Turismo na Groenlândia? Saiba o que fazer na ilha mais cobiçada do momento

 

Fonte:


Alvo de uma intensa disputa geopolítica entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e países europeus — especialmente a Dinamarca, que oficialmente controla o território —, a Groenlândia tem aparecido como nunca no noticiário nas últimas semanas. Mas, para além de uma posição estratégica no Ártico e possíveis riquezas minerais, a maior ilha do mundo também vem despertando muito interesse enquanto destino turístico.

Impasse. Para o turismo na Groenlândia, o interesse de Trump gera incerteza

Noruega. Túnel mais longo do mundo leva motoristas a 20 minutos sem ver a luz do dia

Com 2,16 milhões de quilômetros quadrados (equivalente à soma dos estados do Amazonas e da Bahia, por exemplo) e menos de 60 mil habitantes, a Groenlândia se destaca nos mapas e no cenário do turismo de natureza. E apesar de ter sido batizada de “terra verde” pelos primeiros colonos nórdicos, mais de 500 anos antes de Colombo, a ilha tem cerca de 80% de sua superfície ainda coberta por gelo, dando um ar quase infinito para suas geleiras e fiordes praticamente intocados. Este cenário, combinado com a riqueza cultural do povo inuíte, vem ajudando o território dinamarquês a se firmar como um destino promissor.

Guia inuíte faz uma demonstração da técnica de pesca tradicional no gelo no fiorde de Ilulissat, na Groenlândia

Reprodução/Visit Greenland/Unsplash

Desde o começo da década, a ilha vinha registrando aumento nos números de visitantes ano a ano. Especialmente após 2024, quando a capital Nuuk ganhou um novo aeroporto com capacidade de receber mais voos internacionais, o que permitiu, por exemplo, uma nova rota diária a partir de Nova York pela United Airlines, aproximando o território dinamarquês ainda mais do público das Américas. Ainda assim, a oferta maior de voos continua sendo a partir de países escandinavos. Outra forma cada vez mais frequente de se chegar até lá é a bordo de cruzeiros marítimos, tanto por companhias regulares quanto por empresas de luxo, que vêm aumentando sua presença na ilha devido ao aquecimento global, que permite a maior navegabilidade no Ártico.

O recente interesse de Donald Trump em anexar a ilha ao território dos Estados Unidos, no entanto, tem causado certo temor na crescente indústria turística groenlandesa. Ao New York Times, empresários do setor disseram que o número de consultas e reservas caiu nos últimos meses. Apesar da instabilidade provocada pelas declarações recentes de Trump, a ilha ainda é vista como uma próxima fronteira a ser explorada pelo turismo, especialmente no segmento de luxo — é muito difícil desbravar este território quase sem estradas sem desembolsar alguns milhares de dólares em excursões guiadas e viagens de barco e pequenos aviões.

Céu iluminado

Aurora boreal vista em Nuuk, a capital da Groenlândia, onde vive metade da população do território dinamarquês

Reprodução/Visit Greenland/Unsplash

Quem visita a ilha no inverno precisa encarar temperaturas que variam entre -30°C e -10°C, podendo chegar a -50°C no interior. Mas a recompensa vem do céu, na forma de aurora boreal, cuja temporada costuma começar no final de agosto e vai até abril. Pouquíssimo povoada e com mais da metade do território acima do Círculo Polar Ártico, a ilha dinamarquesa é um dos melhores lugares do mundo para observar o fenômeno meteorológico, graças a seu céu limpo e escuro.

Muita gente vai até a remota Kangerlussuaq, com menos de 600 moradores, na costa oeste, para observar o fenômeno, graças ao microclima mais seco, que permitiria ao menos 300 noites de céu limpo por ano. Porém, é possível observar bem as luzes de qualquer ponto da ilha, inclusive na capital Nuuk, lar de metade dos quase 60 mil habitantes da Groenlândia, seja caminhando pelas ruas da cidade, seja de dentro de cabanas com teto de vidro.

Vida selvagem

Baleia num dos fiordes da Groenlândia: temporada de observação acontece de junho a setembro

Reprodução/François Falanga/Unsplash

Já a curta temporada de verão, basicamente entre começo de junho e final de agosto, tem temperaturas mais “suaves”, entre 5°C e 15°C (mas raramente acima dos 20°C no litoral) e um dia sem fim, onde o sol não se põe por completo. Por isso é a melhor época para uma das principais atividades da ilha, a observação da vida selvagem.

O avistamento de baleias está entre os programas preferidos pelos viajantes. Pelo menos 15 espécies lotam as costas groenlandesas entre junho e setembro, especialmente as baleias-jubarte, baleias-minke e baleias-fin. Esses imensos mamíferos marinhos se concentram em fiordes e chegam bem perto a áreas próximas à costa, podendo ser encontrados em passeios de barco relativamente curtos. Há muitas opções saindo de Nuuk, mas um dos melhores pontos para esse tipo de excursão é a Baía de Disko, também no litoral oeste.

Urso-polar nos arredores da ilha de Qulleq, na costa oeste da Groenlândia

Reprodução/Aningaaq R. Carlsen/Visit Greenland/Facebook

Se a ideia é ficar cara a cara, mas numa distância segura, dos predadores mais ferozes da Terra, o viajante deve buscar excursões que levem à pouquíssimo povoada (até para os padrões locais) costa leste, território dos ursos-polares. Em locais como a pequena ilha de Qulleq, é possível ver esses animais em blocos de gelo e caçando focas e leões-marinhos, ou simplesmente relaxando sob o sol.

Em excursões pelo interior, é possível observar, soltos na natureza, outros belos animais como renas, raposas, lobos, lebres e o imponente boi-almiscarado, uma espécie de caprino robusto que se destaca por seu pelo longo e seus chifres curvados para baixo.

Gelo por todo lado

Veleiro navega num fiorde tomado por icebergs na Groenlândia

Reprodução/Hector John Periquin/Unsplash

Em qualquer época do ano, o gelo é um atrativo turístico importante na ilha, que é quase toda coberta pela Calota Polar da Groenlândia, a segunda maior massa de gelo do mundo, atrás apenas da Antártica. Sobrevoos de helicóptero, excursões de trenós puxados a cachorros ou snowmobile, e até mesmo caminhadas, com grampos especiais para as botas, estão entre as atividades oferecidas por muitas agências em toda a ilha. Kangerlussuaq, o povoado da aurora boreal, também é conhecido como base para esse tipo de atividade.

Também são bastante procurados os passeios para ver de perto os incontáveis icebergs que flutuam em toda a costa groenlandesa, depois de se desprenderem das geleiras — em ritmo cada vez mais rápido, por conta do aquecimento global. A maneira mais comum é a bordo de embarcações de todo o tipo, de navios de cruzeiro de porte médio a botes infláveis e até mesmo veleiros. Mas há quem se anime a chegar perto dessas montanhas de gelo de dezenas de metros de altura em caiaques, ao melhor estilo local.

Uma das maiores concentrações de icebergs da ilha fica na Baía de Disko, mas nenhum outro destino é tão popular entre os visitantes como a cidade de Ilulissat, que ganhou fama internacional em 2004, quando seu fiorde de gelo com o mesmo nome entrou para a lista de Patrimônio Mundial pela Unesco. O reconhecimento se deu não apenas pela beleza do lugar, mas pela importância geológica da área de mais de três mil quilômetros quadrados, que abriga a geleira Sermeq Kujalleq, uma das mais ativas do mundo. Isso significa que, de qualquer um dos muitos mirantes naturais acessados por trilhas costeiras, ou mesmo do mar, é possível ver blocos de gelo do tamanho de arranha-céus se desprendendo a todo instante.

‘Vikings’ e inuítes

Estátua em homenagem a Erik, o Vermelho, em Qassiarsuk, local onde ele assentou a primeira colônia nórdica na Groenlândia, em 986

Reprodução/Bogeyfvs/Pixabay

Os registros históricos apontam que, no ano de 986, um explorador norueguês que vivia na Islândia, conhecido como Erik, o Vermelho, desembarcou no extremo sul do atual território groenlandês acompanhado por familiares e servos. O grupo estabeleceu pequenas colônias costeiras a partir do local hoje conhecido como Qassiarsuk, onde ainda se encontram ruínas de casas, igrejas e uma estátua (moderna) do desbravador.

Erik batizou a região de “Terra Verde”, nome que parece mesmo uma jogada de marketing para atrair outros colonos nórdicos. A ciência, no entanto, já comprovou que a região dos primeiros assentamentos era de fato mais quente do que atualmente, sendo um ambiente propício para criação de ovelhas e plantação de grãos, como o da cevada. Ou seja, os nórdicos que viveram ali eram mais agricultores, pescadores e pastores do que os guerreiros vikings propriamente ditos.

Cachorros puxam trenó em campo coberto por neve na Groenlândia

Reprodução/ToppGrafisk/Pixabay

Já os antepassados dos atuais inuítes, principal grupo étnico da ilha, chegaram à Groenlândia por volta do século XII, vindos do Norte do Canadá e do Alasca. É possível aprender sobre sua história no Museu Nacional de Nuuk, mas também vale a pena conhecer mais de perto o estilo de vida local. Em cidades como Ilulissat, Tasiilaq e Sisimiut é possível experimentar a culinária da região, apreciar o artesanato e participar de atividades como passeios de trenós puxados por cachorros e a pesca tradicional, para descobrir como esse povo conseguiu se estabelecer e dominar um território tão inóspito, que hoje está sob os holofotes do mundo.