Desde 2020 orcas assombram navegantes em Portugal e Espanha. Elas já abalroaram centenas de barcos, nove dos quais afundaram. E, quase sempre, as orcas exibiram aos tripulantes apavorados os restos das embarcações, como troféus. Parecem ataques de fúria e há quem tenha cogitado ser vingança por colisões com iates ou captura acidental em redes de pesca. Mas um novo estudo propõe que é tudo brincadeira, uma nova e perigosa forma que esses cetáceos encontraram para se divertir. O GLOBO no Mundo: receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Ferramenta do GLOBO reúne informações sobre custo e qualidade de vida, salários, vistos, oportunidades e características de 36 países A pesquisa publicada na revista científica Marine Mammal Science incluiu filmagens subaquáticas e observações diretas. Joana Castro e seus colegas passaram oito anos acompanhando as orcas do litoral ibérico e já as investigavam quando começaram os primeiros casos de golpes em barcos. Para os pesquisadores, as orcas não tiveram intenção de machucar os seres humanos. Em vez disso, elas provavelmente só queriam brincar, afirma no estudo Castro, cientista da Associação para a Investigação do Meio Marinho de Portugal (AIMM) e da Universidade de Lisboa.
Em alguns casos, as orcas até trouxeram presentes para os navegadores, como pedaços de atum. Mimos que quem estava a bordo das embarcações atingidas — a maioria veleiros — não parece ter apreciado.
O estudo também sugere que o jogo de colidir com barco pode estar sendo ensinado às novas gerações. Vídeo: grupo de orcas atacam veleiro por oito minutos na costa da Espanha e quebram metade do leme Esse comportamento, benigno ou não, criou um clima de hostilidade no litoral ibérico e colocou em risco a existência da população local de orcas. Elas pertencem a um subgrupo geneticamente distinto chamado de orca-ibérica, criticamente ameaçado de extinção. Restam apenas cerca de 40 indivíduos. Proprietários e tripulantes das embarcações golpeadas, quase todas avariadas, com marcas de dentes no casco e lemes arrancados, acreditam que se trate de vingança. E navegantes do litoral ibérico, por medo ou retaliação, têm dado tiros ou lançado explosivos contra os animais.
Também chamadas de baleias assassinas, as orcas (Orcinus orca) não são nem baleias nem assassinas. Não existem registros de ataques fatais de orcas a pessoas na natureza. Os casos conhecidos aconteceram em cativeiro, em situações consideradas extremamente estressantes para esses mamíferos marinhos. Vídeo mostra o momento em que baleia orca ataca e devora tubarão branco na África do Sul As orcas são parentes dos golfinhos, e, junto com eles, consideradas os animais mais inteligentes do mundo depois do ser humano. Já se sabia que elas gostam de brincar e fazem coisas como exibir salmões sobre a cabeça, como se fossem chapéus.
Outras lançam filhotes de leões-marinhos para o alto por puro deleite. Mas a brincadeira com os barcos é o exemplo mais extremo do que os cientistas chamam de “interação” com seres humanos. O estudo é o mais detalhado já realizado. Mas não faltaram hipóteses anteriores para explicar por que as orcas ibéricas têm golpeado barcos.
Nem os mais resistentes escapam: como o clima extremo está levando animais ao limite Uma delas é a de que seria vingança por ferimentos causados por humanos. São frequentes os casos de orcas presas em linhas de pesca ao tentar pegar os peixes fisgados. Muitas vezes, os cetáceos sofrem cortes profundos ou até perdem parte das barbatanas.
Outra hipótese é de que uma grande fêmea, matriarca do bando e batizada de Gladis Branca, tenha começado a ensinar as orcas jovens a atacar barcos após ter sido atingida por um iate. Essa última possibilidade já havia sido rechaçada antes. O especialista em orcas Jared Towers, da Bay Cetology, classificou na Science a teoria da retaliação como ridícula. Segundo ele, orcas feriadas se afastam.
Além disso, agora se ficou sabendo que a própria Gladis Branca e seu filhote Atlas, de 5 anos, já foi flagrada oferecendo presentes de atum. Atlas, como a mãe, sofreu lesões devido a um atropelamento por barco. Ninguém oferece comida para seu inimigo, ponderam os pesquisadores.
Blocos de gelos, piscinas e novas instalações: Como zoológicos estão se adaptando para um planeta cada vez mais quente? Uma terceira hipótese era de que os ataques fossem uma forma de “aula de caça”, para ensinar os filhotes a perseguir presas. Porém, as interações de orcas com barcos são completamente distintas dos comportamentos e habilidades que elas necessitam aprender para caçar suas presas, como atuns e leões-marinhos.
Joana Castro e seus colegas chegaram a ter o próprio barco abalroado múltiplas vezes. Eles usam em sua pesquisa um barco inflável monomotor de 6,5 metros. Por vezes, as orcas apenas tocavam de leve o barco. Mas em outras deram golpes com força total em alta velocidade — elas podem alcançar 55km/h. Também coautor do estudo, Guilherme Estrela, da AIMM, contou à Science que não foram poucas as vezes que os estudantes a bordo foram derrubados pelas orcas. No entanto, eles não desistiram e tiveram coragem para mergulhar e filmar os animais. Somente em poucos casos as orcas apresentaram comportamento classificado como agressivo, como abrir a boca ou soltar bolhas.
Na maioria das vezes, os golpes eram dados por orcas adolescentes, sem sinal de agressividade. Quase todo o contato era de toques e empurrões suaves. Nenhum suposto ataque foi perpetrado por machos adultos, que normalmente tomam a frente em caçadas.
Muitas vezes as orcas mostravam a barriga, um sinal amigável. E, em 2021, uma orca batizada de Eli, com 3 anos na época, trouxe um pedaço de atum para exibir aos cientistas. Castro disse que isso é um gesto extremamente social, para criar laços. Esse gesto foi repetido por outras orcas em mais de uma ocasião. Segundo Castro, a brincadeira de bater em barco pode ter começado até antes do imaginado. Há registros de 2018 em que a orca Lua, então com 6 anos, empurra suavemente o barco de pesquisa, observada de perto por sua irmã caçula, Sintra. As irmãs tomaram gosto e desde então se tornaram contumazes abalroadoras de barcos. Pode ser brincadeira, mas os cientistas estão tão preocupados quanto os navegantes pelos riscos às embarcações e às orcas. Eles recomendam que ao menor sinal de orca, as embarcações se afastem o mais depressa possível. O ideal é não despertar a atenção delas, para que não resolvam chamar o barco e quem estiver nele para brincar.
O Globo