Um a cada cinco veículos monitorados pela Civitas no Rio é clonado: como a tecnologia ajuda autoridades a desvendarem crimes
A conta é simples: qual é a velocidade média para um carro sair da Avenida Visconde de Albuquerque, no Leblon, e chegar à Estrada das Canárias, na Ilha do Governador, em apenas um minuto? Se o trajeto for feito em linha reta, passando por cima da Baía de Guanabara e ignorando a existência de trânsito, prédios e curvas, é necessária uma média de 1.242 km/h — mais rápido que a velocidade do som. O problema matemático não é uma questão de vestibular, mas um flagrante feito pela Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública (Civitas) que desafiaria as leis da física se não fossem dois veículos distintos com a mesma placa. Um deles era clonado, usado por criminosos para um sequestro-relâmpago na Barra da Tijuca.
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É uma ilegalidade comum no Rio: levantamento feito pelo órgão mostra que um a cada cinco veículos monitorados na cidade tem indício de ser clonado. Um dos braços da Civitas é justamente o chamado Cerco Eletrônico, que consegue rastrear em tempo real as placas que circulam pela capital fluminense. Uma autoridade policial ou judiciária pode pedir para uma placa ser incluída no sistema. A requisição é sempre feita de forma documental, por ofício. A partir da inserção, as 12 mil câmeras da prefeitura espalhadas pelas ruas começam a buscar o veículo cadastrado.
Rompendo a barreira do som
Editoria de Arte
Para apontar a suspeita de que é um carro clonado, o Cerco Eletrônico usa a física: se um mesmo veículo for flagrado em dois locais distintos cuja distância exigiria velocidade média superior a 110 km/h para ser percorrida, um alerta de possível clonagem é feito, e as informações são enviadas à autoridade que requisitou o monitoramento. Até o momento, 573 veículos foram identificados e, segundo a Civitas, em todos os casos em que o carro ou a moto foram abordados, foi constatado o crime. Atualmente, há 321 sendo monitorados pelo cerco.
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Cruzar informações
Davi Carreiro, chefe executivo da Civitas, explica que o foco é a vigilância e o auxílio à elucidação de crimes. Ele diz que as imagens captadas pelas câmeras são importantes, mas a informação gerada é ainda mais relevante:
— A riqueza está na linha da planilha. Os dados nos permitem cruzar as informações em massa.
Em um dia de semana, o sistema Civitas chega a ler dez milhões de placas em toda a cidade. Quando um dos veículos monitorados pelo Cerco Eletrônico é identificado, dois alertas são feitos: um sonoro dentro da Central e outro enviado à autoridade responsável pelo caso, como um investigador da polícia.
Na semana passada, a 15ª DP (Gávea) identificou o modus operandi de uma quadrilha que usava o veículo para fugir após roubos a farmácias na Zona Sul do Rio. Em um dos crimes, os bandidos chegaram a fazer funcionários reféns, em janeiro, para roubar canetas emagrecedoras. Ao identificar a placa do automóvel, ela foi inserida no Cerco Eletrônico em 15 de maio.
Taxista Jader Aquino é seguido por policiais da 15ª DP no Jardim Botânico
Reprodução
O sistema gerou 451 alertas, o que permitiu que a polícia soubesse os padrões de circulação do carro: geralmente à tarde e em bairros da Zona Sul. Em um flagrante, a mesma placa apareceu na Lagoa Rodrigo de Freitas e na Praia de Botafogo, o que ligou o sinal de alerta para a possibilidade de haver um veículo clonado. Para percorrer o percurso no tempo observado, seria preciso estar a uma velocidade média de 165 km/h.
Na quinta-feira passada, quando O GLOBO estava na Civitas, o sistema identificou que o carro circulava em Botafogo e começou a emitir os alertas sonoros. Poucos minutos depois, o motorista, Jader Aquino de Souza, que estava foragido, foi preso na Rua Voluntários da Pátria.
— A Civitas tem um papel importante, como outros sistemas de monitoramento das ruas. A polícia trabalha com evidência e provas. Queremos desvendar o crime, e tudo o que tiver ao nosso dispor nos ajuda a chegar mais rápido nos criminosos, como esses que usam os carros clonados — detalha Daniela Terra, titular da 15ª DP.
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Bonde interceptado
Uma outra investigação, da 18ª DP (Praça da Bandeira), levou ao Cerco Eletrônico placas de veículos ligados ao Terceiro Comando Puro (TCP). A suspeita dos agentes é que os carros estavam sendo usados para transporte de drogas e armas entre favelas da Zona Norte do Rio, como Complexo de Israel, Complexo da Maré e Morro do Dendê.
Perto das 11h de 5 de maio, os policiais receberam o alerta de que um dos veículos passava pela Estrada do Galeão, na Ilha do Governador: era dirigido por Patrick Mateus Del Pupo, preso em flagrante.
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Ele admitiu à polícia que o carro era clonado, por ter sido roubado. Disse, no entanto, que comprou a Pajero preta por R$ 13 mil em Bonsucesso.
“O veículo vinha sendo monitorado em ação conjunta de inteligência policial em razão de suspeitas de utilização em áreas dominadas por organização criminosa, contexto que incrementa a gravidade concreta dos fatos e sugere inserção dos custodiados em dinâmica criminosa mais ampla”, escreveu a juíza Júlia Lattouf de Almeida ao tornar a prisão em flagrante em preventiva.
Equipe da Civitas trabalha na análise de câmeras do Rio
Guito Moreto / Agência O Globo
Parcerias com a polícia
O monitoramento dos veículos sob investigação não é o único braço da Civitas. Em uma apuração sobre furtos de veículos na Cidade Universitária, a 37ª DP (Ilha do Governador) pediu auxílio para buscar identificar os possíveis autores do crime, que levavam cada carro roubado para ser desmanchado na Baixada Fluminense. Os desenvolvedores que trabalham na central conseguiram criar um sistema que mapeia quais veículos apareciam no mesmo intervalo em que os crimes aconteciam.
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Em um dos dias, após serem alertados pelo Cerco Eletrônico, os policiais chegaram no momento em que dois homens tentavam roubar mais um carro. Um deles chegou a admitir apenas um outro furto, mas a polícia conseguiu colocá-lo na cena de outros 16 furtos. Assim, o sistema consegue rastrear também veículos de apoio nos crimes.
O mesmo aconteceu com uma quadrilha de colombianos que realizavam assaltos com bigodes falsos e perucas em bairros da Ilha do Governador. Ao cruzar a placa do carro, identificada em um dos assaltos, com os registros de ocorrência de vítimas desse crime, a delegacia conseguiu ligar os seis acusados a outros roubos na região.
— Eles nos ajudaram a identificar o veículo usado no crime e a encontrá-los a partir do Cerco Eletrônico. O que acho de diferencial é que não é o monitoramento em tempo real e, sim, o trabalho de inteligência a partir das imagens. Isso agiliza nosso trabalho. Análises que demoraríamos horas fazendo, a Civitas conseguiu fazer em minutos — explica Felipe Santoro, titular da 37ª DP.
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A prefeitura planeja duplicar o número de câmeras inteligentes na cidade nos próximos dois anos, chegando a 25 mil equipamentos. Também está em fase de testes o treinamento de uma inteligência artificial que consegue descrever parte da imagem captada, como “homem; mochila; mangas longas”. No último mês, o novo sistema conseguiu descrever 1,6 milhão de objetos, com 88% de acerto no maior nível de confiança.
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