Tumba zapoteca de 1.400 anos ressurge no México e é apontada como a maior descoberta arqueológica da década
Como uma tumba pode atravessar 14 séculos e reaparecer quase intacta? Nos Vales Centrais de Oaxaca, no sul do México, arqueólogos anunciaram, neste mês de janeiro, a descoberta de uma sepultura zapoteca de cerca de 1.400 anos, descrita como “a descoberta arqueológica mais significativa da última década”. A estrutura de pedra havia se perdido na história e agora reaparece com esculturas, murais e símbolos de forte caráter ritual.
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Construída pela cultura zapoteca — que se autodenominava Be’ena’a, ou “O Povo das Nuvens” —, a tumba reflete a crença de que os ancestrais desceram das nuvens e, após a morte, retornavam aos céus como espíritos. Na entrada, uma enorme coruja esculpida, com o bico aberto revelando o rosto de um senhor zapoteca, simboliza morte e poder, segundo o Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH). O acesso é marcado por verga e limiar de pedra, acima dos quais um friso com placas gravadas exibe antigos nomes calendáricos.
Rituais, símbolos e preservação
Flanqueando a entrada, figuras de um homem e uma mulher com cocares e objetos rituais — possivelmente guardiões do túmulo — conduzem à câmara funerária, onde trechos de um mural vibrante permanecem preservados. A pintura mostra uma procissão de personagens carregando feixes de copal, resina usada em cerimônias, avançando em direção à entrada da tumba. Para a presidente do México, Claudia Sheinbaum Pardo, “esta é a descoberta arqueológica mais importante da última década no México, devido ao seu nível de preservação e às informações que fornece”.
A secretária de Cultura, Claudia Curiel de Icaza, atribuiu o caráter “excepcional” da descoberta ao estado de conservação, destacando que o achado revela a organização social e os rituais funerários zapotecas. “É um exemplo fascinante da antiga grandeza do México, que agora está sendo pesquisada, protegida e compartilhada com a sociedade”, afirmou. Uma equipe interdisciplinar do Centro INAH de Oaxaca atua na conservação do sítio, com atenção à pintura mural, considerada frágil devido a raízes, insetos e variações de temperatura e umidade. Paralelamente, estudos cerâmicos, iconográficos e epigráficos, além de análises de antropologia física, buscam ampliar a compreensão das práticas funerárias.
Com mais de 2.500 anos de história, os zapotecas ergueram uma das grandes civilizações pré-colombianas, centrada em Monte Albán, com agricultura e escrita avançadas. A civilização entrou em declínio por volta de 900 d.C., mas não desapareceu: hoje, ao menos 400 mil pessoas se identificam como zapotecas.
A descoberta se soma a outra revelação recente na região. Em 2024, arqueólogos anunciaram a identificação de câmaras e túneis subterrâneos em Mitla — cujo nome significa “lugar dos mortos” — sob uma igreja construída pelos espanhóis no século XVI sobre um antigo templo. Segundo Marco Vigato, fundador do Projeto ARX, alguns túneis “se estendem a uma profundidade considerável, superior a 15 metros”. As estruturas foram detectadas por métodos não invasivos, como radar de penetração no solo e tomografias elétrica e sísmica, mas a idade exata ainda é desconhecida. “Podem ter sido criadas pelos zapotecas, ou podem ser muito mais antigas”, disse Vigato, ressaltando que os resultados precisam ser confirmados por escavações arqueológicas.
