Um carnaval pequeno, mas é meu: amigos, chope e purpurina

 

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Há uns anos procurava um bloco para chamar de meu no carnaval. Sim, sei que é o que mais tem na cidade. Que cada ano surge um punhado, e os que já existem ficam cada vez maiores. Mas precisava preencher o buraco deixado pelo Ceará que Sai, na Rua Ceará, e o Satisfazendo Corações, com concentração em frente ao Galeto Sat’s, em Copacabana. Um abria a terça-feira, o outro varava a madrugada. Os dois com amigos, chope, purpurina e churrasco.

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Comandando os espetos em jornada dupla estava Sérgio Rabello, ícone da boemia carioca e folião incorrigível. Ano passado, virou até enredo do bloco Corre Atrás, com seu rosto estampado em camisetas e tudo. Levou um banquete, chope e carisma para o desfile na orla do Leblon. Os mais íntimos garantem que ele tem até uma carteirinha de passista da ala do Pé Duro da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Em Copacabana, o churrasco era mais simples porque o bar estava ali de portas abertas até quase o dia amanhecer. Era só mandar brasa. Já na Rua Ceará, era preciso montar a churrasqueira numa garagem cedida pela vizinhança. Dava um pouco mais de trabalho, mas o importante era botar o bloco na rua.

Democrática que só, a banda do Ceará era formada na hora. Chegou com um instrumento, tocou. Só que o conjunto não tinha nada de tamborim mequetrefe, não. Num cortejo histórico (foram três apenas), o Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco Ceará, criado por Gualter Chamusca, rasgou as ruas da Vila Mimosa e arredores com ritmistas da Estácio de Sá e Gabriel da Muda no surdo de primeira. O repertório era combinado na hora, mas nunca decepcionava.

Quase sem intervalo, o povo seguia para a Barata Ribeiro 7 com sede de quem não queria que tudo se acabasse na quarta-feira. Com o tanque abastecido, mas a carcaça já um pouco danificada, o Satisfazendo Corações funcionava mais parado mesmo. Era meio como um ponto de encontro para os desgarrados do carnaval se atualizarem das novidades, arriscar um último gole, um beijo na boca ou os dois.

O bloco dava apenas uma voltinha no quarteirão mesmo. Só que, assim como a Banda de Ipanema tem sua parada estratégica em frente à Igreja Nossa Senhora da Paz para a hora do “Carinhoso”, o Satisfazendo Corações também fazia sua reverência a um dos pontos mais emblemáticos do bairro, a boate Barbarella. O povo parava na esquina e entoava uma adaptação da marchinha “A jardineira”. Na verdade, o coro só substituía a palavra jardineira pelo nome da finada casa de saliência. Quase uma piada de salão.

E foi também numa terça-feira, descendo da Casa da Glória, depois de um dia de piscina momesca com pouca esperança no coração, que encontrei um novo amor de carnaval: “É pequeno, mas é meu”. Inspirado no apelido de um dos donos do Quitanda Gastronomia, no Catete.

O bar, aliás, tem uma relação estreita com o samba. O Pequeno, que deu origem ao bloco, é o cara do tantã em várias rodas da cidade. João Martins é um dos músicos mais completos da sua geração. E Mariana Padrão sempre temperou as giras com seu talento.

Com samba próprio de autoria do João com Raul DiCaprio e bateria do mestre Keko, da União da Ilha, o bloco resgatou o espírito de brincar o carnaval. Simples e divertido. Tudo o que eu queria: amigos, chope e purpurina. Não teve churrasco, mas teve coxinha e baião do amor da Mariana Padrão, preenchendo qualquer buraco no coração.