Ultraprocessados viram símbolo de 'infância feliz' em comunidades, aponta estudo do Unicef

 

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Alimentos ultraprocessados são frequentemente associados à ideia de "infância feliz" e conquista social em comunidades urbanas brasileiras, de acordo com um novo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A pesquisa ainda mostra que a rotulagem nutricional frontal — implementada no Brasil em 2022 para alertar de forma clara e rápida sobre nutrientes críticos em excesso — é pouco compreendida e raramente considerada nas decisões de compra, evidenciando o longo caminho ainda a percorrer para que a medida influencie escolhas saudáveis.

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De acordo com o Unicef, os primeiros anos de vida representam uma janela decisiva para a formação de hábitos saudáveis. Nesse período, crianças desenvolvem preferências alimentares, rotinas e práticas de brincar e se movimentar, oportunidades que precisam ser fortalecidas para consolidar padrões de alimentação e atividade física mais saudáveis até a vida adulta.

Esse processo, no entanto, tem enfrentado desafios como a ampla oferta de ultraprocessados e limitações no acesso a espaços seguros para brincar.

O estudo "Ultraprocessados e Infância: Barreiras e Caminhos para Hábitos Saudáveis em Comunidades Urbanas", realizado com apoio da Novo Nordisk, buscou justamente investigar os fatores culturais, sociais e estruturais que influenciam a alimentação e a prática de atividade física na primeira infância em três comunidades urbanas de diferentes regiões do país: Pavuna (Rio de Janeiro/RJ), Ibura (Recife/PE) e Guamá (Belém/PA).

Os dados mostram que o consumo de ultraprocessados é visto como conquista geracional. Os cuidadores buscam oferecer às crianças alimentos que não tiveram acesso em sua infância, associando itens como biscoitos e iogurtes saborizados a uma "infância feliz" ou "comida de criança", percepção reforçada por embalagens com personagens infantis.

"A gente só é criança uma vez e doce é gosto de infância, sabe?  A gente tem que prezar pela alimentação, mas é aquilo, é infância. Eu comia muito doce, eu amava. Hoje em dia, não.", diz uma das entrevistadas.

Os dados mostram que o consumo de ultraprocessados está amplamente presente no cotidiano de meninas e meninos. A hora do lanche é o principal momento de consumo desses alimentos, com 50% das crianças consumindo ultraprocessados nessa refeição, em seguida está o café da manhã, com 27% e as refeições principais - almoço e jantar - com 13%.

Entre os itens mais citados estão achocolatado, bebidas prontas, biscoito recheado, iogurte saborizado, suco de caixinha, biscoito maisena, refrigerante e salgadinho. Nos lanches, em especial, a pesquisa apontou que, muitas vezes, as próprias crianças escolhem o produto com acesso direto ao armário ou geladeira.

Ao mesmo tempo, a grande maioria dos entrevistados (84%) se considera muito preocupada em manter uma alimentação saudável para a família. No entanto, 55% nunca olham o rótulo que informa alta presença de açúcar, gordura ou calorias e 62% dizem nunca ter deixado de comprar um produto por causa da identificação.

Em grande parte, isso ocorre devido ao desconhecimento. Ao serem perguntados se alimentos com o rótulo são mais ou menos saudáveis que aqueles sem o símbolo, 26% dos entrevistados disseram não saber e 8% consideraram que alimentos com a lupa são, na verdade, mais saudáveis.

Além disso, muitas vezes, essa escolha é feita com a compreensão de que esses produtos são bons para saúde, o que a pesquisa denomina como "falsos saudáveis". Entre os exemplos, 52% dos entrevistados consideraram saudável o iogurte com sabor e 49% os nuggets, se preparados na fritadeira elétrica, popularmente conhecida como air fryer. Suco com açúcare peixe frito também são considerados saudáveis.

Além disso, fatores como a percepção de preço dos alimentos e a sobrecarga materna, se inserindo em um cenário preocupante de saúde pública também influenciam a compra de alimentos.

“O estudo mostra, de forma clara, que escolhas alimentares não são apenas individuais, mas moldadas pelo ambiente, com influência de fatores como contexto familiar, acesso, preço, qualidade da informação e dos espaços disponíveis", destaca Luciana Phebo, chefe da área de Saúde e Nutrição no UNICEF Brasil, reforçando ser fundamental a construção de hábitos saudáveis ainda nos primeiros anos de vida, em comunicado.

A obesidade já é a forma mais prevalente de má nutrição entre crianças e adolescentes no Brasil e tem crescido de forma acelerada. Em 2023, 13,5% das crianças de 0 a 5 anos apresentavam excesso de peso, percentual que chega a 31,2% entre adolescentes, segundo informações do Ministério da Saúde.

"A prevenção das doenças crônicas graves, como a obesidade, deve começar ainda na infância. Este estudo evidencia que soluções para promover ambientes mais saudáveis precisam considerar os múltiplos fatores que influenciam o bem-estar de crianças e adolescentes. E para que essas iniciativas sejam efetivas e sustentáveis, é fundamental a colaboração entre diferentes atores da sociedade", afirma Patricia Byington, Head de Sustentabilidade da Novo Nordisk no Brasil.

Ao analisar os fatores que influenciam a adoção de hábitos mais saudáveis, a pesquisa identificou barreiras e facilitadores. Entre os desafios está a priorização dos ultraprocessados nas compras cotidianas por conveniência e percepção de preço.

O estudo também evidencia desafios estruturais, como a limitação de redes de apoio e a sobrecarga das mães, principais responsáveis pelo cuidado das crianças, e a falta de espaços seguros e adequados para o livre brincar e a prática de atividade física em comunidades urbanas.

Como pontos fortes favoráveis à infância, o estudo destaca a cultura alimentar brasileira baseada em refeições caseiras, como o arroz e feijão, que permanece como um pilar da qualidade da dieta, além de políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que ampliam o acesso a refeições mais saudáveis.

Atividade física

O estudo aponta amplo reconhecimento sobre a importância da atividade física para as crianças. Dos entrevistados, 89% concordaram que sua prática reduz riscos de problemas de saúde. No entanto, insegurança e falta de infraestrutura são as principais barreiras ambientais para a prática.

Embora 57% identifiquem espaços disponíveis nas proximidades, questões como falta de manutenção, iluminação precária e violência surgem como barreiras ao uso. Ainda assim, os entrevistados afirmam que as crianças utilizam as áreas dos bairros para brincar, geralmente sem rotina ou horário fixo.

Iniciativas comunitárias e o apoio da vizinhança são citados como fatores fundamentais para viabilizar a prática de atividade física na primeira infância, seja por meio de projetos sociais ou redes locais que criam oportunidades e garantem segurança para o brincar. O estudo também aponta questões de gênero como um obstáculo desde a infância, com meninas mais associadas a brincadeiras sedentárias, como boneca ou conversa, além da sobrecarga doméstica que também impacta a disponibilidade à medida que crescem.

Diante dessas constatações, o estudo apresenta recomendações nos níveis político e regulatório, institucional e comunitário, com o objetivo de apoiar estratégias mais eficazes desde o nível nacional ao território local, ampliando o acesso a oportunidades mais saudáveis para as famílias.

Fortalecer a regulação de alimentos ultraprocessados: O estudo reforça a necessidade de avançar na regulação da publicidade infantil, na tributação de ultraprocessados e na promoção de ambientes escolares saudáveis, reduzindo a exposição e o consumo desses produtos.

Expandir creches e escolas em tempo integral: Mais tempo na escola amplia oportunidades de alimentação adequada e cuidado. A ampliação da educação infantil e da jornada escolar fortalece redes de apoio às famílias, reduz sobrecargas, especialmente sobre as mulheres, e contribui para a proteção e promoção de hábitos saudáveis.

Qualificar e garantir segurança de espaços públicos para atividade física: Ambientes seguros são fundamentais para o brincar e o movimento. A melhoria da infraestrutura urbana e da segurança em territórios vulneráveis são essenciais para a ampliação da prática de atividade física entre crianças e suas famílias.

Fortalecer a orientação alimentar nos serviços de saúde: Informação qualificada desde o início da vida faz diferença. O estudo aponta a importância de ampliar o aconselhamento alimentar, desde a gestação, de forma a promover informação de qualidade, evitar a introdução precoce de ultraprocessados, e influenciar a adoção de hábitos saudáveis desde o início da vida.

Apoiar iniciativas de lideranças comunitárias: Fortalecer ações locais — como hortas, feiras, atividades esportivas e redes de apoio — amplia o acesso a alimentos saudáveis e incentiva práticas de atividade física nos territórios.

Ampliar a compreensão e o uso da rotulagem frontal: A informação precisa ser acessível para orientar escolhas. O estudo indica a necessidade de campanhas e ações educativas que expliquem, de forma clara, o significado da rotulagem e seu uso no dia a dia e recomenda o monitoramento da efetividade da rotulagem frontal, considerando seus critérios nutricionais e formato dos alertas.

Investir em comunicação para mudança de comportamento: Estratégias de comunicação devem considerar a realidade das famílias, usar linguagem simples e abordar desafios práticos, como identificar "falsos saudáveis" e melhorar formas de preparo.