Ucrânia e Rússia anunciam tréguas temporárias distintas em meio a ameaça de ataque contra desfile militar em Moscou
Rússia e Ucrânia anunciaram tréguas distintas nos próximos dias, em meio a rumores sobre um ousado ataque contra a Rússia no fim de semana, e a ameaças de retaliações contra Kiev. Os russos querem interromper os combates durante as celebrações do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, no sábado, mas os ucranianos dizem que a suspensão será observada dias antes, sem afastar a possibilidade de lançarem drones contra a Praça Vermelha.
"Até o momento, não houve nenhum apelo oficial à Ucrânia sobre a modalidade de cessação das hostilidades que vem sendo reivindicada nas redes sociais russas. Acreditamos que a vida humana é muito mais valiosa do que qualquer 'celebração" de aniversário'", disse o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, na rede social X, nesta segunda-feira. "Nesse sentido, anunciamos um regime de cessar-fogo a partir da meia-noite de 5 para 6 de maio. No tempo restante até esse momento, é realista garantir que o silêncio se faça sentir."
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Horas antes, o Ministério da Defesa da Rússia anunciou em suas redes sociais que "de acordo com a decisão do Comandante Supremo das Forças Armadas da Federação Russa, Vladimir Putin, um cessar-fogo será declarado nos dias 8 e 9 de maio de 2026", coincidindo com os festejos do Dia da Vitória, uma tradição com origens na União Soviética que se tornou símbolo do atual governo. Na mensagem, Moscou dizia esperar "que o lado ucraniano siga o exemplo", o que claramente não fará.
A declaração de duas pausas distintas acompanha suspeitas crescentes de que a Ucrânia planeja uma ação de grande porte contra a capital russa no sábado, replicando os ataques com drones que atingem pontos cada vez mais distantes do país. Na semana passada, os armamentos danificaram instalações de gás em Perm, a mais de 1,5 mil km do território ucraniano, e uma agência local, Astra, disse que "todas as regiões onde empresas apoiam a guerra contra a Ucrânia estão ao seu alcance".
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Um medo explorado por Zelensky em Erevã, na Armênia, durante reunião de lideranças europeias nesta segunda-feira.
— A Rússia anunciou um desfile em Moscou no dia 9 de maio sem equipamentos militares — afirmou. — Eles não têm recursos para adquirir equipamentos militares, e temem que drones possam sobrevoar a Praça Vermelha. Isso é revelador. Mostra que eles não são fortes agora.
O comentário do líder ucraniano foi citado no anúncio do Ministério da Defesa da Rússia.
"Tomamos nota da declaração feita pelo chefe do regime de Kiev em Erevã, na cúpula da Comunidade Política Europeia, que contém ameaças de atacar Moscou especificamente no dia 9 de maio", diz o texto. "Caso o regime de Kiev tente implementar seus planos criminosos para interromper a celebração do 81º aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica, as Forças Armadas Russas lançarão um ataque retaliatório maciço com mísseis contra o centro de Kiev."
Ao contrário de anos anteriores, o desfile militar na Praça Vermelha não terá veículos blindados e armamentos pesados, como mísseis intercontinentais, e a lista de convidados de Putin foi reduzida. Segundo o jornal britânico Financial Times, o líder russo teme ser assassinado, e incrementou seu aparato de segurança, além de restringir seus movimentos internos. Operadoras de telefonia móvel começaram a informar seus clientes que os serviços de internet móvel e envio de mensagens por SMS estarão restritos entre 5 e 9 de maio — os recentes bloqueios, que raramente trazem explicações oficiais, já provocam críticas públicas ao Kremlin.
A troca de ameaças vem em um momento de estagnação na guerra. As forças russas, em meio a uma ofensiva de primavera, enfrentam dificuldades para avançar por terra e para manter posições conquistadas em meses ou anos anteriores. Números do Instituto para o Estudo da Guerra mostram que Moscou perdeu uma pequena fração das áreas ocupadas em 2026. Os ucranianos, por sua vez, lançaram drones contra instalações energéticas dentro da Rússia, e foram acusados de causar um desastre ambiental em Tuapse, na costa do Mar Negro, onde houve vazamento de petróleo e foi registrada a ocorrência de "chuva negra", causada em ambientes de intensa contaminação do ar.
No campo diplomático, as negociações estão congeladas há meses, e o presidente dos EUA, Donald Trump, que se apresentava como o facilitador do diálogo, parece mais interessado em seu conflito no Oriente Médio contra o Irã, do qual não encontra um caminho simples para sair.
