Um apagão carnavalesco: Teve um baile na minha sala; a dúvida é se não acordei ou se participei

 

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Certa Quarta-feira de Cinzas acordei de sonhos intranquilos. O que terá acontecido? Olhei para o lado: a cama estava repleta de purpurina. Até aí, nada: uma típica Quarta-feira de Cinzas para quem é da folia. Como não é o meu caso, temos um problema. Só lembro de ter ido ao supermercado no sábado de manhã e, na volta, ter encontrado foliões a caminho de um bloco. Uma moça vestida de diabo parou na minha frente, me olhou de alto a baixo e disse:

— Já sei! Estocando alimentos para passar o carnaval revendo filmes antigos, né?

O que pensam os homens? As mulheres querem saber o que se passa na cabeça masculina e não conseguem

IA: o que é a inteligência artificial perto da malandragem natural?

"Que moça esperta, como será que ela descobriu?", me perguntei, enquanto ajeitava os bifocais, a camisa polo, a bermuda cargo e o sapatênis.

— Toma aqui umas vitaminas, tio, vão melhorar seu carnaval. Vi de longe que está precisando.

Mas que diaba gentil! Os comprimidos vinham soltos, num saquinho meio estropiado, mas como não confiar numa garota bonita vestida como o capeta? Cheguei em casa, comi algo — nada de comprimidos de estômago vazio, mamãe sempre diz — e tomei as tais vitaminas. Decidi deitar um pouco, era preciso repousar antes da intensa maratona audiovisual.

Daí até aquela Quarta-feira de Cinzas não lembro mais nada. Um apagão de quatro dias.

O quarto purpurinado mostrava que algo tinha acontecido, mas o quê? No chão, ao lado da cama, botas gigantes e um maiô prateado, escrito “Índia Potira”. Hummm... A própria Potira não está mais entre nós; deve ser alguma homenagem. Fiquei nostálgico: onde andarão Vera Furacão e Fernanda Terremoto? Saudades da Elvira Pagã.

Parece que não há mais ninguém na casa. Peraí... Será que esta fantasia... Até hoje, a minha maior loucura de carnaval foi usar meias vermelhas em 1987. Será que virei Índia Potira, depois de velho? Melhor ligar para o psicanalista e pedir rodada dupla.

Encontro outra fantasia no quarto. Opa! Só não entendo do que se trata: um turbante? Um paletó azul? Na sala deve ter mais pistas. De tanto confete e serpentina espalhados, parecia o final do baile do Quitandinha. Espanando a bagunça, encontro um maço de cigarros Chanceller, duas garrafas de Old Parr e um Topo Gigio. Talvez seja melhor deixar o psicanalista de lado e procurar um detetive. Ou um advogado.

No celular, um monte de áudios e mensagens pedindo o meu endereço. Estranho.

Encontro também uma fantasia de Inca Venusiano e outra de Agente 99. Não sei quem esteve aqui, mas começo a ter ideia da idade da turma. Essa gente não sossega o facho? Vou catando pistas: um chapéu de Jeannie é um gênio, uma fantasia de Garibaldo da Vila Sésamo, a peruca do Urso do Cabelo Duro. E essas meias de lurex de Dancing Days?

Teve um baile na minha sala, óbvio, a dúvida é se não acordei ou se participei. Continuo garimpando. Aparece um “diploma” manuscrito: “Grande vencedor do Desfile de Fantasias do Hotel Glória, categoria originalidade”. O meu nome está lá. Diz também que o prêmio são CDBs do Banco Master. Pelo visto a velha guarda também é metida a engraçadinha.

O tal diploma responde à dúvida sobre a minha participação: a fantasia de Herculano Quintanilha me deu o prêmio. Quem terá vencido na categoria luxo?

As vitaminas da diaba eram mesmo do balacobaco. Só me resta arrumar a bagunça e torcer para não ter vídeos do baile circulando por aí. Afinal, quem matou Salomão Hayalla?