, um dia depois de o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, e seu homólogo saudita assinarem o acordo em Washington.

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Em publicação na rede Truth Social, Trump afirmou que o acordo “será aprovado, mas está totalmente condicionado à adesão da Arábia Saudita aos muito respeitados e bem-sucedidos Acordos de Abraão”, em referência à iniciativa lançada por ele para que países árabes reconheçam formalmente Israel.

O presidente ainda reiterou que o pacto não permitirá o enriquecimento de material nuclear e acrescentou que “os EUA não se opõem a instalações nucleares civis (sem enriquecimento)”.

A nova condição anunciada por Trump, porém, cria incertezas sobre a implementação do acordo.

A Arábia Saudita afirma há anos que só normalizará suas relações com Israel após o estabelecimento de um caminho claro para a criação de um Estado palestino.

O premier israelense, Benjamin Netanyahu, rejeita essa possibilidade.

Ainda assim, o Gabinete do primeiro-ministro reagiu ao anúncio de Trump afirmando, em publicação, que a adesão de Riad aos Acordos de Abraão representaria “um salto histórico rumo à paz no Oriente Médio”.

“A incorporação da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão representaria um avanço histórico rumo à paz no Oriente Médio”, afirmou o Gabinete.

“A ação militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o regime genocida de Teerã e a derrota, por Israel, do eixo terrorista do Irã criaram a possibilidade de ampliar o círculo da paz”.

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Os Acordos de Abraão, lançados durante o primeiro mandato de Trump, estabeleceram relações diplomáticas entre Israel e países árabes como Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein e Marrocos.

O americano tem intensificado a pressão para que a Arábia Saudita também integre a iniciativa, apesar de analistas considerarem remota, no cenário atual, a possibilidade de um avanço nas negociações sobre um Estado palestino.

O texto integral do acordo entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita não foi divulgado.

O comunicado emitido pelo Departamento de Energia dos EUA na quarta-feira, quando o pacto foi concluído, não fazia qualquer menção a Israel nem aos Acordos de Abraão.

Entenda o acordo

O acordo assinado na quarta-feira prevê a cooperação entre os dois países para o desenvolvimento de um programa nuclear de uso civil na Arábia Saudita.

Segundo informações divulgadas anteriormente, o pacto terá duração prevista de 30 anos e deverá envolver empresas americanas no desenvolvimento do setor nuclear saudita.

O texto ainda será submetido ao Congresso dos Estados Unidos, que poderá barrá-lo apenas com maioria suficiente para derrubar um eventual veto presidencial.

Segundo autoridades, empresas dos EUA fornecerão tecnologia, treinamento, assistência técnica e componentes necessários para o desenvolvimento do programa nuclear saudita.

A Westinghouse, que projeta muitos dos reatores nucleares exportados pelos EUA, é apontada como uma das principais beneficiadas.

O governo Trump estima que o acordo movimentará bilhões de dólares para a indústria americana.

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Ao mesmo tempo, o acordo também prevê restrições.

De acordo com informações divulgadas pela imprensa americana, a Arábia Saudita não poderá desenvolver sua própria tecnologia de enriquecimento nem adquiri-la de outros países durante um período de dez anos.

Além disso, os americanos construirão as instalações necessárias sem transferir aos sauditas a tecnologia considerada mais sensível.

Ainda que os termos centrais do acordo tenham sido anunciados, parte da negociação permanece sob sigilo.

Segundo o New York Times, o pacto inclui duas cartas paralelas negociadas entre ambos e cujos conteúdos não foram divulgados.

Washington argumenta que os documentos tratam de informações comerciais confidenciais e de questões sensíveis de segurança nacional.

Ainda assim, alguns integrantes do Congresso podem se recusar a votar o acordo caso os anexos permaneçam secretos.

Críticas ao acordo

Embora Trump tenha afirmado que o acordo não permitirá o enriquecimento de urânio, informações divulgadas por autoridades e pessoas familiarizadas com as negociações indicam que o pacto poderá abrir caminho para a construção de uma instalação de enriquecimento no reino, caso um estudo conjunto entre Estados Unidos e Arábia Saudita conclua que isso é necessário.

O texto também não inclui o Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), mecanismo que ampliaria as possibilidades de monitoramento.

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Em vez disso, os dois países negociaram um acordo bilateral de salvaguardas que, segundo autoridades americanas, mantém medidas de controle e não proliferação, mas exclui pontos que eram considerados problemáticos pelo governo saudita.

A decisão se afasta do que foi feito com os EAU, que em 2009 assinaram o chamado protocolo da AIEA ao firmar um acordo nuclear com Washington.

Firmado durante o governo Barack Obama, esse acordo é frequentemente citado como o “padrão ouro” da cooperação nuclear civil americana.


O anúncio provocou críticas de autoridades israelenses e levantou preocupações entre especialistas em não proliferação nuclear.

Para eles, a flexibilização das condições impostas aos sauditas representa uma mudança em relação aos padrões adotados pelos EUA em acordos anteriores e pode abrir precedente para que outros países reivindiquem condições semelhantes.

Especialistas também afirmam que as concessões podem alimentar temores de que Riad desenvolva, no futuro, capacidade para produzir material apto à fabricação de armas nucleares.

O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, governante de fato da Arábia Saudita, já declarou anteriormente que, caso o Irã obtenha uma bomba nuclear, o reino seguirá o mesmo caminho.

Especialistas ressaltam que o enriquecimento de urânio, por si só, não leva automaticamente à produção de uma arma atômica, mas representa uma etapa que pode permitir a militarização de um programa nuclear.

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Para especialistas ouvidos pela imprensa americana, o acordo também reflete mudanças mais amplas no cenário internacional.

Países aliados dos EUA têm discutido formas de ampliar suas capacidades nucleares diante do enfraquecimento da percepção sobre o compromisso americano com sua segurança, das tensões no Oriente Médio e das preocupações com a segurança energética após a guerra na Ucrânia e o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.

— Estamos de volta a uma era de dissuasão nuclear preventiva — disse Vipin Narang, professor de segurança nuclear e ciência política no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

— Há muitos países apreensivos diante de uma deterioração do cenário de segurança e sem saber se podem confiar em seus protetores formais ou informais.

Agora, vamos assistir a uma sucessão de Estados buscando a capacidade de desenvolver um programa militar.

O último país a ingressar no grupo de Estados com armas nucleares foi a Coreia do Norte, em 2006.

Ainda assim, analistas afirmam que o cenário indica o início de um novo período de risco, no qual o mercado global de tecnologia nuclear poderá tornar-se mais flexível e menos baseado em regras.

Países interessados em adquirir tecnologia nuclear, abalados pela mudança da postura internacional dos EUA, tendem a fazer exigências maiores, enquanto fornecedores concorrentes, como Rússia e China, poderão usar o precedente saudita para atendê-las.

— Isso está profundamente ligado ao dano que Trump causou à credibilidade dos Estados Unidos como garantidor de segurança — afirmou Gary Samore, professor de política da Universidade Brandeis e ex-assessor nas negociações de controle de armas durante os governos Barack Obama e Bill Clinton.

— Para mim, o perigo deste acordo está no precedente que ele cria.

O que impediria a Rússia de fechar um acordo semelhante?

(Com Bloomberg e New York Times)